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‘Djavan’ vai para o Benfica, mas Caetano Veloso esteve ontem no Porto e voltou a mostrar credenciais. A noite foi também de Kendrick Lamar, o rapper que agitou uma miríade de fãs e convém não olvidar o momento em que as Haim estiveram em palco: a líbido ficou ao rubro.

A pontualidade é daquelas coisas que nas diversas edições do Primavera Sound se tem vindo a pautar pelo rigor e tirando uns atrasos muito ligeiros, também nesta edição as bandas têm subido ao palco à hora marcada. Serve isto para dizer que Os da Cidade, que vieram ao campo existente em plena urbe, abriram as hostilidades com o mostrador dos relógios a espelhar as 18 horas.

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O espaço verde estava já a caminhar para o tom mais policromático nessa altura, num recinto que de forma paulatina, se ia polvilhando de gente. Alguns de NOS (é propositado) aceitaram o tom acolhedor da voz suave de António Zambujo que começou por insinuar-se no recinto o timbre dedilhado das guitarras foi-se juntando às vozes do cantor alentejano e do portuense Miguel Araújo (o tal que é membro dos Azeitonas). “Terra de Ninguém” e “Fundo da Garrafa” foram temas comprovativos da capacidade de conjugação entre o canto e a vertente mais instrumental.

João Saucedo arriscou a voz aqui e ali, quase em tom de brincadeira, mas a verdade é que o pianista não tarda nada e vai ser mesmo apelidado de Tom Waits lusitano, pois possui aquilo que é vulgar designar-se por um ‘vozeirão’. Ricardo Cruz ajudou à festa também nas cordas e Mário Costa esteve em bom plano na bateria e percussões. Ficou no ouvido o inédito “Culatra”, em registo de blues, já quase na despedida. A harmónica e o acordeão couberam a preceito no diapasão musical.

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E do palco NOS para o palco Super Bock onde um Rodrigo Amarante revelou o encanto dos trovadores poliglotas que se ouvem com agrado, como se os espectadores fossem marinheiros recentemente atracados num qualquer porto a ouvir uma atração musical. Uma atuação salpicada em pleno público pela primeira aparição de girassóis ostentados por alguns dos presentes.

Britain's band, Spoon, performs live at Rock in Rio Lisbon 2014

Com os Spoon, no palco NOS, deu-se por inaugurado o registo indie rock no Nos Primavera Sound. Os norte-americanos ofereceram um lote de canções bem esgalhadas e os autores de “Jonathon Fisk” foram tributários do primeiro banho de público do festival. O ritmo progressivo de pessoas a entrarem no Parque da Cidade prenunciava a contagem decrescente para os concertos mais ansiados da noite: Caetano Veloso e Kendrick Lamar

Sky Ferreira performs live at Rock in Rio Lisbon 2014

Sky Ferreira surgiu em palco quando já se receavam as implicações de um cloudy sky. Bem pode dizer-se que a atuação da lusodescendente sem desmerecer os atributos também não marcou a diferença no que diz respeito à paleta musical oferecida para este primeiro dia. Recebida com alguma histeria por um contingente feminino de fãs que se agarrou às grades desde o início do concerto. A electro pop musculada soou a espaços a uma sonoridade dos Blondie, mas nem isso a retirou de um limbo apreciativo ‘entre o não aquece nem arrefece’.

Brazilian singer Caetano Veloso performs live at NOS Primavera Sound 2014

Caetano Veloso mostrou ontem aos céticos como um músico com 71 anos consegue enlear um público com o seu novelo musical de bossa nova e samba, uma boa dose de tropicalismo dos primeiros tempos de carreira, e uma capacidade de reinvenção a todos os títulos notável e surpreendente, isto se quisermos ser parcos na adjetivação.

Se pensarmos que Chico Buarque nos remete, em termos de abrangência e espectro musical, para o território da lusofonia, Caetano Veloso é, por seu turno, o mais universal dos músicos brasileiros vivos.

