- publicidade -

É um desafio difícil afastarmo-nos do imaginário de que a canja de galinha serve para recuperar os enfermos e que tantas vezes foi o nosso sustento em pequenos, sobretudo quando nada se aguentava no estomago. Tendo sido uma vítima frequente dessas maleitas, a canja esteve sempre presente como aquele momento em que a tempestade estava a passar e se via com confiança a luz ao fundo do túnel. Talvez agora fosse a altura certa para o mundo comer uma boa canja de galinha.

Enquanto adultos, sabemos hoje que, na sua simplicidade, a canja é um manjar e uma beleza estética gastronómica. Transporta-nos para um mundo de conforto e complexidade escondida na forma como os seus ingredientes interagem. É por isso que as canjas inspiram romarias a restaurantes que as sabem fazer bem.

Dado que não é possível correr aqui todo o mundo das canjas, proponho-vos dois grandes exemplos quase antagónicos da utilidade e prazer que as canjas de galinha nos podem dar. Já não é a primeira vez que vos proponho uma “batalha” gastronómica de onde só resultam vencedores, como foi o caso das rabanadas, escrita há uns meses.

Na Casa Nanda, a canja já elogiada por Miguel Esteves Cardoso é leve, de abrir o apetite e aconchegar o estomago para o resto da refeição. A elaboração desta canja privilegia o caldo saboroso e fino a que se unem as massinhas, pequenas e muito suaves, para encontrar um equilíbrio perfeito a cada colherada.

A canja da Casa Nanda, leve e aconchegante

Já no My Palace da Boavista e ela é rica, intensa, com muita galinha esfiada, miúdos e ovo a acompanhar e une as várias texturas na boca. A carne é esfiada e firme, os miúdos cremosos, a gema cozida e a clara cortadinha em pedaços pequenos. Estes sabores todos conjugados satisfazem por si e tornam a canja numa refeição completa.

As canjas vivem num mundo muito próprio e não se cingem à galinha. Galo, pombo e perdiz não exemplos de aves que contribuem magnificamente para a canja, emprestando o nome à iguaria mas nem sempre precisando a sua carne de ser o elemento principal. O caldo faz tudo.

No final, o aconchego e a ligação emocional que temos à canja é o principal elemento para fazer deste prato um dos grandes sucessos gastronómicos mundiais.

- publicidade -