A visceralidade com que os Mão Morta se apresentaram há mais de quatro décadas permanece intacta e, no concerto no Serralves em Festa’26, a banda logrou apresentá-la mais refinada ainda.
No arranque do evento que durou 50 horas, o Prado de Serralves apresentava-se bem composto para o concerto de abertura, em que os Mão Morta tinham como convidados João Barradas, no acordeão, e Mariana Vilanova, no vídeo.

Depois de muitos concertos de apresentação do manifesto «Viva La Muerte», a banda bracarense presenteou o público com um alinhamento mais rude e cru, resgatando do seu vasto cardápio musical alguns temas icónicos do seu percurso, uma espécie de alinhamento à la carte para quem é… ‘mão mortiano’.

A abrir as hostilidades, ouviu-se a épica história de «Tiago Capitão», para depois se soltar o amor com «Facas em sangue» e começar a sentir-se o frémito entre a multidão a crescer com «Velocidade escaldante» e, depois, a levantar voo rumo ao horizonte com «Pássaros a esvoaçar». Foi um primeiro momento intensamente belo que se viveu em Serralves!

A esta altura já se sentia o(s) dedo(s) de João Barradas na sonoridade e Adolfo Luxúria Canibal começava a mostrar-se um forte candidato a ‘melhor em… palco’.
Perante um público já rendido, algo que “é demencial” entre os fãs, ouviu-se «Arrastando o seu cadáver» e, então… “ninguém dizia nada”!

A intensidade estava no auge, os espíritos agitavam-se, os corpos balançavam-se… «Até cair». Rebuscado do álbum epónimo de estreia dos Mão Morta, o tema icónico revolucionou definitivamente a plateia, porque já tudo eram “sombras difusas”.
Após “sentir a aragem que balança os dependurados”, em «Tu disseste», os Mão Morta seguiram para o momento mais extraordinário do concerto, na humilde opinião deste vosso escriba.

«Chabala», «Destilo ódio» e «Sitiados» contaram com um Canibal ao mais alto nível vocal e preformativo, numa actuação brilhante de todos os elementos em palco, visualmente potenciada por Mariana Vilanova.
Sentiu-se bem na pele a visceralidade tão própria e natural da música dos Mão Morta, num crescendo de intensidade agitadora e sentido provocatório. “Odeio essas peçonhentas mãos de bruxa e a obscenidade das tuas unhas”.

A fechar o concerto do Prado, com um grito de “deixem-me sair daqui”, de «Deflagram clarões de luz», a banda despediu-se do entusiástico público com «Berlim (morreu a nove)», afinal, a cidade de onde veio a semente que daria origem aos Mão Morta.

Excelente concerto, de tensão forte e constante e visceralidade exuberante.

