créditos: Paulo Nogueira/ Theatro Circo

São 21h e 50, as luzes apagam-se e as conversas circunstanciais dos espectadores ficam naquele momento em suspenso. Este é também o termo certo, a palavra ideal para dizer como ficamos ao longo de umas quase duas horas de espectáculo, e que espectáculo: soa imperativo dizê-lo. Ólafur Arnalds e a sua trupe de músicos conseguiram um tributo ao silêncio feito de uma autencidade ímpar pela via musical. Caro leitor(a), cumpre-me alertá-lo(a), não se surpreenda pelo tom enfático e elogioso da verve.

Uma melodia irrompe, nesse primeiro instante, e ecoa com suavidade a partir das teclas pelo sempre sumptuoso Theatro Circo. A sala ‘está à pinha’ e, a partir do local de onde nos encontramos, este mesmo público afigura-se ao olhar como cachos de gente, uma miríade descendente de cabeças, atenta aos primeiros sinais emanados do palco. O músico islandês dá o mote para uma reflexão individual e colectiva através de uma longa jornada sensorial, quase poderíamos dizer espiritual.


créditos: Paulo Nogueira/ Theatro Circo

E tudo começa com ‘Intro’, muito melódica, a toada será quase sempre essa ao longo do espectáculo, apenas com algumas erupções sonoras – em terra de vulcões, faz todo o sentido (embora para nós, espectadores, ‘faça todo o sentado’) -, o tronco de Ólafur afina por um balancear sereno para ambos os lados à medida que afaga os teclados. “Árbakkin” entra logo a seguir e é aí que se sentem os primeiros indícios da qualidade patenteada pelo quarteto de cordas que acompanha o músico. E se a abordagem se fez na essência com recurso ao álbum  “re:member”, o seu mais recente registo, “Brot” também do último prenuncia uma colagem sequenciada à também muito bela “Only the Winds” do memorável “For Now I’m Winter” (2013). É só dar asas ao sonho e entramos em voo lento e suave, com Ólafur a capitanear a viagem a partir das estantes de teclados e sintetizadores em que se desloca. E para sentir melhor o solo, está no estrado de meias apenas, que possuem padrões cinzentos e pretos em combinação com o branco.

A determinada altura enobrece a sala e o público que o acolhe, encantado: “É óptimo estar nesta linda cidade e neste teatro maravilhoso”, refere. O baterista/percussionista auxilia o diapasão desde o segundo tema versado e a edição electrónica confere uma outra roupagem e cadência musical à toada mais clássica das músicas. “re:member”, música homónima do derradeiro álbum (2018), é exposta à audição do público pouco depois. O trabalho e o desenho de luzes são gigantes. Seria merecida uma ovação de pé para Stuart Bailes, o britânico que concebeu esta componente estética essencial e que combina de forma perfeita com a preocupação de Ólafur em nortear todo o espectáculo por via de uma marcação impressiva e conceptual para definir os contrastes: a antítese entre a escuridão e a luz, a música e o silêncio, bem como “a dicotomia entre o gelo e o fogo”, como alguém diz bem a propósito.


créditos: Paulo Nogueira/ Theatro Circo

Há uma beleza arrebatadora em tudo isto e também no silêncio reverencial com que o público tributa os músicos, em plena comunhão com o que ouve. Observa-se e escuta-se uma conjugação harmónica das cordas: dos violinos e do violoncelo, nada é deixado ao acaso. E há um macio, terno e aveludado manto musical que continua a envolver-nos. “Unfold” tem aquela cadência rítmica alternada entre a prevalência da sonoridade do quarteto e os teclados. “Beth’s Theme” e a muito melódica “Verses” prosseguem o alinhamento.

Há cónicas e tubos que afirmam jogos de luzes em tons azulados que se insinuam pelo palco e que contrastam com a penumbra do espaço em redor, já depois de uma recta de branco luminoso desencadear uma panorâmica de sombras dos músicos no redondel da sala: na plateia e nos balcões, com o imponente e simbólico lustre do Theatro Circo a testemunhar.

“Momentary” e “Saman” (re.member, 2018) são momentos de reserva e contenção do pianista. Um pouco mais à frente, “Hapiness Does Not Wait” é mais um contributo para a continuidade da sensação de estarmos deliciados. “3326” é um solo prodigioso de violino. E ainda com o disco “re:member” em pano de fundo: “Ypsilon” prenuncia “Undir”, este tema, por seu turno, converte-se num momento único de imersão musical e a recepção do público assim o comprova no final. A intensidade da luz tubular em tons de azul fica na memória. “ekki hugsa” (re.member, 2018) é bastante mais alegre, parece um despertar e remete-nos, de certa forma, para o universo dos conterrâneos Sigur Rós.


créditos: Paulo Nogueira/ Theatro Circo

Com “nyepi” e “Doria” há indícios de que a epifania estava prestes e entrar no epílogo, sem que alguém pensasse nisso. Não sem que “Near Light” desfilasse excelsa pelo palco. E o ocaso deu-se com “3055”, do registo seminal “Eulology for Evolution”, de 2007. O público levantou-se calmamente e saudou os músicos com aplausos vigorosos que redundaram num encore portador da dedicatória final, com Ólafur Arnalds a tocar “Lag Fyrir Ömmu” no piano e de costas para o público. Era o desenlace de uma intensa viagem musical que perdurará muito tempo na memória de quem assistiu ao concerto. O mesmo, com toda a certeza, dirão aqueles para quem a Casa da Música, no Porto, e o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, reservaram essa possibilidade.

Uma nota para curiosidade do sincronismo dos pianos semigenerativos, facto que marcou também o espectáculo. De resto eram muitos os que se questionavam sobre esse aspecto no final. Ólafur foi simpático, generoso e humilde e bem-humorado como só os grandes o sabem ser, até no longo agradecimento que fez à avó já falecida. “re: member”, ficamos a saber, nasceu da recusa do músico islandês em ficar hermeticamente fechado no seu estúdio e ter escolhido a inspiração de uma ilha na Indonésia onde o final do ano se comemora com um dia de opção pelo silêncio. E nós agradecemos.

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