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A planície é vasta, a terra é fértil, a história é rica.

Castela e Leão é um território vasto, uma comunidade tão grande que não cabe toda nesta crónica. Por isso, teremos no futuro muito tempo e mais linhas para explorar toda esta região espanhola. Hoje deixo-vos uma crónica sobre o último passeio que fiz nas localidades mais a oeste, nas cercanias de Léon.

Passadas as montanhas de Sanabria ou Montesinho afundamo-nos na meseta, esse planalto de centenas de quilómetros que moldou nações espanholas e, por inerência, a nossa. Das batalhas aos acordos, às sementeiras e às criações de gado, Astorga, Bañeza, Órbigo, Léon e outras localidades criaram o seu receituário próprio, onde se sente a terra e as necessidades pelas quais o povo passou.

A riqueza gastronómica de Léon (a província, não só a capital) contrasta uma vez mais com a ideia que temos que a comida espanhola é toda igual e que só passa por calamares e “bistecs”. Passa até por mais do que as costumeiras tapas, pinchos, ovos rotos e setas que por cá se fazem e vendem. A província de Léon, na ponta oeste da comunidade autonómica, revela mais uma vez a riqueza da comida espanhola, dos ingredientes e das receitas limadas pelo tempo. Longe do mar, importa a sua diversidade dos rios, das pastagens e dos legumes diversos que ali conseguem crescer.

Para mim, Léon é cogumelos, é a truta, é perninhas de rã suculentas, é tomate de várias espécies, é a vaca celebrada em vários cortes e maturações. É cozido (em que parte da europa não há cozidos?), onde se celebra o grão-de-bico que faz lembrar as ligações a Trás-os-Montes e ao Rancho.

Entrando por Chaves, podemos deleitar-nos num daqueles restaurantes de estrada que ainda existem e que são acarinhados pelos locais. Em Padornelo, o asador com o mesmo nome possui uma vista magnífica sobre da serra, transformando-o no local ideal para descansar da autoestrada. O menu divide-se nas especialidades da casa, que ainda misturam a influência galega com a leonesa e os cortes de carne mais tradicional de vacas velhas. As nossas escolhas passaram por uma fresca salada de atum com pimentos assados e o solomillo de vitela com legumes assados.

Mais a leste, devemos parar em Hospital de Órbigo, em pleno caminho de Santiago e ir ao restaurante La Encomienda. Uma atmosfera familiar recebe-nos num pátio interior com decoração profusa em madeira e onde as gerações de cozinheiros se vão sucedendo. Cecina de entrada, cortada fina, perninhas de rã estufadas para partilhar, mas sobretudo a truta em filetes num caldo intenso de pimentos (a receita de 1975), são opções a não perder.

Em Rionegro del Puente, mais a sul, encontramos o menu degustação mais inusitado da região, centrado nos fungos que crescem localmente. Numa sala pequena e aconchegante do El Empalme, de lareira acesa quando está frio, corremos o mundo das trufas, cogumelos e afins, muitas vezes harmonizados com a caça outonal, sob a batuta da chef, cozinheira e micóloga Glória Lucía. Serve vinhos de Toro que harmonizam com tudo.

O El empalme é a referência de Rionegro del Puente

Por falar em vinhos, na Léon capital deparamo-nos com mais modernidade e cosmopolitismo. Ao lado da catedral, um dos pontos mais emblemáticos e turísticos da cidade, podemos petiscar na Trastienda del 13, wine bar gémeo do de Vigo, com vinhos que correm todo o noroeste espanhol. Comida moderna e ambiente informal com esplanada aquecida, podemos pedir Brioche com morcilla, quentinho e intenso, uma salada de caça ou fideuà com vieiras. O serviço de vinho é importante e os aconselhamentos são úteis para explorar uma carta curta, mas rica em opções.

Por fim, uma referência que posso apelidar de gastronomia de classe mundial: o El Capricho, em Jiménez de Jamuz. Pensada para ser uma ode à vaca de trabalho e às suas carnes, a refeição neste restaurante é uma viagem a nuances e pontos sápidos que julgamos nem existir.

Mas, sou sincero, esta viagem gastronómica merece uma crónica à parte, que é o que encontrarão por aqui no próximo passeio gourmet.

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