A Salada de cogumelos sazonal do Mito
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Gosto de restaurantes conceptuais que inovam nas receitas sem perder o rumo. Parece ser um reflexo do séc. XXI a lista manter alguns pratos com saída e renovar amiúde o resto da carta. Esta abordagem deixa-me agradavelmente inquieto e com vontade de ir passando para ver o que há de novo.

Se lhe perguntar, Pedro Braga dirá que o Mito não é conceptual, que é um restaurante onde gosta de criar pratos para os clientes disfrutarem sem medo de alinhar o tradicional com o moderno. E assim faz. Mas o Mito é conceptual. Aliás, está no nome: todos os mitos são um conceito, uma criação do povo para explicar coisas difíceis ou feitos extraordinários. A sala, monocrómica e minimalista, mas aconchegante, ajuda a internalizar o conceito mitológico moderno e, quiçá, futurista.

Logo nas entradas sinto toques de inquietação, de arrojo, de tirar o cliente da sua zona de conforto. Chega à mesa uma proposta de manteigas, uma branca de amendoim com raspas de laranja e uma laranja feita de banha de porco. A primeira é leve e sentem-se bem as raspas de laranja, com doçura e frescura e a segunda muito intensa, a sentir-se a untuosidade, mais difícil de repetir. O pão é de massa mãe e sente-se aquele amargor característico que quase se perdeu no tempo e que agora é mais comum.

A partir daqui, fui pedindo pratos para partilhar com os outros comensais. Uma entrada visualmente clássica e de sabor contemporâneo é o presunto de pato. Curado em casa, come-se como o presunto normal e aprecia-se como iguaria rara, denso na textura e suave no sabor. Uma das assinaturas do Mito é a bola de Berlim de pata negra. O extraordinário nesta proposta é o contraste entre o doce da bola (com o açúcar grosso polvilhado), a massa fofa e a intensidade do creme pasteleiro em versão de fumeiro e sabor muito prolongado. Espero que este seja um daqueles pratos que o chefe nunca tire da carta. Também há um croquete de carne, bem construído, crocante por fora e macio por dentro, onde prevalece o sabor da carne no final. E o tártaro de carne, fresco e bem cortado, condimentado e aveludado.

Ainda nem chegaram os cogumelos à mesa e já se lhes sente o cheiro! Floresta e trufa em cogumelos frescos. O outono na boca. Uma salada de várias espécies, todas intensas e vivas, finamente laminadas, com gema de ovo, folhinhas secas de batata-doce, assentes numa base cremosa. Tudo junto dá um prato reconfortante e contemporâneo. Até quem “não gosta de cogumelos”, do alto dos seus onze anos, comeu tudo até ao fim. Este é um dos pratos de sabores sazonais que vos falei.

Outro ícone é o bacalhau. Uma peça grande e uniforme, suave por todo, a lascar e cheio de sabor. Acompanhava uma couve assada no maçarico e exalava um aroma queimado e ameno. O feijão vermelho e o puré que o acompanhavam puxaram pela portugalidade do gadídeo.

Na visita mais recente, terminamos a refeição com um arroz de tamboril onde se destacou a frescura do peixe, a intensidade do caldo, bem puxado e um arroz cozido no ponto. Um grande final para mais uma das tais refeições partilhadas. Creio estar agora na lista uma versão em caril que mais tarde o mais cedo tenho que ir provar.

Os vinhos são bons e obedecem a uma lógica coerente de pequenos produtores. Mas tal como os produtores, a lista é muito curta para a oferta gastronómica que o restaurante oferece. A equipa de sala, despachada e solícita, tenta sempre encontrar uma alternativa, mas faz parecer o problema recorrente. Há uma disrupção que afeta a experiência e esta merece mais.

No final, a rabanada, homogénea e cremosa, elaborada ao estilo basco. Chega à mesa quente e levemente doce. Vai mudando os acompanhamentos com a época, dos pistácios às romãs e é uma das propostas imperdíveis da refeição. Já faz parte dos anais gastronómicos contemporâneos e da confraria que lhe é dedicada.

E depois o café expresso, que no Mito é sempre bom, intenso e com aromas frescos nada queimados! Uma parceria que o restaurante fez com a marca Vernazza e que nunca falha em oferecer um remate de elegância à refeição.

E assim o tempo passa e o Mito vai mudando. A dinâmica das propostas é permanente. A inquietação sente-se sempre que nos sentamos para comer. Com isso ganhamos todos.

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