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«Um café com…» senta o Maisfutebol à mesa com figuras eminentes da nossa sociedade, nomes sem ligação aparente ao desporto, a não ser a paixão. A música, a literatura ou o cinema enredados nas quatro linhas de conversas livres e descontraídas. Críticas e sugestões para [email protected] ou [email protected] 

Mestre das palavras, senhor de memória enciclopédica e conhecimento de devoção religiosa. Música, cinema, futebol, a santíssima trindade de Álvaro Costa, 59.9 anos, comunicador inigualável. 

É no seu office do prazer, A Bolacheira, que recebe o Maisfutebol para «Um café com…», ali na zona da Foz do Douro. Num país normal, onde a cultura fosse tratada com a dignidade que exige, Álvaro Costa seria o comendador e o mestre de cerimónias da inteligência nacional. 

À falta desse estatuto, o portuense adotado pela atlântica Vila do Conde dribla o formalismo e mergulha nas recordações da bola, com um olhar único sobre a afirmação europeia do seu querido FC Porto.

Uma personagem obrigatória, um estudioso que dispensa o motor de busca da Google quando o exercício é a procura de arquivos com jogos de futebol. 

Maisfutebol – Qual é a sua primeira memória de futebol?

Álvaro Costa – A minha primeira memória de bola é o Mundial de 1966. Tinha sete anos e lembro-me de ver o meu pai a partir uma cadeira na altura em que o Eusébio faz um dos golos à Coreia do Norte. E eu parti uma caixa de ovos, para não ficar atrás, ah ah ah.

MF – E a sua primeira ida a um estádio?

AC – Estádio das Antas, claro, ainda antes desse Mundial, creio. O meu pai era frequentador do mítico Café Mucaba, em Vila Nova de Gaia, logo ali a seguir à Ponte Dom Luís. Antes de me mudar com a minha família para Vila do Conde, aos nove anos, eu vivia logo ali, no Bairro Particular João Félix. Tinha um nome bom, não tinha? Na Rua do Rinque. Era um bairro operário. Tenho uma fotografia, em casa dos meus pais, onde está o meu pai a jogar bilhar com o Américo, o Pavão, o Custódio Pinto e o Valdemar, malta importante nesse FC Porto dos anos 60 e 70. E o Miguel Arcanjo, um grande defesa central do FC Porto, trabalhava com o meu pai na Ford Lusitano. Portanto, o futebol cercou-me desde cedo, desde sempre.

MF – Não havia forma de fugir.

AC – No way. O Miguel Arcanjo foi um dos campeões do FC Porto naquele mítico jogo em Torres Vedras, o dia do senhor árbitro Calabote. E o meu pai esteve nesse jogo a apoiar o FC Porto. Eu ainda não era nascido, isso foi poucos meses antes de eu nascer, em 1959. Mas 19 anos depois, em 1978, lá estava eu em carne e osso no jogo que acabou com a seca de 19 títulos do meu clube: FC Porto-Sp. Braga, 4-0 em 1978.

MF – Como se chamava o seu pai?

AC – Artur Nascimento Costa. Chegou a jogar no Boavista. Falávamos muito sobre futebol, foi ele que me ensinou tudo sobre o jogo. Em todos os aspetos. 

MF – Pelo caminho perdeu-se um bom professor de Inglês?

AC – Esse era o meu curso, eu estive na Faculdade de Letras. Era o meu destino, mas a vida é o que acontece quando pensamos nela, como costumo dizer. Se o meu percurso de vida tivesse seguido o seu rumo normal, hoje seria ainda um belíssimo professor de Inglês. Domino a língua e adoro a cultura anglo-saxónica. A minha entrada no Jornalismo foi um acaso total, mas durante muito tempo o meu sonho era ser futebolista. Eu era forte, um boizinho, e sonhava ser o número 5 do FC Porto, um central ‘à Lima Pereira’.

Cartão de atleta de Álvaro Costa

MF – Teve algum ídolo de infância no futebol?

