Quinta-feira, 12 de Julho – O compasso de espera pelos God Is An Astronaut (GIAA) faz-se com a audição dos Radiohead a partir das colunas: o som espalha-se pela Sala 2 da Casa da Música e parece combinar com as cambiantes luminosas de vermelho e azul que brotam de uns focos cimeiros. Faz-se também ao ritmo de conversas de circunstância para apagar o tempo que falta.

www.diogobaptista.com

Às 22 horas e 1 minuto – pontualidade irlandesa -, entram em palco Niels Kinsella, o baixista, e Robert Murphy, o homem que se encarrega da ‘segunda guitarra’, dos teclados e sintetizadores na banda e que acompanha a digressão junto do núcleo duro do colectivo musical: o trio constituído pelo líder Torsten (irmão gémeo de Neils) e pelo baterista Lloyd Hanney, bem como pelo já referenciado Niels. Já regressaremos a este ponto.

Importa dizer que os GIAA lançaram recentemente o seu nono disco, que assume o elucidativo título de “Epitaph”, um registo que evoca o falecimento de um primo dos manos Kinsella que aos 7 anos de idade perdeu a vida em circunstâncias trágicas. O disco consagra-lhe uma homenagem, os temas são por isso um tributo e espelham um lado mais negro do período de luto que os elementos ainda estão a viver. Lamentando o motivo pungente da criação musical, podemos adiantar que isso não obstou a que a banda associada ao estilo space rock tivesse concedido um espectáculo verdadeiramente memorável ao longo de uma hora e meia.

www.diogobaptista.com

De regresso ao ponto de partida… E foi precisamente com o tema homónimo do álbum que o concerto começou e nesse momento inicial apenas com Niels e Robert no estrado. Um pequeno hiato de tempo e acabam por entrar Torsten e Lloyd. O som sai denso mas ainda algo sujo até ser calibrado a preceito pouco tempo depois, aliás, esta foi a quarta vez que presenciamos um concerto dos GIAA e terá sido aquele cujo índice qualitativo do som produzido acabou a atingir o melhor desempenho que ouvimos aos irlandeses até à data.

Totalmente imersos entre feixes de luz e estrelas brilhantes que cintilam a partir de um painel situado na retaguarda do palco, os elementos da banda atravessam-nos o campo visual em tons sombreados que se agitam em permanência. “Mortal Coil”, também do derradeiro registo gravado, vem logo a seguir e é portador de uma bateria compassada e de uns teclados ritmados. Quando Torsten acaba de agradecer os aplausos e a presença do público, faz um anúncio promissor: “A próxima música chama-se “The End of the Begining” (2002), avançou o guitarrista. Foi o primeiro momento de júbilo para um público que pareceu ser maioritariamente constituído por gente curiosa, mais do que por verdadeiros fãs, embora no final do concerto estejamos convencidos de que na sua grande maioria acabaram por ficar a pertencer a este lote de seguidores.

www.diogobaptista.com

Em “Frozen Twilight” (A Moment of Stillness/2006) é concedida uma bênção luminosa à audiência sob forma de raios de cor amarela e azul que banham simultaneamente os músicos e quem assiste. O dedilhar profundo de Torsten marca o tema e há-de assinalar o posterior e muito celebrado “All is Violent, All is Bright” (2005), com aquele início em que se ouvem sons provenientes de tiros de metralhadora e bombardeamentos distantes. Robert, que se passeou nos teclados, está agora na guitarra. Niels agita-se numa imagem cujo espectro mostra o saltear do seu rabo-de-cavalo enquanto fica a domar as cordas do baixo. Enquanto isso, Lloyd continua a malhar sem dó nem piedade os pratos, o bombo e a tarola.

www.diogobaptista.com

O espectáculo vai em crescendo e “Fragile” (All is Violent, All is Bright/2005) é abordada com subtil delicadeza musical. Uma vez mais faz-se também sentir a intensa dimensão visual do espectáculo através dos imponentes feixes divergentes de luz (equivalentes a mais 40 espadas de Luke Skywalker na saga da “Guerra das Estrelas”), que auxiliam, e de que maneira, a que a música fique sublinhada na memória da plateia.

“Seance Room” (Epitaph /2018) abranda um pouco a toada, mas os GIAA são viajantes que começam sempre por cavalgar em sucessivas planícies melódicas e num crescendo imediato ascendem ao cume da montanha e logo a seguir arriscam (ir)romper pelas profundezas sonoras, num jogo constante de descarga e de retoma de fôlego que virá a redundar em nova catarse rítmica. “Medea”, também do último álbum, é matizada pelo azul e pela ambiência espacial, algo que é apanágio da banda. Os raios de luz volteiam com uma ilustre suavidade. A atmosfera é de um épico sonoro, somos conduzidos ao longo de uma imensa viagem.

www.diogobaptista.com

Sem GPS, diga-se de passagem, pois a música seguinte é mesmo “Forever Lost” (All is Violent, All is Bright/2005): um dos emblemas musicais mais icónicos dos GIAA, imediatamente reconhecido por todos ao primeiro toque de Robert nos teclados.

“Suicide by Star”, pertencente ao simbólico All is Violent, All is Bright/2005, mostra uma vertente musical mais grave e concorre quase para um orgasmo explosivo digno de dimensão galáctica, com a bateria de Lloyd a marcar posição no meio das guitarras e do baixo.

E é com “From Dust to the Beyond”, do seminal “The End of the Beginning” (2002), que se começa a perceber toda a missão dos ‘envolvidos’: a viagem interplanetária a que os GIIA conduziram os espectadores está quase a atingir o epílogo. “Centralia” é quase o cair do pano, uma música que acaba num autêntico detonador sónico. Com alguma piada à mistura o líder Torsten avança: “Nós agora vamos fingir que vamos regressar aos camarins, mas voltamos já!”, que o mesmo é dizer: ‘façam lá a vossa parte do jogo teatral da coisa e peçam mais uma’. E foi mesmo isso que sucedeu num encore que resgatou para o alinhamento “Helios I Erebus”, a música que dá o nome ao penúltimo álbum dos irlandeses, disco que integra de igual modo o tema precedente ao final.

www.diogobaptista.com

Em resumo, um concerto com música praticada em regime de sonoridade bem afinada, numa sala quase repleta de público e que acolheu a proposta musical da banda de forma contida, mas com um perceptível entusiasmo interior, notório e efusivo no final dos temas – a música dos God Is Na Astronaut é uma viagem sensorial, por conseguinte é mais para ser sentida do que talhada para exteriorizações frenéticas. Há uma estrela que brilha no céu evocada em “Epitaph”, mas os GIAA não são de acabar, não tarda nada e estarão de volta para nos mostrarem que há muita luz para além da escuridão no firmamento.

www.diogobaptista.com

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments