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Temos de aproveitar os momentos que a vida nos dá e neste estranho verão gastronómico há que não perder a oportunidade de comer a comida que Ana Leão está a fazer num pop up do parque da cidade, na zona do Soundwich.

O Colher Torta é, durante o estio, um restaurante temporário no Porto, porque também é um projeto maior desta chef inquieta que anda há procura de sabores, texturas e técnicas enraizados na cultura dos povos, nem sempre no radar das tendências culinárias, mas nem por isso perdidos. Hoje, vejo a Ana como uma nómada curiosa que tem como paixão e profissão a cozinha. É a sua vida. Do que tive oportunidade de comer elaborado por ela, posso dizer que existe uma procura pela genuinidade dos produtos e dos povos e não um aproveitamento dessa genuinidade para um conceito gastronómico. Não existe nela um desejo de elaborar um conceito de gastronomia australiana (onde viveu) ou gastronomia do médio oriente (que adora e estuda). Será essa procura consciente? Quem sabe?

A inquietação e curiosidade levam-na a apresentar-nos um menu semanal baseado no que está bom para comer, acrescido de técnicas aprendidas por si e partilhadas pelos colegas de tantas nacionalidades com quem trabalhou nos países por onde viveu. A melancia congelada com chocolate, comida de subsistência e de recurso para sobreviver ao calor das quintas australianas onde trabalhou, é um desses exemplos e está no menu de sobremesas.

salada de nectarinas

Mas antes da melancia pude degustar uma salada de verão de nectarinas, tomate coração de boi, miolo de pão e avinagrado de vinho tinto, encimado por estragão como tempero, que envolve tudo. Fresca e leve, suporta bem o calor e cai fora dos ditames portugueses. A sandes cubana, que sei de fonte segura que ficará na carta durante o verão, farta mas leve, de carne de porco esfiada e mostarda, cobertas por uma regueifa crocante e suave, é capaz de nos transportar para o caribe e para os almoços na praia. As cenouras assadas, pouco doces, com ervas aromáticas, molho de iogurte e “mel de leitelho” criaram um prato complexo e com sabores que se complementam entre si, continuaram a abrir o apetite.

Nos pratos principais, comi lulas grelhadas com puré de abobora e couve frita. A fritura da couve aporta crocância ao prato e a laranja misturada no puré de abobora, frescura. A coxinha de frango com sabores marroquinos teve mais uma vez o dom da viagem: uma proteína marinada e um “ras al hanout” pessoal a trazer um sabor exótico intenso ao frango, acompanhado por uma “jewel quinoa” (quinoa guarnecida de frutas secas) para misturar e envolver com “harissa” e iogurte fresco. O prato é rematado com agrião, com o amargo da erva a trazer frescura ao palato no final.

melancia

Para além da melancia, Ana também recomenda com entusiasmo as sanduiches de gelado, cujos sabores vão variar todas as semanas. Na minha semana, o sabor escolhido foi o pistácio.

Para beber há vinho e água, mas também há sumos de fermentação ligeira, que lhe baixa a doçura e lhe confere um gás natural, e infusões. Das minhas visitas, provei o sumo e laranja e a infusão de canela.

Há, no Colher Torta, a intenção de mostrar coisas novas aos clientes e não ter medo disso. É preciso aproveitar esta universidade da comida que Ana Leão está disposta a oferecer, enquanto por aqui andar e antes da inquietação a levar para outro lugar.

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