A fronteira entre a experiência músico-sensorial de um concerto dos norte-americanos Sunn O))) e a barulheira infernal é tão ténue quanto indefinida. E a magia está em conseguir manter a coisa na experiência, algo que a dupla Stephen O’Malley e Greg Anderson faz de forma magistral.

Não é um espectáculo para todos, mas para quem é, e eram muitos o que encheram o Ténis do Parque de Serralves, aquilo mais do que um concerto, foi uma experiência sensorial.

E esta não se ficou pela audição, nem pelo cenário fantasmagórico criado pelo fumo denso, pelo jogo de luzes e ainda… pelas árvores de Serralves, não o concerto dos Sunn O))) foi algo mais holístico, algo mesmo físico, incontrolável. Sim, as descargas tsunâmicas de decibéis e subgraves provocaram efeitos de tal forma intensos no público que até as entranhas se lhes estremeceram.

Com novo álbum na bagagem, o epónimo «Sunn O)))», 10º trabalho de estúdio do duo de Los Angeles, O’Malley e Anderson deixaram uma marca indelével no passado dia 10 de Julho no Ténis do Parque de Serralves.

Ao longo de hora e meia, o público assistiu a uma espécie de ritual litúrgico, carregado de misticismo, conduzido por dois monges, que, entre riffs, feedback, distorção e frequências altivas, erguiam as mãos aos céus em busca… sabe-se lá do quê!

O resto fica com o público, ou seja, toda a experiência sensorial que o minimalismo agressivo dos sons provocou, levando-o a mergulhar numa viagem de imagens mentais e sensações bastante emocionais.

Podem chamar o que quiserem à sonoridade dos Sunn O))), drone metal, doom, dark ambient ou noise, mas aquilo são duas guitarras a descarregar emoções que se entranham nos corpos e espíritos de quem assiste.

Em resumo, um tsunami de energia em forma de som, com efeitos físicos directos, ou não estivesse por detrás dos músicos uma muralha tal de amplificadores… que torna a Muralha da China uma brincadeira de crianças.