“A Bossa Nova é Foda” deu o tiro de partida, e claro, ou não estivéssemos no Porto, foi bem auxiliado no título e refrão do tema. O pontapé de saída para um espetáculo que durou 1 hora e meia, aproximadamente, e que ainda teve direito a um encore, estava dado. “Abraçaço”, o derradeiro álbum do baiano, editado no final de 2012, deu o mote para o concerto, mas houve lugar para alguns temas que marcaram a carreira do irmão de Betânia.

Por entre quatro cavaletes que suportavam igual número de quadros a figurarem no palco: uma cruz negra, um círculo escuro e dois quadrados, um preto e o outro vermelho, esteve um ‘time musical’ de respeito, a Banda Cê: Pedro Sá esteve em grande nível na guitarra e nos coros, Ricardo Dias Gomes foi competente no baixo, no piano Rhodes e nos coros e Marcello Calado não enjeitou tributos e mostrou virtuosismo na bateria.

As cerca de 22 mil almas presentes trouxeram para casa recordações tão antigas como inusitadas, “Leãozinho” e “Você não Entende Nada” foram disso exemplos. O homem de cabelo grisalho, camisa branca e calças pretas voltou a fazer das suas.

The American Band HAIM performs live at NOS Primavera Sound.

Em toada de diário de bordo: deixamos o palco NOS, onde Caetano tinha acabado atuar, às 23 horas e 15 minutos e rumamos ao palco Super Bock para ‘ouver’ um dos momentos da noite: o concerto das norte-americanas Haim. Desconhecemos, caso Tchékhov reincarnasse, se voltaria a escrever “ As Três Irmãs”, certo é que ao escritor russo não faltariam motivos de inspiração para o efeito, bastaria olhar para as manas: Este, Danielle e Alana.

Cabelos em agitação permanente, guitarras em registo de ph muito ácido e sobretudo um frémito sonoro poderoso causaram plena surpresa entre os circunstantes, sobretudo e mesmo apesar de se saber que “Days Are Gone”, editado em 2013, é um álbum com imensas virtudes, mas sem o fulgor e expressão musical que ao vivo é patenteado, como de resto foi dado a ouvir ao público, ontem no Nos Primavera Sound.

Com os homens em segunda fileira, dedicados às teclas e à bateria, o trio feminino assumiu as funções de frente da casa, melhor, frente de palco, num bailio sexy e insinuante, mas longe de um marketing mais típico de vende bonecas, o fio de rock que saiu dali foi de uma inequívoca qualidade. De qualquer modo, aquilo que se viu e ouviu foi mais que um concerto, daria para sugerir a participação do trio aos criativos num spot publicitário em prol da impotência sexual masculina.

The American rapper Kendrick Lamar performs live at NOS Primavera Sound.

Kendrick Lamar, por seu turno, agitou as hostes logo à entrada. Um som dominante fez com que os acólitos o acolhessem num autêntico santuário hip hop, com uma miríade de fãs em completo delírio, numa coreografia espontânea de massas demolidora ao olhar: os braços agitam-se frenéticos de trás para a frente e da frente para trás em constante movimento.

O rapper americano descarregou uma assertiva energia semântica por sobre a população temporária do Parque da Cidade. Sintetizadores, baixo e guitarra conjugados auxiliados por sons ‘samplados’ impuseram-se na noite. “Bitch, Don’t Kill My Vibe” e “Swimming Pools” foram duas das mais reconhecidas pela audiência. Kendrick já dá que falar, mas ainda há muita margem de manobra para continuar a afirmar-se. Estamos seguros de que regressará, até porque se ontem muitos fizeram esse pedido, hoje existirão muitos mais.

A chuva, essa convidada indesejada, tardou mas fez questão de marcar presença… às duas horas da manhã, estavam os Jaguar Ma no palco com a amiga conterrânea e convidada de ocasião Stella Mozgawa, a baterista australiana das Warpaint.

O primeiro dia deu “Nos”, mas também criou laços.

Texto: João Fernando Arezes

Fotos: Diogo Baptista

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