AC – O senhor Fernando Pascoal das Neves, vulgo Pavão. Pelo lado rock and roll que havia nele. Transmontano, tinha uma maneira fantástica de jogar. Também o conheci pessoalmente na minha infância. Enfim, ainda outro pormenor. O meu pai esteve em Angola e esteve ligado ao Futebol Clube Lobito. O meu tio, irmão dele, foi responsável pela vida de imensos futebolistas para Portugal: Chico Gordo, Seninho, Rui Ernesto, Hélder Ernesto, Malagueta, Freitas. Esse era o meu mundo. O meu outro ídolo era o Américo, guarda-redes. Eu era muito ágil, parti o braço duas vezes e deixei de ir à baliza. Passei a ser defesa central, onda Valdemar e Rolando, chutar para onde estava virado.

MF – Como é que viveu o dia da morte do Pavão?

AC – 13ª jornada, 16 de dezembro de 73, Porto-Vitória de Setúbal, 2-0. O treinador do Vitória era o Pedroto. O treinador do Porto era o Béla Guttmann. As Antas estavam cheias, o Vitória tinha uma grande equipa e tinha eliminado o Tottenham há pouco tempo. Cabiam talvez 80 mil pessoas no estádio e eu lá estava. Quando o Pavão caiu, o silêncio no estádio foi mais ensurdecedor do que o barulho que já apanhei em concertos de AC/DC, Metallica ou Van Halen. Naquele segundo a multidão percebeu que alguém partiu para o Olimpo. O Pavão morreu no seu palco e todos perceberam logo isso. Não houve dúvidas.

MF – Lembra-se dos últimos momentos do Pavão?

AC – Como se os tivesse visto ontem. O Pavão recebeu a bola, abriu os braços, passou para o Oliveira e caiu redondo. O Octávio Machado estava perto dele. Eu estava na Bancada Central e isso aconteceu à minha frente, a poucos metros. Entrou a maca, o massagista Vítor Hugo… no fim do jogo, a saída das pessoas foi uma marcha fúnebre. Não havia telemóveis, não havia informações oficiais, só sabíamos que o Pavão tinha ido para o hospital. Falava-se, na altura, que o Pavão tinha oferecido dez mil escudos para a vinda do Cubillas. Ele morreu em dezembro e o Cubillas chegou em março, não chegaram a jogar juntos. Se amo o futebol, também o devo ao Pavão. Lembro-me perfeitamente da equipa desse ano: Rui, Rodolfo, Ronaldo, Rolando, Guedes, Pavão, Pinto, Bené, Abel, Flávio e Lemos.

MF – Mas o sentimento de paixão pela bola foi herdado do seu pai.

AC – Completamente. Ele em Portugal jogou futebol nos amadores, o clube chamava-se Fluminense do Bonfim. E foi por causa disso que os meus pais se conheceram. A minha avó tinha uma mercearia chamada Dragão, na zona das Flores, e a minha mãe vivia lá. Mesmo em frente à Igreja do Bonfim. Lá foi ver um jogo do Fluminense e conheceu o seu futuro marido, o senhor meu pai.

MF – O maravilhoso mundo do futebol amador.

AC – É por isso que eu ficava triste quando diziam que a Liga dos Últimos gozava com esse futebol. Falso. Eu sempre amei o futebol amador, devo a minha existência ao futebol amador e cheguei a jogar futebol amador com o meu pai na empresa dele. Mais tarde até segui vários jogos do MGC, outra equipa mítica dos amadores da AF Porto. 

MF – Ir às Antas nos anos 60 devia ser uma experiência mágica para um miúdo.

AC – Mágica, claro. Foi o meu pai que nos começou a levar às Antas, a mim e ao meu irmão, que é um pouco mais novo do que eu. Um de cada vez porque só havia dois lugares. Nessa altura, vejam bem, havia uma linha que transportava caixas de carvão a passar mesmo por cima de uma das bancadas das Antas. Carregava o carvão das minas de São Pedro da Cova para o Porto de Leixões através de um cabo. Quando falam hoje em segurança… bem, eu na brincadeira com o meu irmão, que era mais medroso, dizia-lhe ‘pá, aquela porcaria um dia vai cair’. E ele deixou de ir ao futebol com medo. Quem lucrou foi o Alvarinho, que passou a não ter de alternar com o mano as idas às Antas. Claro que o meu pai veio a saber toda a verdade e castigou-me. Eu já era um reguila, um tangas. O Pavão também era um pouco assim e por isso eu adorava-o.

MF – E mais tarde surge o futebol já em Vila do Conde.

