“Rizoma” no FITEI – Uma Geografia da Dança ou o Corpo enquanto Território?

O TECA – Teatro Carlos Alberto acolheu “Rizoma”, o espetáculo de dança cujo mote versado é a condição humana na sua complexidade existencial. Na verdade, foi este mesmo conceito que norteou a criação da Renato Vieira Companhia de Dança, em 1988 (Rio de Janeiro). Foi no decurso da pesquisa encetada em textos de natureza literária e teatral que o fundador deste coletivo se baseou para a criação da estrutura, “desenvolvendo uma linguagem que procura uma síntese entre os vocabulários do balé clássico e moderno, jazz e dança contemporânea”.

No passado Domingo, foi-nos dado a apreciar o resultado do trabalho de Renato Vieira e Bruno Cezario: “Rizoma”. O vértice inspirador da coreografia gravita em torno de Maurice Ravel, de resto a obra acaba em clímax com a interpretação do célebre “Bolero” da autoria do compositor francês, bem como da influência do coreógrafo Maurice Béjart e com o contributo inspirador do famoso filósofo Gilles Deleuze a ser tributário do título da peça coreográfica, pois ‘rizoma’ é uma conceção epistemológica que se opõe ao arquétipo do conhecimento em árvore, defende por outro lado uma volatilização das hierarquias e recusa a noção de existência um centro.

Esta última asserção é apresentada em palco, recorrendo aos frequentes diálogos entre os corpos e o espaço onde decorre a ação, sem a existência de pontos fixos e com o pulsar dos bailarinos em tensões e intensidades quase esféricas, em ritmo circulatório.

Há momentos de raro apuro estético na peça, o instante inicial é sublinhado por esse recorte harmonioso em que um feixe de luz concêntrico se abate sobre um bailarino e este volteia no linóleo, como que a querer escapar de uma gravidade que o torna refém. Passos de flamingo na elegância de movimento das bailarinas ou em quadros frenéticos de dança, jogos de cumplicidade que remetem para o contraponto entre o real e o imaginário.

Será sempre um elemento de análise subjetivo, e portanto passível de debate, mas o momento menos feliz da criação é aposta na reinterpretação de “Bolero” à boa maneira de Jorge Donn na película “Les Uns et Les Autres”, o bailarino argentino vai ser sempre inimitável e era escusado fazer essa opção que soa como algo desgarrado no contexto da obra. Tudo o resto parece feito com mestria e talento por parte dos bailarinos e há algo nada despiciendo para esse bom resultado em “Rizoma”: às vezes um desenho de luz de fino recorte faz com que um espetáculo se torne mesmo muito luminoso aos olhos de quem o vê. A dança tem latitudes e longitudes corporais que a própria dança desconhece.

João Fernando Arezes

 

 

 

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments