Não Sobre o Amor – Shklovski a lembrar Camões

 

A 36ª edição do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica findou com a peça “Não sobre o Amor”.

A génese desta crónica deve começar, caro leitor, por explicitar o contexto cénico-dramatúrgico daquilo que podemos considerar um poema teatral, com uma estética visual impactante para o espectador. Imagine-se então uma caixa de cartão canelado, ou um contentor, com a abertura virada para o observador: uns 6 metros de comprimento, por 3 de largura e outros tantos de altura. No interior, os elementos cenográficos: uma cadeira e uma secretária (com um candeeiro) pregadas na parede da extremidade esquerda e dispostas na perpendicular a esta. Uma cama cuja disposição é central assente num tapete. O leito tem uma base/suporte para segurar os atores que sobem para nele se deitarem, através de uma escada de dobras de ferro. Uma mesinha de cabeceira e um telefone.

Aqui a lógica da física não (p)reside. Tal como foi descrito, há antes uma lógica de inversão, relembremos: a cama está afixada na parede, a mesa parece pender de suspensa, há uma lâmpada que em vez de estar pendurada, está no chão. E uma janela alojada no teto. A tudo isto subjaz uma intenção, é fácil depreender.

A partir desta espécie de visão de ‘arquitetura em 3D’, o espectador assimila o cenário e parte para uma ação em que as duas personagens: um homem e uma mulher que têm um discurso díspar face a um relacionamento que supostamente os une. Há encontros, mas há sobretudo desencontros. Frases que se projetam no palco como legendas a servirem de narrador complementar.

A peça evolui, não sem que paralelamente ao contexto dramático, ao lado deste vosso humilde escriva do Global News estejam sentadas mãe e filha, que devem ter ouvido falar na atriz protagonista Simone Spoladore, e sem preconceito de juízo, deve ter sido numa qualquer telenovela. Uma delas remói a carteira e converte-a numa autêntica debulhadora de “chewing gum” e para além disso, acrescem dois toques de “pardal tecnológico” na plateia. Momento de comédia inusitada em plena densidade dramática, onde não dá para esboçar sorrisos.

O palco retoma a sua centralidade nos níveis de atenção, preenchido por páginas de uma intensa solidão, onde os paradoxos do Amor nos parecem dignos de uma lírica camoniana. Versa-se um “Não Sobre o Amor” e ele nunca esteve tão presente. É ela que o proíbe de falar sobre o mais magnético dos sentimentos. Mas até o impedimento consagra a existência desse sentimento, embora não correspondido.

Uma hora e meia de teatro de eleição, proveniente do Brasil, pela mão da Sutil Companhia de Teatro, sedeada em Curitiba, que seria merecedora de outra meia casa para encher o Teatro Nacional São João. A história baseada na correspondência entre os escritores Victor Shklovsky (1893 – 1984) e Elsa Triolet (1896 – 1970), ele um importante teórico do formalismo literário russo e ela uma romancista franco-russa e membro da Resistência Francesa, foi alvo de um desempenho a preceito por parte dos atores Leonardo Medeiros e Simone Spoladore. A encenação de Filipe Hirsh deixa respirar toda a tensão emocional, privilegiando o teatro onde a palavra é a maior protagonista, sem embargo dos intervenientes, do cenário singular de Daniela Thomas, das projeções-vídeo, e da luz, dessa formidável luz de Beto Bruel. Se o Teatro também é aquilo que transportamos para casa depois do que vimos no palco, a aposta foi totalmente ganha.

João Fernando Arezes

 

 

 

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