Rita Magro chega ao Atrevo com uma estrela Michelin na bagagem. A jovem chef saiu do Blind, uns metros mais abaixo, causando surpresa entre a comunidade gastrófila. Foi considerada pela Michelin “chef revelação” no ano passado, uma distinção que a colocou debaixo de focos. Mais do que querer saber as razões, interessa-me saber que tipo de comida é que ela propõe a quem a visita.
Já o Atrevo é uma casa segura. Desde a sua abertura que parece transmitir um fio condutor do qual não quer sair. Uma cozinha de partilha e muito elegante, sem ser cara. (Rita Magro propõe o seu primeiro menu degustação a 65€). O espaço também começa a cimentar a ideia que é um bom farol para chefs mulheres, já que Tânia Durão também aqui foi mestre da cozinha durante alguns anos, com muito sucesso. Se é propositado ou não, não sei, mas é um facto, o Atrevo está nas bocas do mundo quando é liderado por mulheres.
Apanhamos o restaurante com o seu menu de inverno, o segundo desde a chegada de Rita Magro aos fogões. Seguimos a proposta de um dos comensais em pedir todas as entradas e substituímos uma delas por um prato principal, tudo a partilhar. Assim, o popular bife da vazia foi substituído pelo aburguesado pato.



Dando azo à filosofia de “comida de raiz portuguesa com requinte”, depois do pão e azeite, veio um aperitivo chamado “salsicha do bolhão e gochujang”. Numa época em que toda a gente no Porto anda a imitar os originais do Gazela, o Atrevo apresenta a sua versão do cachorrinho, com todos os seus sabores e montada de uma forma muito elegante. O picante apresenta-se no molho coreano, cor-de-laranja, servido em “moedas” no topo do queijo flamengo cremoso.
No conjunto das entradas servidas destacou-se a salada de alface, presunto e queijo de São Jorge. A alface é levada à grelha e fica com um excelente sabor grelhado tostado, para além de ficar pouco cozida e firme por dentro. O resto é um conjunto de tradicionalidade sendo que o presunto era elegante e pouco salgado e o queijo de São Jorge não era muito forte. É pelo equilíbrio de todos os sabores e nenhum se sobrepor que esta entrada é muito boa e abre o apetite para o resto.


Talvez o prato mais elegante e complexo desta noite tenha sido o atum da Balfegó, a reputada marca catalã especializada na captura deste peixe. Grelhado em técnica tataki, foi acompanhado por romã, rabanete e funcho, todos ligados por um creme frio e “fresco”, que parecia ter todos estes elementos conjugados.
Já o prato “feijão manteiga, chouriço de porco preto e couve coração” era uma linda interpretação da sopa de pedra, e fez jus ao nome. Depois de adicionado o caldo todos os sabores da conhecida sopa portuguesa fundiram-se num sabor tradicional muito bem confecionado. Nem muito sal, nem muito feijão e todos os ingredientes colocados de uma forma muito equilibrada. Poderia ter vindo com menos caldo de modo a não terminar só com uma sopa, que na realidade é. Mas isso foi a minha opinião, porque o resto da mesa apreciou o prato mesmo assim. Uma ótima harmonia entre o sabor tradicional e a apresentação moderna. Em resumo, veio mais desmontado o nome no menu do que o prato em si.


A saber ao inverno veio para a mesa um prato de conforto que é uma homenagem ao umami português, que foram os cogumelos com queijo de São Jorge e gema de ovo curada. Um prato que entregou intensidade, textura e sabor com um final muito prolongado e que é um regalo para esta época do ano.
Para terminar partilhamos o tal peito de pato, confecionado no ponto, cor-de-rosa por dentro, e não bem passado e beje, como muitas vezes nos servem em locais mais descuidados. Veio acompanhado de uma pera-rocha levemente bêbeda, bem infusionada, docinha, e aipo em puré, aveludado, levemente amargo, contrastando com o doce da fruta e do molho demi glace.


Não conseguimos sair do restaurante sem passar pelas sobremesas, que demonstraram o nível técnico que a cozinha possui. Foi sacrificado um cheesecake basco, cuja variação nacional era o queijo da serra, mas a banana da madeira com mascarpone e caramelo salgado tocou no imaginário da banoffee, assim como a castanha com abóbora hokkaido, com forte prevalência no aroma da fava tonka que nos transportou para um outono recente do qual acabamos de sair. Foi um ótimo e doce final.
O Atrevo propõe uma cozinha de ingredientes e um serviço de fine dining descontraído. Foi o que encontrei. Uma lista de vinhos moderna e um serviço que não se nota, mas que sabe fazer recomendações quando pedido. Depois desta experiência, é preciso ir para o balcão em frente à cozinha e provar o menu degustação para confirmar o que Rita Magro quer do seu Atrevo. Fica já marcado para breve!

