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FITEI 49: O festival regressa ao Grande Porto de 13 a 24 de maio com o tema “Colapso e Esperança”

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A edição 49 do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, com arranque previsto para 13 de maio, volta a trazer aos palcos um programa pensado em torno de um tema central.

“Colapso e Esperança”, como explica Gonçalo Amorim, diretor artístico do festival, “não se apresenta como oposição estável, mas como campo de forças em permanente negociação. Se, por um lado, se torna impossível ignorar os processos de degradação e ruptura que marcam o presente, por outro, é na persistência de práticas, gestos e imaginários que se reinscreve a possibilidade de futuro.”

Adianta ainda: “A programação deste ano inscreve-se nesse movimento. As coproduções e criações apresentadas atravessam questões urgentes — da imigração ao trabalho, da habitação às memórias de luta, das formas de organização coletiva às violências históricas e contemporâneas — sem nunca se fixarem numa única leitura. Pelo contrário, propõem dispositivos que desestabilizam, deslocam e reconfiguram o olhar, convocando o espectador para uma posição ativa.”

Programa completo

Suplicantes Cassandra (c) Teresa Pacheco Miranda

A criação que marca o arranque do festival é “Suplicantes”, um espetáculo da estrutura Cassandra há algum tempo em digressão pelo país. Nesta reescrita imaginada pela dramaturga portuense Sara Barros Leitão, a tragédia de Ésquilo retrata uma travessia de barco repleto de pessoas que fogem de um destino fatídico — proporcionado pelo seu próprio país de origem — a eventual viagem pelo mediterrâneo e o pedido de asilo num país do sul da Europa. Esta coprodução FITEI terá duas récitas a 13 e 14 de maio, no Teatro Campo Alegre.

A 14 de maio, o Teatro Nacional São João recebe em estreia nacional “El Trabajo”, do argentino Federico León. A peça é inspirada na longa experiência do encenador e dramaturgo enquanto professor nas oficinas que realiza há 15 anos. Entrará em cena em busca da experimentação na própria pele, tornando a sua prática docente numa espécie de laboratório, que pode ser visto em duas récitas.

O Teatro da Didascália apresenta, entre 14 e 16, a peça “comestível” “Comer a Terra”. Neste espetáculo interativo apresentado no CACE Cultural, o público é convidado a refletir sobre algumas questões globais — desde a disputa pelas especiarias ao impacto da crise climática — que deixaram marcas profundas em povos indígenas e na humanidade atual, cada vez mais voraz. Neste espetáculo-jantar, todos devem vir preparados para comer, mas nem tudo será fácil de engolir.

“Bossa Nova”. créditos: Aline Belfort

A “Bossa Nova” de Tita Maravilha ganha fôlego num espetáculo a solo, a ser apresentado a 14 e 15 de maio no Rivoli. Nesta estreia e coprodução, “Bossa Nova” deixa de ser um género musical para se tornar um ato de consciência de classe. Aqui, “bossa nova” volta ao seu sentido original — um jeito novo de fazer, de existir e de reivindicar — e revela que a verdadeira revolução está no corpo, na voz e na história de quem sempre esteve à margem.

Ainda na quinta e na sexta, o Teatro do Bolhão recebe a encenação de Nuno Cardoso, “O Nome”. Nesta adaptação do texto dramático de Jon Fosse, Prémio Nobel da Literatura em 2023, uma família fraturada é posta à prova com o regresso da jovem filha grávida.

“Espalhar Fel” é a nova criação do autor e encenador Mickaël de Oliveira, concebida em formato de áudio-walk. O texto dá lugar a uma voz que se dirige diretamente ao espectador-ouvinte, guiando-o por um percurso feito de citação, narração e desolação distópica. “Espalhar Fel” conta com a interpretação de Mónica Calle. O percurso pode ser feito a 14, 15, 19 e 20 de maio e o ponto de encontro é a Praça D. João I (Rivoli).

O regresso dos Hotel Europa ao FITEI surge na forma de “Habitar”, uma reflexão sobre a crise atual de habituação que assola a sociedade portuguesa atual. A partir de testemunhos recolhidos — como já é prática da companhia — “Habitar” é um espetáculo de teatro documental que procura entender as razões e soluções para esta questão urgente. Apresenta-se no Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery, a 15 e 16 de maio.

