©João Tuna
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O título mais parece um slogan planfetário, uma espécie de lema. Contudo, alude à peça baseada na obra de Arnold Wesker, o autor britânico cuja descoberta pelo Ensemble – Sociedade de Actores levou este colectivo teatral portuense a dedicar-se pela terceira vez à transposição da escrita do dramaturgoinglês para o palco. Foi isso mesmo que se verificou em 2005 com Cartas de Amor em Papel Azul e, apenas volvido um ano desde essa data, um novo retorno ao universo do autor com Quando Deus Quis um Filho.

Com Emília Silvestre em palco a encarnar o papel de Gertrude – a personagem nuclear da devoção dos olhares dos espectadores – neste trabalho encenado por Jorge Pinto, que assina de igual modo a cenografia, todo o foco está (con)centrado na questão biográfica de uma mulher: as incidências da sua vida pessoal, profissional e relacional.

O móbil de conteúdo da peça versa de forma subtil e insinuante outra dimensão: o quanto a imagem que transmitimos de nós mesmos pode ser um espelho côncavo e convexo daquilo que projectamos para a interpretação do outro, o receptor, mas sobretudo a consciência da imagem (ou a falta dela) que fazemos de nós. Convém a esse mesmo respeito não esquecer que Gertrude é uma actriz de sucesso, pouco crente na qualidade do talento que possui e que todos lhe reconhecem. E, ainda assim, vive na permanente insegurança quanto à firmeza da qualidade dos seus créditos artísticos.

Sobre isso reflecte Jorge Pinto: “Esse é o tema da peça. Sabermos que imagem é que temos de nós, o que é que fazemos dela, se nos apaixonamos de tal maneira que ela nos vai decepcionar ou se nos vai alimentar o ego. Como é que nós gerimos isso?”, deixa como interrogação o encenador.

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A peça, para além de um retrato do declínio de uma actriz, é de igual modo o reflexo de uma crítica social com algum poder de encaixe e permuta da realidade britânica para a portuguesa, de resto Arnold Wesker dá as directrizes nesse mesmo sentido: “Se for representada num país fora do Reino Unido onde não exista comunidade negra, essa comunidade pode ser substituída por outro grupo social discriminado. A interpretação conferida às palavras do escritor por parte da tradutora Ana Luísa Amaral redundou na opção de que Samson (António Afonso Parra) e Kennedy (José Eduardo Silva) seriam ciganos. Algo que não parece molestar a coerência da dramaturgia, como facilmente se compreende.

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A descartabilidade dos seres humanos vinga como mensagem subjacente a este trabalho teatral. A vida de Samson, que se cruza com a de Gertie, é o espelho da de muita gente jovem relegada a uma condição social secundária no nosso quotidiano, independentemente da capacidade que possuem para fazerem algo melhor. Por seu turno, Kennedy, que sonha ser actor e dramaturgo e afirma isso de forma taxativa e peremptória no diálogo com Gertie, não passa de alguém que afinal se masturba com as virtudes financeiras de um Deus Omnipotente chamado Mercado. As vidas deste trio vão desfilar pelo palco a partir de hoje, quinta-feira, dia 18 de julho, em registo de estreia até ao próximo dia 28, domingo, no Teatro Nacional São João, no Porto (qua+sáb às 19h/qui+sex às 21h/dom às 16h). Sobre estas personagens cuja vida mundana se insinua no estrado onde tudo se representa, são descritas por Jorge Pinto como “ridículas e generosas, apaixonadas, solitárias, inteligentes, medrosas, temerárias e especiais” e essas características díspares são afinal os seres humanos, a tal “gente que ri, dança, chora e ama despudoradamente”. O Ensemble aprecia estas tonalidades comportamentais, admitem mesmo: “Gostamos de peças com gente dentro!”, torna-se assim um imperativo que os espectadores também não fiquem de fora deste enredo, que o mesmo é dizer, da Primavera Selvagem.

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