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Uma no Cravo, Outra no Lombo

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“Ai, Portugal, Portugal 
De que é que tu estás à espera? 
Tens um pé numa galera 
E outro no fundo do mar “

Jorge Palma

Por estes dias… na realidade, há muitos dias para cá, olho para este meu país e sinto uma vergonha profunda. Não é uma daquelas vergonhas ruidosas, teatrais, de “jovem virgem ofendida” ou de ilustres que batem no peito e fazem discursos inflamados. Não. Já é uma vergonha de cansaço. Uma vergonha silenciosa. Daquelas que se instalam devagarinho, como a humidade nas paredes, até que tudo aparece podre por dentro.

Porque chegamos a um ponto em que já não é só política. É indubitavelmente falta de carácter.

Temos um governo que fala de direitos humanos em cerimónias, mas engole em seco quando os aliados certos despejam bombas sobre civis. Um governo que trata a guerra como quem comenta meteorologia: lamenta-se a tragédia, fazem-se declarações “equilibradas”, pede-se contenção… e depois continua tudo igual. Gaza transforma-se numa vala comum a céu aberto, o Irão é bombardeado sem razão ou provocação, os Estados Unidos continuam a brincar ao polícia do mundo, com Israel a mexer os cordéis da marioneta política, e a Europa, Portugal incluído, limita-se àquela pose burocrática de quem está muito preocupado enquanto assina mais uma nota diplomática inútil.

É a política do “não concordamos, mas…”. E este “mas” é, sem dúvida, o mais cobarde da história moderna. Nem Judas foi tão falso e desonesto!

E agora? Agora, olhamos para trás e vemos a ironia deliciosa de um país que celebra Abril com cravos de plástico produzidos em massa enquanto desmonta, peça a peça, aquilo que Abril tentou construir. A saúde pública esboroa-se até ao limite da resistência. A educação transforma-se numa experiência de sobrevivência coletiva, onde apenas as elites privadas conseguem lugar. Os professores seguem exaustos, os médicos fogem de serviços sem condições para exercer, os serviços públicos seguem em colapso acelerado, mas sempre com um super-mega-hiper-especializado-consultor qualquer pronto a explicar que “o privado pode complementar”.

Com-ple-men-tar.

Palavra bonita. Elegante. Parece até poesia corporativa. Na prática, significa apenas isto: quem tiver dinheiro vive melhor; quem não tiver, espera, ou morre. O que acontecer primeiro. E quando quem tiver dinheiro o tiver perdido em investimentos inúteis, surgem os velhos do restelo a clamar salvação ao Estado Social que agora apunhalam nas costas!

Enquanto o Estado Social é empurrado para a cremação lenta, continua-se a vender a mesma narrativa aquecida no microondas: competitividade, flexibilidade, modernização do mercado laboral.

Traduzindo para português simples: trabalhar mais, ganhar menos, agradecer a oportunidade e não fazer muitas perguntas. O trabalhador moderno já nem é explorado com brutalidade industrial. Isso era no antigamente, era no “tempo da outra senhora”, era feio. Agora é mais bonito! Engalanado e embrulhado na linguagem motivacional das mentalidades “à Ronaldo”, em sessões de coaching e fruta grátis no escritório.

“Veste a camisola, carago!”

Veste a camisola. Claro! Porque se vestires a camisola já vais acreditar que pagar horas extra estraga o espírito de equipa.

E no meio disto tudo cresce o ruído tóxico da segregação, da xenofobia mascarada de “preocupação legítima”, do racismo dito com um sorriso institucional e gravata bem apertada. gentinha que fala de imigração como quem fala de pragas agrícolas. Gentinha que transforma desespero humano em campanha eleitoral. E o mais assustador é que tudo isto deixou de chocar. O absurdo tornou-se numa rotina. A indignação agora dura quinze minutos e compete com vídeos de gatos e receitas de massa folhada, enquanto um pseudo-influenciador qualquer nos convence que água do bidé faz emagrecer ou o sucesso financeiro está nas xpto-coins que vão transformar o novo milénio!

Portugal está cansado. Mas pior do que cansado, está anestesiado. Está ligado às máquinas!

Aceita tudo. Aguenta tudo. Ri-se de tudo. Faz memes de tudo. Como aquele doente terminal que faz piadas no hospital (privado, com certeza, porque público não tem piada nenhuma!) para evitar encarar o diagnóstico.

E é isto mesmo que mais me incomoda: esta falta de espinha coletiva. Esta facilidade em aceitar a mediocridade moral como inevitabilidade histórica. Como se fossemos um país condenado a ser sempre pequeno, obediente e domesticado. Sempre muito cordiais. Muito diplomáticos. Muito mansos.

Um país onde se fala de liberdade enquanto se precariza a vida inteira de uma geração. Onde se fala de democracia enquanto o cidadão comum percebe, todos os dias, que tem cada vez menos poder sobre o rumo da própria existência.

Abril deu-nos voz. Mas há muito tempo que começaram a vender o eco.

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