Elefante na Sala: “Manuais escolares gratuitos”

Nesta edição do elefante na sala, vamos falar do grande elefante que é o programa de “livros gratuitos” das escolas. Sim, aquela coisa que as pessoas pensam, e dizem, que é o Estado a oferecer livros às crianças, mas que na realidade é só um “empréstimo”.

O programa de “manuais escolares gratuitos” chama-se MEGA e no ano letivo de 2019/2020 foi alargado a todos os alunos que frequentam a escolaridade obrigatória na rede pública do Ministério da Educação. Ainda melhor, para não vermos mais manifestações de indignados paizinhos e filhinhos, o programa foi alargado às escolas com contrato de associação (lá sobram mais uns cobres para a farda de equitação, se for preciso, claro).

Mas voltemos ao MEGA. No final do ano letivo anterior, os encarregados de educação (ou melhor, alguns encarregados de educação) inflamaram as redes sociais com desabafos de indignação por, imagine-se, ao devolverem os livros escolares que foram gratuitamente cedidos aos seus educandos, os deveriam devolver em bom estado e devidamente limpos e apagados de conteúdos que fosse dos seus educandos. Obviamente, os meios de comunicação social não perderam a oportunidade de ampliar essa indignação e socorreram-se de umas mãos cheias de especialistas para comentar esta afronta que o Ministério da Educação fazia a todos os pais e educadores.  

Mas esta afronta, apanhou apenas os encarregados de educação mais distraídos, que inebriados com a expressão “livros gratuitos”, assinaram de cruz o documento que lhes foi apresentado no início do ano letivo, explicando, ponto por ponto, o que se esperava dos alunos, e dos pais, em termos de utilização, e devolução dos manuais escolares.

Já no arranque deste ano letivo, muitos encarregados de educação se queixaram de receber livros em “mau estado de utilização”. Se eu fosse pessoa de apostas, apostava que muitos deles foram os mesmos indignados por lhes pedirem a devolução dos livros em bom estado.

E por falar em “estado”, a culpa é sempre dele, certamente (do Estado). Afinal, a responsabilidade não é das crianças, que como crianças que são, utilizam os manuais da melhor forma que podem, e sabem. A responsabilidade não é dos encarregados de educação, que nunca souberam que deveriam entregar os manuais em boas condições, e nunca sequer repararam no que as crianças faziam nos livros até chegar à altura de limpar todos os conteúdos! A responsabilidade não é das escolas porque não verificaram corretamente o estado dos livros que foram devolvidos… Em suma, como em tantas outras ocasiões em Portugal, a responsabilidade não é de ninguém… exceto do Estado, do Governo, claro!

Arranca por estes dias o ano letivo. Muitas crianças aguardam ainda a entrega dos seus manuais “gratuitos”. Muitos encarregados de educação continuam a reclamar sobre o mau estado em que os manuais que recebem se encontram. E o ano letivo está a arrancar.

Lamentavelmente, por muito boas intenções que tenha o Governo, o Ministério da Educação, ou as escolas, é intrínseco à nossa sociedade que programas desde género estão destinados ao fracasso. Porquê? Porque ninguém quer a responsabilidade que lhes é pedida. Ninguém! As escolas não querem “comprar guerra” com os pais, exigindo que apague melhor esta ou aquela página, ou dizendo que um ou outro livro está em mau estado e terão de o pagar. Os pais não aceitam que lhes digam que os livros estão em mau estado e que necessitam de os limpar melhor, ou de os pagar por estarem em mau estado.

Na minha passagem académica pela Universidade de Aveiro, foi lançado um programa de mobilidade urbana inovador, único mesmo, na cidade de Aveiro, as BUGA (Bicicleta de Utilidade Gratuita de Aveiro). Vários pontos de entrega e recolha de bicicletas foram implementados pela cidade. As bicicletas eram equipadas com um chip de localização, que permitia à entidade responsável pela manutenção do programa, detetar se estavam a ser utilizadas de forma abusiva. De facto, várias vezes foi necessário ir buscar as bicicletas a casa de pessoas que as utilizavam e levavam para casa, em vez de as deixar nas estações de recolha e entrega. Várias vezes foi até necessária a intervenção policial para recuperar as bicicletas. Hoje, o programa é uma sombra do que poderia ser. Do que poderia evoluir.

Da mesma forma, o programa MEGA será, em poucos anos, uma sombra daquilo que poderia ser. Primeiro porque não há orientação estratégica do ponto de vista de conteúdos nos livros, para que a sua reutilização seja facilitada. Segundo porque não estamos socialmente preparados para uma utilização e reutilização responsável.

E no fim, ganham sempre os mesmos: as Editoras que de ano para ano vão continuar a vender manuais novinhos em folha.

Gilberto Pereira
Consultor de Marketing, Comunicação e Estratégia Digital, Diretor de Operações na MindSEO – Digital Inteligence Solutions.

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