Do percalço com os Mando Diao à Ode Magistral dos Ornatos Violeta no MEO Marés Vivas

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Foi um dia assaz agitado, as Marés estiveram bem Vivas no festival que se realiza em Gaia. Uns incendiários Don Broco ‘queriam pegar fogo ao local’ com as suas ignições sonoras. Carlão esteve em muito bom nível, os suecos Mando Diao interromperam o espectáculo que estavam a protagonizar e a retoma face aos problemas técnicos de som só se verificou 40 minutos depois. Final feliz, muito feliz, com um espectáculo assombroso dos Ornatos Violeta: uma hora e quarenta e cinco minutos… sempre a desfrutar do ‘Monstro e dos Amigos’, num dia de verdadeira enchente no recinto.

Don Bronco. créditos: Victor Sousa

À hora marcada, 19h30, provenientes de Bedford, Inglaterra, chegaram os Don Broco, os primeiros da tarde a serem portadores de algum entusiasmo e animação aos palcos neste segundo dia. Embora oriundos de Terras de Sua Majestade, vem podiam vir da Grécia, tal era a disposição de partirem a louça toda! Os britânicos têm piada, o vocalista Rob Damiani tem trejeitos jaggerianos na atitude em palco: na pose e na dança, sobretudo. O guitarrista, as mais das vezes, dança em espiral, mais parecendo um profissional de Sufi, a dança tradicional turca, só não sabemos se entra em transe. O baixista acompanha-o e é, por assim dizer, gingão. O baterista e o domador de teclados encarregam-se das vocalizações. São exuberantes à laia de uns Beastie Boys, até em termos de descarga sonora, a que uma trupe mais ou menos numerosa acabou por corresponder. “Half Man Half God” foi das que mais fizeram sacudir o esqueleto.

Carlão. créditos: Victor Sousa

Carlão, por seu turno, entrou em palco às 20h40. E o certo é que liderou um bom espectáculo, sempre em cima do acontecimento, composições hip hop e rap bem esgalhadas e com dose interventiva quanto baste, como é seu timbre. “Entretenimento” foi versado, mas não faltou “Algodão” em palco. Aproveitou para contar algumas histórias de quem vivia na Margem Sul do Tejo a quem assistia na Margem Sul do Douro e não tinha nada para fazer no local e assim embarcava com ‘uma litrosa’ no barco para a Capital. “Hardcore” foi dedicado às mulheres do Norte com sotaque do Sul, nesse jogo geográfico que afinal até acaba mais por unir que separar, a prova cabal disso mesmo é a participação do músico mais adiante no espectáculo dos Ornatos Violeta (com reciprocidade, pois Manel Cruz é um dos que colabora no álbum “Entretenimento”). Fica a expectativa lançada da junção dos Da Weasel para o NOS Alive de 2020, recentemente anunciada. Deu ainda para cantar o “Parabéns a Você” ao aniversariante Carlão.

Nova ronda pelas ‘capelas’ do Festival Marés Vivas até que os suecos Mando Diao subam ao estrado. Tempo de uma cerveja a preceito e uma sandes para aguentar as notas… musicais, neste caso.

Mando Diao. créditos: Victor Sousa

Com os nórdicos em palco, quando já passava algum tempo depois das 22h00, sucedeu-se uma interrupção à terceira música por motivos técnicos, ninguém compreendeu, e só dez minutos mais tarde um elemento da organização veio de forma sucinta explicar. A resolução dos problemas demorou mais uns bons momentos, até que os Mando Diao vieram presentear os que se encontravam junto às grades. Percebia-se pelos ecrãs laterais que a animação corria a jorros para os felizardos lá da frente. Mais uns bons dez, quinze minutos, e, finalmente, é anunciado o retorno dos músicos ao palco quando já se pensava que não regressariam. Um percalço técnico pode acontecer em qualquer evento, o público foi paciente, e o importante é alertar a população sobre o sucedido.

Depois deste hiato substantivo de tempo perdido, Björn Dixgård saía-se com um “Fucking funny beautiful people…” como intróito e, claro, a Norte qualquer compacto asneirístico, mesmo dito em inglês, e proferido com esta singularidade, só poderia ser bem aceite. O concerto prossegue a bom ritmo, “Mister Moon” foi das paradigmáticas de um espectáculo com muito rock and roll a espalhar-se pelo território e a ser bem acolhido até ao final.

Diogo Baptista / Global News

Passavam 4 minutos da meia-noite e uma mole humana densa exulta com a entrada em palco de Manel Cruz, Elísio Donas, Kinörm, Peixe e Nuno Prata. O vocalista agradece com um proverbial: “Desde já, muito obrigado pessoal!”. As hostilidades principiam com “Um Crime à Minha Porta”, do seminal Cão! As luzes arranham o violeta que faz jus ao nome da banda e o vermelho. Logo a seguir é com recurso à artilharia pesada que se faz o alinhamento, que é o mesmo é dizer com “Tanque” do evocado O Monstro Precisa de Amigos. A abordagem musical aparentemente intencional é mais lenta, as luzes verdes matizam o palco. O som está muito apurado no palco MEO após o problema com os suecos. “Pára de Olhar Para Mim” está à bica, talvez mais ‘a cimbalino’ dada a origem da banda.

