Hermínio Costa no Casino da Póvoa.

Fora dos centros urbanos de Portugal também se pode comer com distinção. Aliás as recentes estrelas Michelin atribuídas em Portugal assim o demonstram, mas isso é assunto para outro texto a publicar em breve. Com a exceção do Algarve, quase todos os restaurantes gastronómicos estão no Porto e em Lisboa. Todos? Não, há um que resiste intrépido ao passar do tempo e das modas,mantendo uma cozinha criativa e elegante e um chefe conhecedor, características que fazem as boas casas de comida. E fica na Póvoa de Varzim.

Se há uns anos tínhamos aquele preconceito de ir comer ao restaurante do hotel, agora ainda resistimos a jantar em restaurantes de… Casino. Mas o Egoísta, no Casino da Póvoa, devia fazer-nos mudar de opinião!

Hermínio Costa é um chefe conhecedor do que existe à sua volta, do mar ali tão próximo e apresenta nos seus pratos a técnica da cozinha criativa aliada ao glamour da cozinha internacional. Daqui resulta uma experiência natural e elegante, tal como o espaço que nos rodeia quando estamos sentados nas largas mesas do Egoísta.

Todos os meses o restaurante propõe um jantar vínico. Um menu degustação criado pelo chefe harmonizado com vinhos de um produtor nacional. Calharam-me recentemente os vinhos da Torre de Palma, que aliaram a história da propriedade e a irreverência do seu perfil à personalidade dos pratos.

Torre de Palma é uma marca de vinhos recente no Alentejo, embora a ocupação da propriedade remonte a tempos romanos. Aliar bons vinhos a boas histórias é algo que nem todos conseguem fazer e este novo produtor cumpre os dois quesitos.

O menu começou com um grande desafio que foi aliar carabineiro a foie gras. A ligação funcionou sem nenhum se sobrepor ao outro e harmonizou com um vinho Arinto/Alvarinho que acrescentou frescura ao prato. De seguida surgiu um rodovalho com beurre blanc e alho francês, que é tão clássico que quase ninguém se lembra de o fazer. Tão bom que estava, como molho a trazer complexidade à leveza da proteína, cozinhada no ponto e a saber a mar. A harmonização foi feita com um vinho mais complexo e poderoso produzido a partir de uma trilogia de castas pela associação do Antão Vaz às duas anteriores.

Depois veio um tornedó de Angus com boletos e lentilhas em puré. Tão raras são as lentilhas na nossa gastronomia sem ser na sopa que foram um toque de elegância num prato de outono. Quem diria? A harmonização desta peça de carne fez-se com o Torre de Palma tinto, sentindo-se o nervo da moderna enologia alentejana e a subtileza de incluir Tinta Miúda no lote de Aragonez, Alicante Bouchet e Touriga Nacional. Este vinho foi também o companheiro da sobremesa, folhas de chocolate com um gelado de café e um creme de alcaçuz, que precisava de mais alcaçuz no custarda apresentada.

Foi uma refeição elegante, informal e descontraída,que me remeteu para o adágio clássico de que o que vinho e a comida aproximam as pessoas. A proposta do Egoísta é mensal e não se deve perder a oportunidade de ir ao casino da Póvoa, nem que seja só para comer!

Texto de Paulo Russell-Pinto

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