NOS Primavera Sound: 2º Dia – Interpol capturaram-nos! Courtney Barnett e Aldous Harding ‘prenderam-nos’…

E ao segundo dia, conforme as escrituras, a chuva largou âncora do NOS Primavera Sound: as tágides inspiradoras já ostentam os ramos de flores a bordarem os frontais. Já conseguimos vislumbrar de forma notória o contraste da paleta colorida das vestes que se insinua no verde estampado do magnífico Parque da Cidade.

Os Interpol ‘capturaram’ uma multidão. Courtney Barnett foi uma autêntica ‘Guerreira do Rock’. E Aldous Harding trouxe esgares bizarros no rosto e foi portadora de um canto cristalino.

Débora Umbelino, aka Surma, teve honras de abertura do palco Seat às 17h00. Os poucos que se juntaram apreciaram o trabalho da artista de Leiria e do contrabaixista Axel. Uma estética marcada pela electrónica, com direito a um par de bailarinos em palco. É proibido dizê-lo, mas nós arriscamos: foi bonito de ‘ouver’.

Diogo Baptista/Global News

Um momento de especial acolhimento melódico foi proporcionado pela neozelandesa Aldous Harding. Saboroso arrastar da mansidão da tarde no palco NOS, por volta das seis da tarde: num momento em que a melodia fluiu à custa da voz cristalina mas marcante de Aldous, que esteve quase sempre acompanhada por uma guitarra acústica, de um toque suave da bateria, de teclas que parecem imitar outros instrumentos e de um baixo tão presente quanto discreto, isto para além de um trompete a que o baterista a espaços recorria.

Da cantora de olhar bizarro e trejeitos no olhar ficam-nos prendas mais ou menos harmoniosas como “Zoo Eyes”, “ The Barrel” e “Treasure”. Ficamos com pena de não ter escutado “Imagining My Man” e sobretudo “Stop Your Tears”. Contudo, estamos certos que um regresso não se fará tardar. Ah, e gostamos das teclas tocadas a quatro mãos.

Nilüfer Yanya. Diogo Baptista/Global News

Mudança de azimute para o palco Super Bock (18h50) onde apreciamos alguns temas de Nilüfer Yanya, a jovem cantora britânica exibiu algumas virtualidades e foi acompanhada por um baixista e um baterista, uma saxofonista que se dá bem com as teclas e uma auxiliar nas vozes. É, como de resto se tornou hábito dizer, um projecto com piada. Mesmo adoentada, como confessou, Yanya revelou talento na voz e na guitarra. Apreciamos “Paradise” e aquela entrada bem ao jeito de Prince na guitarra.

Nova corrida para deitar um olho, embora seja mais fácil deitar um ouvido aos Lisabo. Projecto que aglutina duas baterias, um baixo e três guitarras. O palco Seat (19h15) esteve para vir abaixo pela primeira vez em 2019, mas desta feita aguentou-se.

Courtney Barnett. Diogo Baptista/Global News

A australiana Courtney Barnett, repetente do NOS Primavera Sound, esteve cá em 2014, concedeu um dos concertos do dia. Entrou a soar a um country mais eléctrico, com “Avant Gardener”. A partir daí guindou-se ao estatuto de uma autêntica ‘guerreira do rock’. Sempre a brandir o instrumento ao alto no final das músicas e a tentar sacar-lhe alguma distorção, a cantora natural de Melbourne foi conquistando o muito público que se juntava paulatinamente defronte ao palco NOS.

Aquela maneira peculiar de tocar a guitarra, sempre em grande estilo, a canhota Courtney vaporizou o ambiente com temas como “City Looks Pretty”, a bateria tinha no bombo a radiografia do momento através da inscrição: Tell Me How You Really Feel. Parece que toda a gente respondeu positivamente a esta radiografia da percussão. A mesma corresponde ao título do último álbum gravado pela artista.

Courtney Barnett. Diogo Baptista/Global News

E “Need a Little Time” parece ter sido premonitória, embora por inversão de sentido. Na verdade, Courtney é uma cantora castiça e depressa domou os presentes. “I’m Not Your Father, I’m Not Your Bitch” é das mais desgarradas, com Dave Mudie sempre a martelar em conformidade a bateria e Bones Sloane, igualmente endiabrado, no baixo.

“Everybody Here Hates You” é outra das que mais estragos causa. E se o lema é deixar mossa, “Nobody Really Cares If You Dont Go To The Party” não lhe fica nada atrás e há muita gente que conhece o refrão. Passada uma hora de concerto, a difícil decisão de deixar o palco faz-se com recurso a “Pedestrian at Best”. Quando voltar, Barnett já não tocará a esta hora, mas terá direito na mesma ao palco principal, é o nosso vaticínio.