O espetáculo emblemático de Joana Craveiro e do Teatro do Vestido, “Desver”, regressa ao Porto na edição 49 do FITEI. Com duas apresentações, a 16 e 17 de maio, a criação explora a ocupação da Palestina, presenciada numa viagem que a própria dramaturga fez em 2024. A peça é um testemunho de “um país ocupado” e volta a estar em cena no Norte, no Teatro Campo Alegre.

descobri_22508_redes_©Filipe Ferreira

Numa colaboração entre a Estrutura (Cátia Pinheiro e José Nunes) e o artista e performer Dori Nigro, “descobri-quê?” é um espetáculo que pretende contribuir para a descolonização – enquanto gesto inacabado, portanto constante e continuado – do ensino do período histórico designado como “Descobrimentos”, quebrando uma série de narrativas oficiais que romantizam esta época e procurando uma confrontação com o passado colonialista português. As duas récitas têm lugar no Teatro Campo Alegre, a 16 e 17 de maio.

A dupla Marco Canale e Miguel Oyarzun quer continuar a contar as histórias de Amanda, Pedro e Andrés — membros da comunidade indígena wichi de Tres Pozos (Argentina) — que já não estão cá para as contar. Inicialmente, o texto abordava o avanço do desmatamento e das drogas, a destruição, a sua resistência pacífica e o racismo silencioso. Qual seria o sentido de fazer esta obra sem Amanda, sem Andrés e sem Pedro, que morreu meses depois? Através das suas ausências e da presença latente dos seus corpos nas imagens cinematográficas que protagonizaram, dos áudios com as suas vozes, dos debates sobre o processo de criação e dos textos em wichi, Marco e Miguel reconstruíram a obra que não pôde existir e que, ao mesmo tempo, continua a existir. A estreia está marcada para 16 e 17 de maio, no Rivoli.

O arranque da segunda semana de festival é marcado também pelo regresso do espetáculo Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer. Nesta coreografia de Victor Hugo Pontes, o corpo é o símbolo de uma liberdade maior, o grande signo em cena. Com datas de apresentação entre 21 a 24 de maio, no Teatro Nacional São João, regressa aos palcos para mostrar um corpo de baile despido e disponível para interrogar tudo o que nos move, assusta, ameaça, transforma, condiciona e, acima de tudo, liberta.

Com passagem por Viana do Castelo e mais tarde pelo Teatro Carlos Alberto, Santiago Sanguinetti e a Compañía Abuela Katiusha apresentam uma comédia sobre traição e vingança, marcada pelo alcance da consciência de classe. “Zombi Manifiesto” conta a história dedois jovens que descobrem que os soldados enterrados no Panteão Militar do cemitério local se transformam em zombies quando alguém recita excertos do Manifesto Comunista. A estreia acontece no Teatro Sá de Miranda, a 20 de maio, e no Porto, a 23 e 24.

A dramaturga galega Lorena Conde junta-se a Raquel S. para uma criação onde exploram a lenda da guerrilheira galega Chelo. Entre documentos, ações performativas e memória incorporada, esta peça, que é uma estreia absoluta, propõe uma viagem cénica que nos lembra que cada gesto pode ser uma forma de resistência. “A Fortaleza” chega ao Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery a 22 e 23 de maio.

A ópera “sobre corpos refugiados” “18 Months” examina a resiliência do espírito humano e a interação complexa entre a esperança, a empatia e as duras realidades conferidas a migrantes que estão fora do seu país de origem. A ópera do Quarteto Contratempus e de Nuno M Cardoso baseia-se em histórias da vida real que o libretista Dimitris Andrikopoulos recolheu de refugiados afegãos, sírios e ucranianos que vivem em Portugal. As apresentações acontecem no Auditório de Gaia a 22 e 23 de maio.