AC – Esse é outro grande impacto na minha vida. O meu pai teve um convite profissional, que implicava sair do Porto, e havia duas opções: Vila do Conde ou Oliveira de Azeméis. Fomos morar para Vila do Conde. O meu pai até arranjou uma casa boa, mas eu e o irmão fizemos um banzé dos diabos para irmos morar para um prédio a 100 metros do Campo da Avenida. Éramos maluquinhos por bola. E como se chamava o prédio? O Prédio. Porquê? Não havia mais nenhum, ah ah ah. A minha mãe ainda lá vive. Da nossa varanda víamos toda a ação no campo do Rio Ave.

Equipa da RDP. Álvaro Costa é o primeiro da esquerda, em baixo.

MF – O mítico Campo da Avenida.

AC – A Bombonera do Rio Ave, o nosso Monumental de Nuñez. E o meu pai lá nos fez a vontade. Cheguei a treinar nas camadas jovens do Rio Ave, tinha habilidade e só não me tornei futebolista por acaso. É uma paixão que carrego comigo desde sempre e até hoje. Fui um central que varria três feiras e antes fui um guarda-redes muito jeitoso.

MF – Como eram esses dias em Vila do Conde no final dos anos 60?

AC – Num fim-de-semana ia ver o Rio Ave e era certinho haver invasão de campo. Eu participei em várias, ah ah ah. Íamos para trás da baliza atirar moedas ao guarda-redes adversário. Bandidagem. Um dos meus companheiros de desventuras era o João Malheiro. O campo do Rio Ave nessa altura não tinha bancadas atrás das balizas. Aliás, fomos nós que ajudámos a construir as bancadas. O Rio Ave jogava nos regionais contra o Lousada, o Aliados do Lordelo, o Paredes.

MF – O Álvaro dizia que participou em algumas invasões de campo. Conte-nos lá isso.

AC – Numa delas, a mais perigosa, o Rio Ave apanhou nove jogos de castigo. O Chico Polícia bateu ao árbitro, isto dava uma série de televisão. O ambiente era piscatório, muito complicado, e os jogos davam sempre para o torto. Fui apanha-bolas no jogo de inauguração das bancadas contra a equipa de reservas do FC Porto. Sou portista, rioavista e boavisteiro, por esta ordem.

MF – Também boavisteiro?

AC – O meu tio-avô Monteiro, ourives de Gondomar, foi o sócio número um do Boavista. Lembro-me bem de ir ao campo antigo ver o Capitão-Mor, Vítor Cabral, Mário João, Germano… Essa equipa subiu à primeira divisão no início dos anos 70 e estive muito ligado ao Boavista nessa fase. E, mais tarde, nos anos 80 também, antes de eu ir para Inglaterra. E fui dos poucos que pode dizer ‘eu vi o José Mourinho a jogar’.

MF – No Rio Ave.

AC – Sim, aconteceu mesmo. Não jogava nada, ah ah ah. Isso foi no princípio dos anos 80, o Rio Ave ficou em quinto na primeira divisão. A equipa entrava em campo sempre atrás de um rapaz surdo mudo, que transportava uma tabuleta que dizia qual era o jogo do dia. E entrava de forma oblíqua, pela bandeirola de canto. Só o Brito, o Baltemar Brito, não o fazia. Por superstição, suponho. Eu via os jogos no meio dos índios, dos insurretos. Em alguns jogos o Rio Ave diminuía o tamanho do campo, acrescentava uma areia dura nas linhas. No final dos anos 70 há um Rio Ave-Benfica antes de um Bayern-Benfica. O jogo de espionagem do Bayern é esse no Campo da Avenida e o Rio Ave ganhou 1-0, golo do Pires. Lembro-me de ter ficado perto do alemão e de o ouvir a falar aos jornalistas no fim. ‘Medo do Benfica? Eu tinha medo era de jogar neste campo contra estes gajos, são loucos, aqui ninguém ganha’. Havia uma pressão gigante, a atmosfera era de futebol argentino. Ir ao futebol era uma experiência circense, cheio de figuras típicas. Cheguei a ver jogos com adeptos em cima da linha lateral. E jogava-se. A micro-Bombonera.

Álvaro Costa com a camisola do Rio Ave no tempo em que recuperava do “beriberi”

MF – Os seus pais aceitavam bem essas idas à bola ou chateavam-no?