“Foda-se!”, diz Manel Cruz. Kinörm acerca-se do microfone do líder da banda e acrescenta: “Caralho! Como se diz cá em cima.” E é então que uma das mais bonitas canções da banda portuense “Para Nunca Mais Mentir” progride no canto e na dimensão instrumental. A percepção de que a sonoridade geral, o todo melódico, é coerente vê-se (ou ouve-se) na soma das partes auditiva: desde cedo se percebe a presença afirmativa do baixo de Nuno Prata, a planura convincente das teclas de Donas, a batida certeira de Kinörm (ou será ‘Que Enorme’?!), as interjeições eruptivas de Peixe na guitarra e voz e a atitude de Manel Cruz fazem o resto, que é bastante nessa adição das parcelas. E a prova cabal disso mesmo é que conseguem percepcionar-se os instrumentos cada um de per si.

Diogo Baptista / Global News

Em “Há-de Encarnar” Manel Cruz implora, ajoelha, quase lambe o chão com vigor a dar ganho à intensidade e à significância das letras. À porta e quase, quase mesmo a aportar, estava “Ouvi Dizer”, a mais conhecida, um dos emblemas dos Ornatos Violeta enquanto banda porta-voz de uma geração cuja identificação se fez e faz pela força da música, pela força da mensagem das letras. No rodapé é Carlão quem canta em jeito de declamação a parte de Vítor Espadinha. E o rapper permanece para que juntos se ofereçam à devoção de “Casa”, dos Da Weasel. E tudo que positivamente mói acaba a criar “Chaga”. Resultado: está tudo aos saltos e cantar a todos pulmões a letra.

O vocalista vai alternando sucessivamente de guitarras, ora da acústica para a eléctrica ou vice-versa. As luzes verdes e brancas antecipam as novidades profundas que emergem como “Notícias do Fundo”. Tudo isto envolto numa “Nuvem” que nos chega envolta em luzes azuis. “Deixa Morrer” é anunciada com um traço de humor como “A música mais bonita que um Peixe já compôs!”, Manel Cruz dixit. E no final do tema acrescenta com copiosa graça: “Até à próxima… música!”, algo que se traduz no anúncio de “O. M.E.M.”, acompanhada por um colectivo imenso de palmas ritmadas.

Diogo Baptista / Global News

Contudo, às vezes, há um “Dia Mau” para viver e é disso que se faz relato. Já há algum tempo que Manel Cruz tirou a roupa da cintura para cima, como é apanágio de quem dá o corpo às balas, Kinörm faz o mesmo depois de ter sacado da anatomia uma camisola do Boavista a ostentar nome de craque: Timofte, o romeno que fez as delícias de azuis brancos e axadrezados entre o princípio dos anos 1990 até 2000.

“Pára-me Agora” soa frenética da génese até ao fim. Como há “Coisas” que verdadeiramente importam, é essa mesma que se segue. Há um coro em uníssono que persegue o rasto do canto de Manel Cruz… lindo de se ver. A componente instrumental está em plena afinação, dir-se-ia, em plena afirmação.

“A Dama do Sinal” é das poucas que sai fora do esquema ‘d’O Monstro…”, pertence ao pioneiro Cão! e precede o aparente final que a icónica “Capitão Romance” consagra. Ninguém se acredita que as coisas fiquem por aqui. Muito menos eles. Toca a agitar as goelas e não tarda a que estejam de regresso, algo que farão três vezes para júbilo de quem ousou vê-los.

Diogo Baptista / Global News

“Devagar” se vai ao longe, mas isso é só um começo deste fim. Os sempre admirados Violent Femmes, com quem os Ornatos Violeta criaram afinidades, são tributados com uma versão de “Gone Daddy Gone” e “Fim da Canção” apesar de aludir de certa forma à metáfora do Vitinho não nos consegue mandar dormir, a intenção colide com a vontade de permanência, mesmo que fatigados e sonolentos. “Como Afundar”, integrado no registo Inéditos e Raridades de 2011 e “Raquel” de Cão! Fizeram as delícias dos aficionados. Para os mais crentes ficou um curto e terceiro encore cujo mote musical foi “Dias de Fé”. Os abraços entre os membros e a ida de Manel Cruz ao fosso cumprimentar e abraçar toda a gente que pôde dizem bem do valor desta comunhão. O Monstro já não precisa de amigos, encontrou uma miríade deles ao som do antigo hino do fecho de emissão na RTP. Afinal, comprova-se, os Ornatos Violeta são multigeracionais. Faro é o próximo destino desta tripla aparição, que os levou ao NOS Alive e os fez desaguar no Marés Vivas, a presença no Festival F, naquela cidade algarvia, está marcado para o próximo dia 6 de Setembro.

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