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Foi com uma sala repleta de curiosos e fãs que as ‘quatro feras’ entraram em palco e, desde logo, nada dispostas a fazerem concessões. Dois holofotes rompem com a penumbra, Fay Milton é a primeira a dar um ar da sua graça através de sonoras e certeiras batidas numa bateria que foi sempre percutida a preceito ao longo de uns 70 minutos.

A indumentária negra de que se (in)vestem apenas contrasta intencionalmente com os sapatos avermelhados de Jehnny Beth, a vocalista francesa. A líder entra assertiva na voz e Silence Yourself, o único álbum gravado que possuem, e que tanto tem dado que falar, começa ali a ser dissecado em formato musical: “I Am Here” corre a galope, matizado por um canto visceral e uma autêntica descarga elétrica produzida em larga escala por Gemma Thompson, ela que a partir da guitarra saca sonoridades ácidas que hão de vir a povoar o espaço em redor. Por seu turno, Ayse Hassan agita-se balançante a domar as linhas de baixo dominantes que cria e bem pode dizer-se, em abono da verdade, são de prevalência dominante no contexto melódico da banda. Soam a ‘Division Bass’, ainda mais do que se falarmos de The XX, por exemplo.

Em “I Need Something New” a sonoridade prosseguida é poderosa, mas de forma surpreendente, ou talvez não, conseguem distinguir-se de forma nítida os contributos instrumentais de forma isolada e com uma nitidez precisa. Enquanto isso, os feixes divergentes e convergentes das luzes entrecruzam-se e revelam-se tão sóbrios quanto eficazes no papel que lhes incumbe em termos de participação neste ritual obscuro e por isso em “Strife”, mesmo numa homenagem à escuridão, e talvez por contraste, isso tornou-se evidente.

Quando se atinge o quarto tema, “City’s Full”, o cavalo já vai sem rédeas e a um ritmo avassalador, também aí o público solta as amarras em definitivo e começa a perceber-se a razão da promessa das londrinas em regressarem após o marcante concerto concedido no Optimus Primavera Sound do ano passado. Jehnny mostra-se agradada com os gritos que ouve e acaba a tecer elogios a esses mesmos brados, antes de avançar para “Shut Up”, que começa com aquele baixo vibrante a marcar o ritmo e a revelar, uma vez mais, todo o virtuosismo de Ayse Hassan, com a guitarra de Gemma a golpear o baixo, a espaços. Jehnny continua segura na voz e insinuante na pose, num momento em que se fez sentir um gingar físico de aprovação por parte do público face ao que estava a ouvir.

“Waiting For a Sign” foi portador de um registo tétrico inicial. Há ‘disparos de bateria’ que soam como chicotes! E uma Jehnny que afirma a presença, qual dama de negro imaculada. As distorções desencadeadas na guitarra de Gemma conferem uma dose maior de carga dramática à performance musical. Já o concerto vai a meio e no momento posterior há algo de celebrativo que se adivinha na magnífica versão de “Dream Baby, Dream”, dos Suicide. O ritmo afirma-se em crescendo e, enquanto isso,  Ayse continua a domar o baixo sem se desligar de um balanço dançante marcado pela elegância no estilo.

E em “She Will”,  Jehnny adverte os homens presentes para não ficarem ciumentos. Começa por dizer que “A próxima é uma música para raparigas!”, mas logo se desdiz com um sorriso e acrescenta “…uma música para rapazes e raparigas”. Em toada unissexo o tema galga caminho e faz verter a energia do palco até público, tudo através de uma cadência verdadeiramente empolgante. “No Face” é como abrir um baú e soltar toda a raiva que lá está contida e musicalmente acabou por sagra-se como mais um show de baixo. No ansiado “Husbands” acabamos a apreciar o jogo de complementaridade sonora entre a bateria de Fay Milton e o baixo de Ayse Hassan, a guitarra de Gemma, por seu lado, percorreu etérea e autónoma a corrente melódica e a voz de Jehnny como que incita a uma nuance, uma mudança de quadro, no quotidiano feminino desgastado pelas tarefas domésticas e pelo enfado. Quando as Savages partem para “Hit Me”, Jehnny adverte que não regressarão nos próximos tempos e enfatiza: “Isto é prá agora!”, aproveitando para reforçar: “Vamos lá, Porto!”.

E o Porto não enjeitou a oportunidade, como se viu logo a seguir, já com o Hard Club em brasa. O anúncio de “Fuckers” é portador de júbilo junto da audiência, mas nem aqui as Savages parecem querer que seja visível  alguma luz ao fundo do túnel. O público bate palmas de forma sincopada, Fay Milton continua de forma sábia a castigar a bateria. E chegados ao final da jornada, consegue-se perceber em toda a amplitude a filiação genética da banda, algo a que dizem estar intimamente ligadas: Céline e Black Sabbath.  E se o post-punk fosse sempre servido desta maneira, bem que ninguém se importaria que lhe servissem mais uma dose de igual calibre. Soube a pouco, mas a verdade é que o repertório da banda e sagacidade de não repetirem temas num hipotético encore, só deixaram os devotos musicais mais ávidos de usufruírem de uma próxima apresentação.

Uma palavra de apreço aos Dead Forest Index cuja primeira parte revelou uma dupla que despertou alguma curiosidade nos presentes e o caso não foi para menos: estão entre uns Japandroids bem menos expansivos em termos rítmicos e transportam a porção exata de uns Joy Division. E sim, “Distance” é uma grande música para quem quer estar por perto.

Texto: João Fernando Arezes

Fotos: Diogo Baptista

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