AC – O meu pai não me chateava nada, adorava futebol e também andava por lá. A minha mãe, uma querida, só não gostava quando eu entrava em casa todo sujo, enlameado. Eu adorava confusões. Esperinhas, invasões, um dia baixei os calções ao árbitro. Eu só fazia asneiras, tinha alma de rufia.

MF – Percebe-se que teve uma infância muito ligada ao futebol. E feliz.

AC – Era uma infância de realismo mágico. García Marquez, Borges, Argentina pura e dura na minha Twin Peaks Atlântica. Havia uma excentricidade existencial, artistas, loucos, marados. E eu incluo-me nesse lote de boa gente, claro, ah ah ah. O grande Alfredo, que depois foi guarda-redes do Boavista e da Seleção Nacional, era outro dos meus muchachos. Na altura ele treinava a ponta-de-lança no Rio Ave. Foi nessa altura que comecei também a receber influência estrangeira. Lembro-me de ver resumos do Ajax e aquilo fascinava-me. O jogo acabava, os funcionários levavam roupões aos jogadores e os tipos ficavam no meio do relvado a beber chá, tipos cabeludos. O Ajax passou a ser a minha equipa estrangeira. E também não perdia uma final da Taça de Inglaterra.

MF – Tudo a preto e branco.

AC – Tudo, sempre. Mas dava em direto em Portugal. Simpatizo com o Chelsea desde esses tempos, muito antes de chegar lá o Mourinho. Gostava muito do avançado dos gajos da época, o Peter Osgood, e a zona de Chelsea estava ligada ao rock and roll, muito ali em King’s Road. Londres está dividido em áreas administrativas e o clube que está mesmo em Chelsea é o Queens Park Rangers. O estádio do Chelsea, Stamford Bridge, já fica fora. Em Fulham. Estou a falar e estou a lembrar-me de mais momentos delirantes de futebol.

MF – Vamos a eles.

AC – A Argentina campeã do mundo em 1978, o Mundial dos papelitos. Tarantini, Passarella, Kempes. E o Cubillas no Peru. Por falar em Cubillas, sei que o meu pai entrou no crowd funding para trazer o Cubillas para o FC Porto. O Jorge Vieira, diretor do FC Porto, era amigo do meu pai e disse-lhe que o Cubillas estava cheio de frio em Basileia, onde jogava, ah ah ah. Também me lembro bem da estreia do argentino Heredia pelo FC Porto, num 2-2 contra o Manchester United. Esse rapaz veio por empréstimo do Barcelona.   

MF – A sua paixão pelo mundo anglo-saxónico nasce através do futebol ou das artes?

AC – Pelas duas coisas. Mas o futebol nasceu primeiro em mim, está tudo ligado. Depois a minha vida particular levou-me para a música, o cinema e as outras cenas. Eu gravava horas a fio as transmissões televisivas de futebol no meu vídeo Beta e depois VHS. As famosas quartas-feiras europeias. Hoje é banal, na altura era um happening

MF – O FC Porto começou a jogar regularmente na Europa nos anos 70.

AC – E raramente a passar da primeira eliminatória. Lembro-me tão bem dos jogos contra Wolverhampton, Hvidovre, Bordéus, íamos quase sempre à primeira até 1984. A minha paixão pelo futebol tem a ver com esse período específico dos 60’s, 70’, 80’s.

MF – O Álvaro tem um lado intelectual muito ativo e depois esse lado irracional do futebol.

AC – Não vejo diferenças entre a alta e a baixa cultura. O futebol é a metáfora da condição humana. Que espetáculos são capazes de reunir 50 mil pessoas de todas as raças e credos? Onde não há classes sociais? Futebol e música. Foi por isso que me deu gozo quando fui anunciado como apresentador da Liga dos Últimos e as pessoas perguntaram ‘este não é o gajo do rock?’. O futebol é uma parte de mim, cresci num país diferente. Eu cheguei a fazer um funeral ao Varzim nas Caxinas. Eles desceram de divisão e fizemos um caixão para andar a celebrar isso. Para mim o futebol era isto tudo, esta cena de provocação também. 

MF – Fale-nos de outros jogos marcantes nessa sua fase ainda muito jovem.

