Numa noite em que os ingleses Ditz voltaram a partir a loiça toda, foi dos Países Baixos que chegou a grande revelação do segundo e último dia do Basqueiral 2026, que celebrou o seu 10º aniversário.
O Parque de Santa Maria de Lamas voltou a acolher mais uma edição do festival que tem o condão de unir de forma harmoniosa o mais conservador e antigo, como é a arte sacra de séculos idos, e o mais radical e moderno, como são as sonoridades que pululam pelos diferentes palcos do Basqueiral. Aliás, a abertura desta 10ª edição foi protagonizada por O Gringo Sou Eu, com uma actuação no interior da capela do Museu de Lamas.

Entre o passado e um presente que projecta futuro, o Basqueiral 2026 teve, no seu segundo dia – o único a que este vosso devoto escriba assistiu –, a confirmação dos Ditz, a revelação dos Grote Geelstaart e um aquecimento de luxo com os espanhóis Los Sara Fontan.

Comecemos pela revelação – desde já reconhecendo a minha ignorância –, os Grote Geelstaart, em bom português Grande Cauda Amarela, que actuaram no Palco Basqueiro. Vindos desse país que durante tantos anos conhecemos por Holanda (agora, ao que parece, é apenas uma região dos Países Baixos), o quinteto Grote Geelstaart, todos familiares e apresentando-se de camisa branca e gravatas coloridas, bem pareciam uns meninos do coro… Porém, quando se exercitaram, todo um novo mundo surgiu à frente dos olhos e ouvidos do público. Irrequietos, transgressores e disruptivos, os Grote Geelstaart até podem ter causado alguma estranheza inicial, mas, em pouco tempo, a coisa entranhou-se na plateia e o festim noise rock psicadélico e muito disruptor, de gravata posta, aconteceu.

Alternando entre duas guitarras e duas baterias, a banda, que define o seu som como “ruído orquestrado de tal forma que ferve até ao ponto de ebulição”, conseguiu, com uma execução exímia e uma batida intensa, provocar o entusiasmo, a vibração e… a dança!

É difícil de explicar como um noise tão disruptor consegue pôr os corpos a dançar, mas a verdade é que os Grote Geelstaart – como um amigo nos dizia lá, é preciso muita expetoração para pronunciar esse nome – arrasaram e ficaram no coração de muita gente.
Nota final para a postura de Luuk Bosma, que entre a guitarra e a vocalização, cativou e contagiou fortemente a plateia.

Para memória futura, aqui fica a formação dos Grote Geelstaart, ou seja, os Grande Cauda Amarela: Jeppe Rottier (baixo), Danny Rottier (teclados), Luuk Bosma (guitarra e voz), Finley Nijsse (bateria e voz) e Jesper Rottier (bateria, guitarra e voz).

A encabeçar o cartaz do segundo dia do 10º Basqueiral, os ingleses Ditz não decepcionaram e ofereceram o momento de catarse colectiva que os festivaleiros desejavam e que, respondendo às instruções do agitado vocalista Cal Francis, foram criando dinâmicos mosh pits, saudáveis death walls, velozes circle pits e, já mais por iniciativa própria, flutuantes crowdsurfings.

A revista inglesa Pitchfork descreveu o surgimento, em 2006, dos Ditz como “uma furiosa bulldozer de jogos de palavras poéticos e hardcore experimental” e é isso que eles ainda são hoje, volvida uma década.

A sua sonoridade é um ataque massivo aos sentidos e a ferocidade com que a banda aborda o palco, libertando o seu noise rock de inspiração pós-punk, polvilhado de influências do pós-hardcore e do noise rock de décadas passadas, coloca os Ditz num patamar de modernidade e visceralidade muito, muito… atractivo.

Cal Francis, desta vez, de vestido curto e casaco de fato-de-treino, foi igual a si próprio, irrompendo, logo no primeiro tema, pela plateia adentro e, quase no fim, trepando a estrutura do palco até ao PA… bem lá no alto! É um arrepio ver Cal e os seus pares – Caleb Remnant (baixo), Anton Mocock (guitarra), Jack Looker (guitarra) e Sam Evans (bateria) –, transbordando emoções que se colam à pele do público.

Ao final da tarde, com um ambiente sonoro experimental, o duo espanhol Los Sara Fontan – Sara Fontan (violino, sintetizadores, pedais) e Edi Pou (bateria e objetos metálicos) – molda texturas acústicas e eletrónicas, criando uma sonoridade de grande fisicalidade, na qual a improvisação é uma presença constante.
Assim foi no Palco Museu, com a dupla a carregar forte sobre o ainda pouco público, que, no entanto, se mostrou bastante agradado com o que ouvia. Experimentalismo cativante e entusiasmante.

Escapou-nos o concerto de Sunflowers, por necessidades alimentares e comunhão com a população de Lamas, no bar fronteiro ao festival onde decorria uma noite de… karaoke!
Por fim, o momento menos desta nossa estreia no Basqueiral, os portuenses Summer of Hate, cuja sonoridade, apesar da cuidada encenação, da forçada representação e do upgrade do violino, não convenceu…

Ainda antes dos Santa Muerte, que fecharam o festival, o duo francês de música electrónica, Leroy Se Muert, espalhou a dança em frente ao Museu para satisfação dos presentes.

Pela edição 10 do Basqueiral passaram ainda Oupaoupaoupa, Kheper Moon, Yakuza, Scúru Fitchádu, Parquet, Servo e Máquina. De resto, o ambiente do Basqueiral é top, ainda em registo de festival ‘familiar’, onde parece que toda a gente se conhece e confraterniza num espaço limitado pelo Museu, pela Igreja e pelo cemitério, pejado de árvores e que convida ao… convívio e à partilha.

É o chamado festival (ainda) com espírito, pois ainda não vendeu a alma ao diabo.

