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O L’Égoïste é um oásis na Lapa

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A Lapa, no Porto, deve ser a zona mais mal servida de restaurantes da cidade. Pese embora uma grande aglomeração residencial, está demasiado perto do centro e da Constituição para que se estabeleçam casas boas para comer. Ao mesmo tempo, fica demasiado longe para uma caminhada até onde a oferta de restaurantes seja razoável. Será possível encontrar alguma comida popular, vulgo tasco, mas ao nível da cozinha mais criativa e fine dining, a coisa era inexistente. Até agora.

Recentemente, a insígnia cinco estrelas do grupo Marriot fez abrir um hotel na Lapa, o Renaissance. Numa zona com pouca pressão turística e a precisar que lhe prestemos atenção, a presença deste hotel parece ter trazido benefícios. A criação do Parque Mário Soares, pelo município do Porto, mesmo ao lado, e a estação de metro complementam a fruição da área.

É precisamente dentro do Renaissance Porto Lapa Hotel que encontro o L’Égoïste. Espaço moderno, decorado com motivos mediterrânicos e tranquilo, tem um bar no acesso ao restaurante onde nos podemos ambientar antes da refeição. Oficiado pelo Chef Miguel Pinto, a carta propõe-nos sabores cosmopolitas e uma técnica delicada, sem perder autenticidade e a marca da gastronomia portuguesa.

Logo nas entradas, a rosa de salmão surpreendeu de imediato. É um dos pratos de assinatura do chef e visualmente prende logo a atenção. Felizmente, pelo sabor também. O peixe é fatiado fino, curado e cheio de sabor, equilibrado por nabo, intercalado em pétalas e com gel cítrico a trazer complexidade à proposta. À harmonia de cores junta-se a de sabores: Complexos e subtis. Também vieram os croquetes de boi, grandes, quentinhos, estaladiços por fora e a esfiar por dentro, com um sabor forte à carne. Chegaram cobertos por uma maionese de açafrão, com o condimento bem presente, que ligou muito bem com a proteína. Os croquetes foram colocados sobre um molho de barbecue doce. Um prato intenso, mas não exagerado como as palavras poderão indicar. A cavala em citrinos mostrou-se um prato complexo e delicado. Mais pela cavala fumada, a parecer veludo e a desfazer-se na boca, porque embora se chamasse citrina na lista, era mais marcada pelo creme de beterraba que a vinha a acompanhar.  

Outra proposta que oscila entre o tradicional e o elegante são os raviolis de lavagante. Não pretendendo a proposta ser mais do que se espera de um ravioli bem feito, a elegância da massa e a intensidade do recheio, é pelos ingredientes que este prato se destaca. Estava tudo no ponto, húmido, al dente, macio. Um fumé e um apontamento de caviar sobre a pasta remataram a oferta. O prato chama-se “o melhor do ravioli” e foi isso que veio para a mesa. No “mil folhas e cevada” destaca-se a criatividade. Prato vegetariano, o mil folhas foi criado a partir de cogumelos e a cevadinha, cozida no ponto, contrastou com o sabor dos fungos, absorvendo-lhe o sabor e o umami e prologando-se muito tempo na boca.

Nos pratos principais, o leitão e as short ribs foram feitos com técnica semelhante, desossados, trabalhados e remontados no prato, podendo a cozinha dar-lhe a forma que quiser. Mais sucesso para o leitão, que manteve a pele crocante e foi servido com um coração de alface grelhado, de sabores tostados, e molho de laranja, a fazer reviver toda a memória do leitão tradicional. Sofreram mais as short ribs, que ficaram um pouco secas na confeção, tendo sido salvas por um molho demi glace intenso e cheio de sabor, e cujos legumes assados ajudaram a equilibrar a intensidade do prato.    

A pastelaria da casa mostra técnica e criatividade. O destaque maior for para o caviar de tiramisu, preparado numa caixinha produzida para o efeito e a desafiar o nosso cérebro para a sensação de um produto salgado, mas que está a ser servido na sobremesa. Era doce, claro! Uma esterificação escura muito pequena, talvez do café, e um creme de tiramisu muito delicado onde se percebiam todos os ingredientes da sobremesa italiana. E um desafio divertido feito para terminar a refeição com alegria.

A lista de vinhos é coerente com o menu e varia entre propostas clássicas e novidades de produtores mais pequenos e o serviço e atento e expedito, ou não estivéssemos dentro de um hotel de cinco estrelas. O L’Égoïste e um oásis naquela zona do Porto. Espero também que seja um farol para quem quiser valorizar mais o Porto menos conhecido.

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