AC – O 4-0 que o FC Porto deu ao Benfica em 1971. Tinha eu, portanto, 12 anos. O FC Porto não ganhava nada nessa altura. O Lemos marcou quatro golos e cada vitoriazinha era um delírio. Voltar a esses tempos era voltar aos melhores domingos à tarde. Subir as Eirinhas, ir por Fernão Magalhães, ir ao Restaurante Vitória e ver uma série de personagens. Lembro-me também da estreia do Fernando Gomes contra a CUF, logo com dois golos. O meu pai ensinou-me a ser mais rigoroso, dizia-me que tínhamos de ser muito melhores do que os outros para ganhar. E depois há o famoso jogo contra o Benfica em 1978, ainda antes do jogo do título.

MF – O que se passou nesse clássico de 78?

AC – O Porto tinha uma grande equipa: Seninho, Ademir, Oliveira, Duda. A três jogos do fim estávamos empatados com o Benfica, sem derrotas. Aos três minutos, o Simões fez um golo na própria baliza. Balde de água fria. Eu estava no famoso Tribunal das Antas e começo a ver um movimento do Humberto Coelho. O Humberto tabela com o Chalana, isola-se na cara do Fonseca, remata e a bola vai à trave. Depois embrulha-se com o Rodolfo e a bola não entra. Seria o 0-2. Se o Porto com aquela equipa, depois de tantos anos à espera, não fosse campeão, eu acho que o futebol português teria sido outro. É a questão do tempo. O que define o passado é o futuro. Essa bola na trave redefiniu o futebol português. Passados poucos segundos, o FC Porto empata de livre pelo Ademir. Na baliza estava o Fidalgo, não era o Bento. Esse ruído de raiva e afirmação explodiu a frustração de tanta espera. Acabei o jogo a dar um beijo a um polícia. Faz-me lembrar o que se passou em 2013 no golo do Kelvin, mas com 80 mil pessoas e não 50 mil. Depois o Porto vai empatar à Académica e ganha em casa ao Sp. Braga.

MF – E nos anos seguintes começa a nascer o FC Porto europeu.

AC – Pode parecer estranho, mas outro jogo decisivo para mim foi o que o Porto fez contra o Dínamo Zagreb na caminhada para a final de Basileia em 1984. Por dois motivos: o Porto perde 2-1 em Zagreb e quem marca é Gomes, a passe do Frasco; depois parti o braço nos festejos. A seguir Glasgow Rangers e depois Shakhtar Donetsk, 7 de março de 84. Como me lembro disso? Muito simples. A RTP convidou-me nesse dia para ir lá e a televisão para mim era um mundo ainda inatingível. O João Gobern estava a fazer uma reportagem sobre a movida portuense e queria falar comigo. Fui a um talk show no canal 2, às oito horas. Fiquei lixado. ‘Porra, convidarem-me para isto no dia do Porto-Shakhtar?!’. Lá fui à RTP e não vi o jogo em casa. Depois, na Ucrânia, golo do Mike Walsh e fomos às meias-finais contra o Aberdeen.

MF – O jogo do nevoeiro.

AC – O treinador deles era Sir Alex Ferguson e o Vermelhinho fez o golo da vitória na Escócia. Eu estava na Faculdade de Letras e resolvi ir com o meu amigo Leal, na 4L dele, para o apeadeiro aéreo que era na altura o aeroporto de Pedras Rubras. Fui um dos gajos que invadiu a pista, ah ah ah ah. A malta estava tão maluca que invadiu a pista e o avião do FC Porto teve de ir aterrar a Lisboa. Bandeiras, carros, maluqueira na pista do aeroporto.

MF – E na final de Basileia?

AC – O maluco do Zé Beto. Os pais dele eram vizinhos da minha namorada da altura. Vi o Zé muitas vezes a andar de cavalo. Foi uma roubalheira monumental e o Zé deu com a bandeirola num dos árbitros. Turim não era longe de Basileia e esse jogo foi terrível. Mas pior foi no ano seguinte contra o Wrexham, já com o Artur Jorge.

MF – Antes disso: privou com o José Maria Pedroto?

AC – Bastante, sim. Era divertidíssimo. Fazia truques com cartas, brincava com os miúdos, era um filósofo genial. Criou a campanha de oposição a Lisboa inspirado no livro do Maquiavel, O Príncipe. As guerras com o Mário Wilson, a expressão roubos de igreja, a travessia da ponte e já estávamos a perder. Criou uma estrutura incrível, verdadeiro marketing político.

MF – E chega, então, o pequeno Wrexham.

