Entro no Bufete Fase hoje como há trinta anos. Um corredor estreito que me leva para uma sala traseira simples, luminosa e vetusta. Sei ao que venho e sei o que vou comer. Quando passo a porta há uma sensação de certeza absoluta, um foco. Não se vai lá com outro objetivo. É para a francesinha. É para a francesinha do Bufete Fase.
Eu já não sou o mesmo de há trinta anos, mas o espaço é.
Atrás do balcão corrido, vazio de decoração, simples, minimalista, lá no canto, está José Pinto a trabalhar. Quase sempre de costas, com a bateria de ingredientes ao lado e à frente, alinhados, guardados, à espera de serem preparados, montados, grelhados e aquecidos, responde ao nosso cumprimento sem perder o foco e a concentração. À saída, se o serviço tiver acabado, despede-se com um grande sorriso e deferência por termos escolhido o seu espaço.

A Linguíça que encima a Francesinha é uma das marcas 
Bufete Fase imponente na Rua de Santa Catarina
A analogia que faço hoje, passados trinta anos, é com os exíguos espaços de sushi japoneses onde o cliente se senta, apenas escolhe o que beber e as peças vão sendo servidas até decidir parar. Não há opções, não há menus, apenas concentração para o que se vai comer.
Ainda assim, no Bufete Fase pode fazer-se uma escolha. O molho e a sua intensidade de picante. Há uma versão para corajosos onde ainda se podem ver as sementes de piripiri espalhadas pelo líquido e outra menos picante, mas ainda assim cheia de personalidade. É perguntar pelos seus nomes, que eles lá dizem! Pode-se escolher, desde que se saiba que são sempre fortes. O mais picante é ligeiro, claro e elegante, sente-se nos lábios, mas não fica presente. Refresca. O molho que cobre a francesinha é o manto necessário para ligar tudo.
Há quatro carnes na francesinha do Fase, porque José Pinto não dispensa a carne seminal da francesinha original. Assim, para além de salsicha fresca e linguiça mais especiadas e secas que as que encontramos muitas vezes nas boas receitas portuenses (e a que muito devemos à salsicharia Leandro), o bife vem acompanhado de uma pequena porção de carne assada. Quase não se dá por ela, mas está lá a aportar sabor e complexidade à mistura de sabores do centro da francesinha. E ainda temos direito a uma dose extra dessa linguiça, por cima do queijo fundido, que anuncia logo porque é que a do Fase não quer ser igual às outras.

Nada falta a esta foto. Só talheres 
José Pinto a oficiar
Depois, o pão. Quando chega à mesa, a peça parece grande. No fim, perguntamo-nos como conseguimos comer tudo sem nos enfartarmos. A razão é porque o pão é branco, leve e não enche. E esse é um dos grandes segredos das francesinhas que ficam na memória.
Porque nas francesinhas não deve haver protagonistas principais: “ai o molho é que é bom, ai a linguiça é que é boa, ai o pão é que é fofo…”. O segredo da francesinha é a união harmoniosa de todos os ingredientes e a sensação de leveza no final, tão rara por esse país fora.
No seu silêncio, José Pinto faz-me lembrar Jiro Ono, mestre de sushi japonês, que dizia no documentário que lhe fizeram em “dreams of sushi”: Esteve mais de 50 anos a aperfeiçoar a técnica de fazer sushi. Porquê parar, se nunca foi tão bom na sua arte como agora?

