Passeio ‘Hygiénico’, Itinerância Teatral…no FITEI

 

Talvez não seja nada arriscado dizer-se que terá sido dos espetáculos mais marcantes no âmbito desta 36ª edição do FITEI, agora que o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica ruma para a sua ponta final: falamos de “Hygiene”, peça levada à cena pelo Grupo XIX de Teatro, de São Paulo.

A temática versada prende-se com o período histórico de transição do final do século XIX para o XX e com particular incidência no processo de higienização urbana dos cortiços, espaços precursores das favelas cujo ambiente patenteava uma manifesta escassez de condições a todos os níveis, mas que constituíam o primeiro e último refúgio das gentes, das famílias numerosas que deles faziam o seu habitat.

O coletivo teatral apostou em fazer (a)representação no espaço público, nos interstícios da malha histórica, em plena zona da Vitória, no Porto. A ideia que perpassa desta opção resume-se a uma escolha perfeita: ruelas mais ou menos esconsas e típicas, onde a tipologia habitacional casa bem com o conteúdo da obra. Dissemos ‘casa’, palavra certa para o momento inicial em que uma noiva, afetada por uma doença associada à insalubridade das condições em que os personagens vivem, faz com que a tratem por “Amarelinha”.

O assunto é sério, mas o tom é divertido e mobilizador. Saídos do Mosteiro de S. Bento da Vitória os espectadores confrontam-se com uma singela carroça florida, que vai constituir o meio de (a)tração da peça até ao cenário final. A noiva segue em cima do veículo quase emoldurada entre duas canas de bambu. Escusado será dizer que a interatividade é uma mola-chave para o processo dramatúrgico, gente que é abordada e acaba por ser mais do que um simples figurante.

Um cortejo que convoca a observação por parte dos moradores para as varandas e janelas da Vitória e cães a franzir a orelha à passagem da marcha. Há um microcosmos de profissões humildes que se movimenta e apregoa os ofícios, o amolador, o sapateiro, o ardina, o merceeiro, a prostituta e ouvem-se idiomas distintos, de etnias diversas, perenes de simbolismo amalgamado da identidade brasileira. Evocam-se revoltas de operários e há samba que se espalha.

E no epílogo do cortejo, a ação até aí itinerante passa a decorrer num edifício devoluto, junto ao célebre miradouro da Vitória, num processo de identificação de cenários: o da obra e o real existente. Mas mesmo no estado de maior degradação humana há sempre lugar para os sonhos, como casar, o amor, a cura. E existe a luta e a dignidade na defesa de um lar e de um teto, mesmo que este seja miserável aos nossos olhos. Teatro de rua no melhor da sua expressão.

João Fernando Arezes

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