AC – Estava o maluco do Petar Borota na baliza, um croata chanfrado contratado ao Boavista para compensar a suspensão europeia do Zé Beto. Ele fez dois jogos pelo FC Porto e foram os dois contra o Wrexham. Perdemos 1-0 em Gales e ganhámos 4-3 nas Antas. Uma coisa brutal. Depois de irmos à final contra a Juventus, perdemos contra uma equipa da 4ª divisão inglesa. E na época a seguir fomos eliminados pelo Real Madrid. São as duas eliminações que antecedem o título europeu de 87. 

MF – Dessa caminhada para a glória em Viena, o que guarda?

AC – Começa tudo na minha terra, Vila do Conde, com o Rabat Ajax: 9-1. A seguir vem o Vitkovice, de onde nos chegou o Vlk, e o Brondy do Peter Schmeichel. Campo gelado em Copenhaga, lembro-me bem. E lembro-me de ver o maconheiro do Casagrande a jogar sem caneleiras, à maluco, aos berros: ‘Quebrou, quebrou!’. Pernas longas, meias para baixo. O Zé Beto fez uma grande exibição. O futebol dinamarquês estava a nascer e a crescer, já com um dos Laudrup na frente. E depois chegou o Dínamo Kiev. Vi centenas, para não dizer milhares, de jogos do FC Porto e um dos melhores de sempre foi esse contra o Dínamo. O Porto está a ganhar 2-0, o Futre vai para a rede celebrar um golo, mas o Dínamo era na altura a melhor equipa do mundo. Demianenko, Rats, Mikhailichenko. Fomos a Kiev com uma vantagem de 2-1.

MF – E o FC Porto aguentou-se.

AC – Aos cinco minutos já estávamos a ganhar 2-0, golos de Celso e Gomes. Eles reduziram perto do intervalo e mais tarde o árbitro foi simpático e não assinalou um penálti contra o Porto. O Mly fez a diferença na segunda parte, foi um gelo. O Futre estava a jogar um futebol kamikaze, de génio. Ele era amigo do Alfredo e saíam muito à noite. Aliás, nesse período eu saía muito à noite com malta do futebol. Phil Walker, Zé Rafael, Queiró, o falecido Frederico, íamos todos para o Griffon’s, no Brasília. O Boavista jogava quase sempre ao sábado à tarde e a malta tinha essas noites livres. O Alfredo estava adiantado no tempo. Se fosse hoje era uma super star, na altura parecia maluquinho por ter brinco. Era um bom guarda-redes, com uma agilidade incrível, e ainda foi à Seleção Nacional.

MF – E chegamos à final de Viena, 27 de maio de 1987.

AC – Vi-a no bar do Sheraton, hoje Porto Palácio Hotel. Três dias antes, o FC Porto tinha perdido 1-0 em Faro, golo do Paco Fortes. À medida que o jogo se foi aproximando do fim, eu fui-me esquecendo da minha namorada. A jogada do Futre pelo lado direito, à Maradona; o tempo a passar, uma segunda parte brutal; a jactância germânica e o golo do empate, com o Frasquinho a fugir na direita, a bola passada para trás e o Madjer a ter aquele momento. O futebol é um jogo lindo, não tentem transformá-lo numa ciência. E o segundo golo… atirei-me para cima do ecrã do hotel, ah ah ah. O Madjer andava com problemas musculares, foi assistido fora do campo e estava desposicionado, na esquerda. O Celso abre no Madjer e ele dá um nó cego ao Winklhofer. Cruza e o rato atómico [Juary] faz o 2-1 num vólei de primeira. O futebol é um jogo, não é uma ciência.

MF – A cidade do Porto não veio abaixo nessa noite?

AC – Aguentou-se (risos). Era uma cidade triste, burguesa, fechava tudo às sete horas. Eu trabalhava em Cândido dos Reis e chegar vivo ao Piolho, cinco minutos depois, era uma aventura. Ladroagem, bandidagem, as pessoas não imaginam. Ficção científica. E nessa noite só faltou aparecer o Nero a dizer ‘incendeiem isto tudo’. Nunca vi festa igual. Fui para a Cufra, embebedei-me, perdi a minha namorada, ainda me cruzei com o meu pai. Tínhamos sido campeões europeus, valeu tudo.  

fonte: Maisfutebol

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