Terminada a gala de entrega das distinções Michelin de 2026, que se realizou no sumptuoso hotel Savoy Palace no Funchal na semana passada, está na altura de fazer um balanço e revelar algumas curiosidades que poderão ter passado aos olhos dos mais desatentos. Foi uma noite que este ano deixou mais alegrias que tristezas no tapete vermelho, dado que Portugal arrecadou, de uma só vez, onze estrelas. Foi uma das noites mais profícuas de sempre do guia no nosso país, pelo que vos deixo três curiosidades que poderão ter passado desapercebidas ao comensal mais distraído.
A consagração de Angélica Salvador. A alegria de Angélica Salvador ao receber a estrela foi contagiante. A celebração pela distinção do seu “In Diferente”, no Porto, pareceu ser um misto de esforço de conquista e reconhecimento pessoal por todo o trabalho efetuado para construir o caminho que aqui culmina. Acresce que é a primeira brasileira a conquistar uma estrela fora do Brasil e “apenas” a terceira mulher a liderar um restaurante estrelado em Portugal, depois de Marlene Viera e Rita Magro. Parece pouco, mas não é.



Juntamente com Tiago Bonito, que também conquistou uma estrela no “Eon”, tornaram-se no segundo casal em Portugal estrelado em projetos diferentes, depois de Marlene Vieira e João Sá terem sido os primeiros com a conquista da estrela pela primeira no ano passado.
A primeira estrela de sempre no Douro. A aposta do hotel Torel Quinta da Vacaria em Vítor Matos era já uma forma de afirmação que este restaurante tinha em conquistar uma estrela. Para além de ser a sétima estrela que este chefe conquista (a contar com a seminal da Casa da Calçada, em Amarante, há muitos anos), O “Schistó” é o primeiro restaurante de sempre a trazer uma estrela para a Região Demarcada do Douro, território em plena expansão turística marcada pela excelência e pela qualidade da sua oferta.
O Norte de Portugal e a Galiza passam a ter exatamente o mesmo número de estrelas. Pode não parecer relevante e muitos não repararam, mas é uma notícia importante para o caminho que a gastronomia nortenha tem vindo a trilhar nas últimas décadas. São agora três restaurantes de duas estrelas e dezasseis de uma em cada uma das regiões. Para quem vive fora das centralidades lisboeta ou madrilena, esta estatística é um marco na afirmação de Portugal como um espaço próprio no universo Michelin. Tal como a Catalunha ou o País Basco, afirma-se a região do Norte de Portugal como esteio e referência gastronómica peninsular e europeia, sem nada dever ou se apoucar a quem o rodeia. Fica esta referência regionalista orgulhosa que, tal como outras lutas, não deve deixar de ser travada.
Há sempre mais para ser contado nestas distinções quando falamos da premiação da excelência que é o guia Michelin. Do reforço de estrelas no Alentejo e no Algarve, à juventude de Francisco Quintas em Amarante ou da chegada de uma nova segunda estrela a Lisboa pela mão de Rui Silvestre. Tudo conta quando falamos das referências gastronómicas mais cotadas do mundo. Mas isso foi muito badalado noutros fóruns e publicações nos últimos dias. Assente a poeira, é interessante olhar para o que poucos viram, e continuar a celebrar.

