InícioCrónicasA OpiniãoElefante na Sala: Extremamente Intocáveis

Elefante na Sala: Extremamente Intocáveis

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Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?

Jorge Palma e Sérgio Godinho – “Portugal, Portugal”

Portugal tem esta capacidade extraordinária de transformar qualquer coisa numa novela de cordel. E de entre as novelas medíocres que saltitam pela nossa calçada portuguesa, a mais badalada e sujeita a várias temporadas envolve Anjos: eternos finalistas da adolescência nacional, e um Diabo – que não veste saia, mas talvez Prada – chamado Joana Marques: uma herege contemporânea que ousa fazer humor num país onde se leva tudo demasiado a peito… sobretudo o ego.

Tudo começou com um vídeo em que os manos Anjos, em tom de falsete patriótico, decidiram brindar o país com uma versão do hino nacional. Só que, em vez de elevar a alma lusa, o que se ouviu foi um ultraje harmónico ao ouvido comum: desafinação, dramatismo operático de feira e um fervor patrioteiro digno de matiné num lar de terceira idade. Joana Marques, com a sua fleuma habitual, trouxe o momento à tona, com uma mistura de sátira, reações e conclusões.

Não foi necessário exagero — o vídeo já era autoexplicativo no desastre.

Mas os Anjos, talvez tocados por um agudo que lhes perfurou o ego, decidiram fazer da crítica uma cruzada judicial. Em vez de rirem, responderam com processos. Queixa-crime, ação cível, entrevistas indignadas, e aquele tom de cruzada moral que só falta ser acompanhado de música épica e incenso.

Aparentemente, expor o ridículo é agora considerado uma forma de violência.

Este episódio diz muito mais sobre o estado da nossa maturidade coletiva do que sobre a humorista. Porque Joana Marques fez aquilo que sempre faz — observou, comentou, exagerou com graça. É humor. Não é difamação, não é ódio, não é incitamento à violência. Mas os irmãos decidiram transformar a piada em insulto e o riso em ofensa grave. Entraram em tribunal como quem entra numa catedral profanada. A exigir desculpas públicas, indemnizações e o restauro do altar do ego.

E Portugal assiste, entre o encolher de ombros e o suspiro cínico, como quem já viu este filme demasiadas vezes. Porque esta não é uma história nova. É apenas mais um capítulo do velho medo nacional de ser ridicularizado. Um país onde se suporta melhor o elogio falso do que a crítica bem-humorada. Onde o poder (ou a simples percepção de poder), mesmo na pequenez de quem se coloca em bicos de pés, continua a achar que deve estar acima do riso.

A tristeza de tudo isto é que esta novela revela uma realidade desconfortável: em Portugal, ainda se confunde sátira com falta de educação, ironia com ofensa, e humor com ataque pessoal. Estamos a criar um país onde os tribunais servem para proteger egos frágeis e onde a crítica tem de pedir licença antes de abrir a boca. A liberdade de expressão fica refém da suscetibilidade alheia. E o humor, que devia ser espaço de confronto e reflexão, passa a ser visto como uma ameaça.

Joana Marques não é o problema. É o espelho. E como todos os espelhos, incomoda quem não gosta do que vê. Porque quem não se leva demasiado a sério, nunca se ofende com uma piada. No máximo, aprende alguma coisa com ela.

Agora, se dois irmãos adultos, com décadas de palco e microfone, não aguentam uma publicação numa rede social, ou um segmento de rádio com humor e ironia, então talvez o problema não seja a Joana. O problema talvez seja o estarem a frequentar o workshop de autoajuda errado, ou estarem enganados em relação ao unguento antiacne que usam! Ou mais provavelmente o chakra do bom senso esteja, de facto, desalinhado.

Num país onde se abre um processo judicial por se ter partilhado um vídeo que, por si só, já era tragicómico, o verdadeiro escândalo não é o humor, é a ausência de estômago para o encaixar. Isto não é uma luta pela honra. É apenas má digestão de ego. E para isso, meus caros, não há prece, oração, ou anjo da guarda que vos valha.

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