 “Isto é um Hitler genuíno”, da ASSéDIO Teatro, também é apresentado em Viana do Castelo, no último sábado do FITEI (23 maio). A peça, que teve récitas no Porto durante o mês de abril, tem agora data de estreia no Teatro Sá de Miranda. Nesta encenação de João Cardoso, dois irmãos descobrem um quadro em casa do recém falecido pai com a assinatura “A. Hitler”. Esta descoberta gera um dilema familiar e obriga o público a refletir sobre uma questão eterna: a de separar (ou não) a arte do artista.

Por fim, FMI KAPA é um espetáculo de João Branco, do Saaraci Coletivo Teatral e do músico Xullaji enquanto diretor musical, que cruza teatro, música e performance para dar corpo a questões urgentes do nosso tempo — identidade, desigualdade social e colonialidade. A partir de vivências afro-diaspóricas e periféricas, a criação constrói uma narrativa potente onde a palavra, o ritmo e a imagem se entrelaçam, dialogando com a canção de intervenção e a estética urbana do hip-hop. O espetáculo apresentado a 24 de maio no Rivoli é protagonizado por músicos como Marinho Pina, Mynda Guevara e Ghoya. É a última estreia do festival.

Residências Artísticas

O FITEI abre espaço para companhias e artistas em processo de criação desenvolverem os seus projetos em contexto de residência artística. Desta vez, esta secção conta com os catalães  Monte Isla, a companhia portuense NAVIO, o dramaturgo Gerardo Salinas e o artista Junior Mthombeni, com produção do KVS da Bélgica, e ainda o artista e crítico brasileiro Ruy Filho. Estão previstas apresentações dos trabalhos em curso, no âmbito do FITEI PRO.

FITEI ABERTO

O FITEI ABERTO continua a ser uma vertente crucial do programa do FITEI para a abertura do festival a novos públicos. De 13 a 24 de maio, várias iniciativas dinamizam espaços não-convencionais da cidade com iniciativas como concertos/performances em espaço não convencional (denominados de Aparições); festas abertas ao público como o concerto abertura de O Gringo Sou Eu ao lado do grupo Sons do Bairro e a apresentação do último disco do rapper Ghoya. Destacam-se ainda conversas, lançamentos de livros e discos e ainda uma sessão de escuta temática do 25 de abril organizada por Isabel Meira e André Cunha no Batalha Centro de Cinema.

Toda a informação sobre o FITEI Aberto pode ser consultada em fitei.com.

FITEI e as Escolas do Porto

Dando espaço às escolas de teatro da cidade, o FITEI apresenta um conjunto de exercícios e espetáculos criados em contexto de formação.

“O Cerejal”, da ESAP, uma encenação de Ivo Saraiva e Silva, apresenta-nos uma família endividada ante a sua herdade em falência: o grandioso cerejal que já foi bonito e viçoso, mas que agora é passado. A peça baseada no texto de Tchékhov é apresentada no dia 21 de maio na Sala de Bolso da Assédio Teatro.

Já um grupo de alunos da escola ESMAE, com a direção de Afonso Parra, traz ao FITEI a peça clássica “O Avarento”, de Molière. Apresenta-se no Jardim do Centro de Cultura Politécnico do Porto entre 21 e 23 de maio.

Por fim, o balleteatro leva até ao Armazém 22 um projeto dirigido por Tiago Sarmento que pretende o questionamento do papel dos alunos em sociedade, refletindo sobre o estado do mundo, a violência, a guerra, a migração, a memória coletiva e a esperança. As recitas são a 23 e 24 de maio.

Isto não é uma escola FITEI

A secção Isto Não é Uma Escola FITEI engloba um conjunto de ações de formação gratuitas — encontros, masterclasses, workshops — e reflexão crítica, aberta à comunidade e paralela aos espetáculos. Nela, os artistas que passam pela cidade do Porto partilham com o público interessado procedimentos criativos dos seus trabalhos, retomando os seus percursos num terreno que se deseja horizontal e democrático.

Farão parte destes encontros Miguel Oyarzun e Marco Canale, Santiago Sanguinetti, Lorena Conde e Jorge Palinhos.

FITEI PRO

Durante a primeira semana do festival, serão desenvolvidas atividades específicas para programadores internacionais. Ao abrigo do FITEI PRO, são organizados encontros entre programadores e artistas, mesas redondas, e showcases de forma a promover e consagrar o talento nacional emergente.

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