InícioCrónicasA OpiniãoDo Texas ao Adeus: A última cavalgada do Herói.

Do Texas ao Adeus: A última cavalgada do Herói.

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E se o problema nunca tivesse sido Cristiano Ronaldo?

E se o problema fosse a nossa incapacidade de reconhecer a diferença entre um fenómeno… e um momento?

O futebol moderno, tal como toda a realidade à nossa volta, tornou-se vítima da velocidade, do imediatismo (não confundir com “mediatismo”, ok?). Uma boa época basta para fabricar um candidato à Bola de Ouro. Duas boas épocas chegam para o proclamar o sucessor de alguém. Três épocas e já há quem lhe reserve um lugar entre os deuses do olimpo e o categorize como um dos maiores de sempre!

Depois o tempo faz aquilo que sempre fez: põe cada um no seu lugar. E só não o vê quem é parvo ou parvo!

Sim, nós sabemos que o talento impressiona, mas também sabemos que é a consistência que separa, que faz a diferença. De que vale o talento sem foco? Sem resultados?

É fácil marcar quarenta golos numa época extraordinária. Mas já não é tão fácil fazê-lo durante vinte anos, nas três maiores e mais competitivas ligas de futebol do mundo! É fácil dominar uma liga durante duas ou três temporadas. Difícil é manter esse nível enquanto gerações inteiras entram e saem do futebol.

E é isso que distingue um grande jogador de uma figura histórica, de um mito.

Vivemos obcecados pelo próximo fenómeno. Pelo próximo prodígio. Pelo próximo génio. Parece existir uma ansiedade permanente em encontrar alguém que ocupe um trono que ainda nem sequer ficou vazio. Aliás: ainda nem sequer se chegou ao consenso de quem o ocupa definitivamente! Mas os “substitutos” estão aí, colocados pela pressão mediática de ocupar um espaço que todos já adivinhamos vazio, há muito tempo… Mas os pedestais não se herdam. Conquistam-se!

E conquistam-se da única forma que o futebol nunca conseguiu contornar: resistindo ao tempo e à crítica.

A História nunca foi escrita pelos fogachos. Foi escrita pelos faróis.

Quando um jogador mantém um nível de excelência durante duas décadas, deixa de competir apenas contra os adversários. Passa a competir contra o desgaste, contra a idade, contra a evolução do próprio jogo, contra diferentes treinadores, diferentes colegas, diferentes sistemas, diferentes campeonatos e diferentes gerações.

É essa luta que cria as lendas.

Por isso, sempre que aparece um jovem extraordinário, repetimos o mesmo ritual. Perguntamos se será “o novo”. Comparamos números ao fim de uma época. Fazemos rankings precipitados. Distribuímos lugares na História antes de a História acontecer.

E esquecemo-nos de um pormenor (pormaior?) que incomoda p’ra carago!

Ninguém é capaz de prever onde esse jogador estará daqui a quinze anos, ou vinte… ou dez!

Porque é muito mais fácil chegar ao topo do que lá ficar, época atrás de época, campeonato atrás de campeonato, país atrás de país.

É por isso que o debate em torno de Cristiano Ronaldo me parece tão pobre.

Não porque não possa ser criticado. Pode. Claro que pode. Como qualquer jogador.

Mas reduzir uma carreira construída ao longo de mais de vinte anos ao último jogo, ao último torneio ou ao último remate é um exercício de memória curta.

A grandeza nunca esteve na última exibição.

A grandeza esteve sempre na capacidade de repetir a excelência quando todos os outros já tinham desaparecido.

Hoje discutimos se Cristiano Ronaldo já não faz aquilo que fazia aos vinte e oito anos.

Talvez devêssemos perguntar outra coisa.

Quantos dos que hoje são apresentados como os seus sucessores estarão, aos quarenta e um, ainda a discutir um lugar na Seleção do seu país?

É que essa é a verdadeira medida da grandeza.

Não é um ano.

Não é uma época.

Não é um Mundial.

É uma vida inteira.

E é aí que mora o verdadeiro elefante na sala.

Confundimos talento com legado.

Confundimos explosão com permanência.

Confundimos o brilho de um instante com a luz de uma vida inteira.

Os maiores não são aqueles que passaram pelo futebol.

São aqueles que obrigaram o futebol a medir o tempo de outra maneira.

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