Uma incursão ao palco Seat, logo após o tempo de meter uma bucha… nas paredes do estômago, e está tudo Fucked Up! A banda canadiana praticante do género hardcore punk, bem que se podia juntar aos norte-americanos Shellac e aos bascos Lisabö: abririam ‘uma empresa na hora’ de demolições por implosão musical. Damian Abraham, o vocalista, é o campeão do “grunho”, uma nova forma de canto que expõe a garganta ao serviço vocal. Pelo perfil, é bem capaz de comer o jantar a um condomínio inteiro, mas no final revela-se um bom rapaz que até se demora nos cumprimentos e nas selfies com os fãs. A entrada com um número assinalável de adolescentes à guitarra caiu bem no público. E pela primeira vez este ano até se viu um núcleo circular de ‘moche’.

Interpol. Diogo Baptista/Global News

Com um singular minuto de atraso, os Interpol irromperam pelo palco Seat passavam 46 minutos das 11 horas da noite. Num dos concertos mais ansiados desta edição do ‘Prima… 2019’ conseguiram juntar uma multidão compacta no espaço alcatroado e nas bancadas laterais que balizam o território para os espectadores, certo é que a miríade de gente se estendeu para lá da área confinada. Vamos a isto, como se estivéssemos a conjugar o presente do indicativo…

E foi com “C’mere”, do segundo álbum da banda liderada por Paul Banks, Antics (2004), que a epifania musical teve o seu prólogo. Vestidos de fato escuro, a única excepção a esta regra foi Fogarino cuja camisa branca lhe permitiu outra desenvoltura braçal (são cinco no estrado… o trio composto por Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino e os dois músicos de apoio nas teclas e no baixo) vinham dispostos ‘a prender’ a audiência.

A entrada é fulgurante, com fios densos de luzes brancas e vermelhas a conferirem expressão pictórica ao palco: as letras do nome da banda estampadas no ciclorama, também elas vermelhas em fundo azul. O som começa a estar calibrado em “If You Really Love Nothing” e sobretudo na mais antiga “Public Pervert” e vai-se afirmando no maior grau de nitidez sonora que ouvimos até agora no NOS Primavera Sound.

NOS Primavera Sound: 1º Dia – ‘Só… lounge’ ou Jarvis Cocker pós-Darwin in a Stereolab? – Global News Portugal

A chuva é já uma imagem de marca do NOS Primavera Sound. Os festivaleiros sabem disso, e em abono da verdade às vezes pode até ser uma generosa bênção divina. Nick Cave e os seus apreciadores que o digam. Teria o músico australiano dado um concerto em 2018 da estirpe da excelência sem aquela bátega …

Quando metem a quarta, “PDA”, ainda ninguém está com a “PDI”, mas as articulações hão-de vir a queixar-se mais adiante. Há gente aos saltos a delirar com as incursões virtuosas da guitarra de Kessler e da batida ritmada e certeira de Fogarino, o guitarrista é de facto um talentoso, mas o baterista e a sua técnica impressionam do princípio ao fim do espectáculo. E o baixista, que toca estiloso com as pernas num acentuado V invertido, marca em definitivo o diapasão. Banks continua com aquele ar dominador, ‘de quem dá voz de prisão’ a todo mundo, e os óculos de sol em paisagem nocturna a emanar autoridade (alguém disse que era familiar do Pedro Abrunhosa).

A cavalgada musical promete e prossegue a galope com “Say Hello to the Angels”, do mais seminal álbum de estúdio da banda Turn On The Bright Lights, de 2002. “Lenght of Love” corre a seguir e a mais recente homónima do derradeiro registo discográfico A Fine Mess (2019) segue-lhe as pisadas. Tudo é físico, melhor, é física, pois dá para entramos no capítulo da aceleração.

Diogo Baptista/Global News

Tudo segue a preceito, a animação contagiou um público que se agita, bate palmas a acompanhar os ritmos e aplaude muito no final de cada um dos temas. “All The Rage Back Home” é daquelas músicas em que a catarse pulsa ao rubro quando se ouvem os Interpol. E sem deixarem pousar as cordas, as baquetas e as teclas, entram em grande com “Rest My Chemistry”, tema integrante de Our Love to Admire, de 2007.

Faz-se inalar um aroma de chulé d’erva, algures por estes domínios. Quando “The Rover” entra no alinhamento já o espectáculo vai à velocidade de um Ferrari, também depende de quem conduz, pois há quem tenha “Slow Hands”. “Leif Erikson”, uma das mais amadas, é acompanhada por palmas compassadas do público e “Obstacle 1”, também de Turn On The Bright Lights, é muito saudada. Ambas deixam a antever um final. Tudo culmina uma hora e um quarto depois com “Roland”, do mesmo álbum para não destoar. A banda de Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino criou um problema em termos de disponibilidade nos estabelecimentos prisionais: capturou toda a gente! Tempo final para apreciação de outras repetências, como a de James Blake a fechar um dos dias no palco NOS. A Primavera fez-se de clorofila musical pela noite fora no palco ‘Bits’. Entramos no último episódio do festival…

Diogo Baptista/Global News

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