Fotos: Diogo Baptista / Global News
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A maratona musical chegou ao fim, os patos, os cisnes e o restante ‘fungagá’ que tem o Parque da Cidade como habitat, vai finalmente poder dormir descansado. O dia de ontem fica marcado por mais um fascículo de concertos de muito bom nível a encerrar a edição do Nos Primavera Sound, a terceira a marcar o panorama dos principais festivais em terras lusitanas.
E a noite foi sobretudo do líder Matt Berninger e da sua brigada musical proveniente do Ohio. Todavia, para além dos The National, houve ainda um pódio especial, assim nesse estrado olímpico da noite figuraram os Neutral Milk Hotel, John Grant, St. Vincent, Charles Bradley, Speedy Ortiz e também a conversão do espaço em mega discoteca cujos responsáveis pelo feito foram uns ‘incendiários’ !!! (Chk,Chk, Chk).

A tarde começou com os Refree no palco Super Bock, logo secundados pelos You Can’t Win Charlie Brown no palco Nos, e que constituíram as ‘lebres’ de serviço para o derradeiro dia do festival. Os últimos em muito boa forma e sempre na senda da afirmação e reconhecimento, já tinham estado em bom plano este ano na edição do Festival para Gente Sentada, em Santa Maria da Feira. Uma das figuras incontornáveis dos Sonic Youth, Lee Ranaldo, apresentou-se no Parque da Cidade com o estatuto de repetente e trouxe os acompanhantes The Dust, uma prestação serena e competente em que não levantou poeira, nem este é um festival de diapasão próprio para Ivete Sangalo! Certo é que também não é de Laura Braningan, mas o que não faltou foi a gente no recinto em registo de you take my self…ie control!

Os Neutral Milk Hotel de Jeff Mangum (que belíssimo concerto deu no final da primeira edição do Primavera Sound na Casa da Música) assemelham-se ao que o nosso imaginário sugerido pela estética da trupe poderia denominar por uma banda de duendes. Multi-instrumentistas em ação celebrativa, iniciaram a presença em palco com uma exigência que nos nossos dias seria digna de um amish: nem fotografias por parte dos repórteres (como é lógico o público tirou as que quis), nem filmagens para exibição em direto nos ecrãs. À parte as exigências, a prestação da banda foi tributária dos maiores elogios, que de resto foram inteiramente merecidos.

Se as nuvens deixassem desvendar o ocaso, teria sido épico escutar Jeff Mangum naquele tom melancólico, quase em jeito de profecia melódica, a iniciar a prestação dos músicos cantando “Two Headed Boy”. Há um serrote, uma concertina, teclados, guitarras e bateria e metais tocados ‘à boca de cena’, e portanto, numa relação de grande proximidade com o público. No meio de uma aparência felliniana da fauna que se apresenta em palco há um sósia de Hermeto Pascoal.

A memória auditiva foi capaz de fixar “Angel Eyes”, “Everything Is” e, como não podia deixar de ser, a emblemática “In the Aeroplane Over the Sea”. Para nosso gáudio o Mississípi veio desaguar na frente marítima do Porto, ali junto a Matosinhos.

A ‘síndroma da bola de tênis’, apanágio dos peregrinos melómanos do festival, faz com que uma vez mais a multidão passe em larga medida e fluxo para o palco da esquerda, mais conhecido por ‘Super Bock’, onde John Grant se apresenta com uma banda cuja composição contempla bateria, guitarra, teclas e sintetizadores. Com a sensação de uma falsa partida para o tema “Vietnam”, o músico toma o pulso a um público que se mostrou fiel com “Marz”, tema incontornável do seminal Queen of Denmark, que a conceituada revista Mojo considerou ser o álbum do ano em 2010.

“Greatest Mother Fucker” e “Black Belt” que, tal como “Vietnam”, são temas que figuram em Pale Green Ghosts, o registo em que o músico natural do Colorado se tenta reinventar através uma incursão no domínio dos sons mais afetos à eletrónica, e que o público acolhe num balanço dançante assinalável. “Where Dreams Go to Die”, que o cantor faz questão de sublinhar que “não se trata de um tema sobre o Porto”, é das mais conseguidas e o mesmo sucede com o tema homónimo do primeiro álbum, o já referido “Queen of Denmark”. A esfinge azulada de Grant desaparece entre fartos aplausos.

American indie rock band The National performs live at NOS Primavera Sound

E o momento em que todas as ansiedades estão ao rubro chegou “com toda a gente” à espera dos The National, que apareceram à hora marcada. Sim, sabemos que foi criminoso perder um brilhante Charles Bradley, mas averiguar até que ponto uma das bandas do momento seria tão competente num espaço amplo como o do Parque da Cidade quanto o tinha sido no imbatível concerto do Coliseu do Porto, num maio de excelente memória de há três anos atrás, acabou mesmo por pesar na balança.

E à quarta experiência de ver ao vivo os The National (Paredes de Coura de Coura em 2005, Guimarães em 2008 e Coliseu do Porto em 2011) tem-se a real sensação de crescimento do grupo de músicos quase desconhecidos que se apresentou no Alto Minho em 2005, no ano das melhores recordações que trouxemos na mochila da memória.

Regressados ao “Nos” depois desta cogitação, “Don’t Swallow the Cap” inaugurou o menu de repertório, sem escapar às estridências do público. Imagens com motivos psicadélicos de diversas tonalidades vão desfilando no cenário de fundo, com Matt Berninger ao centro e os manos Dessner, Aaron e Bryce um de cada lado, mas não muito distantes da vanguarda do palco. Segue-se “I Should Live in Salt” e logo depois a icónica “Mistaken for Strangers”, do celebrado Boxer (2007). “Sorrow”, que integra High Violet (2010), foi um dos momentos da noite e ocorreu com a colaboração da convidada de circunstância Annie Clark, mais conhecida por St Vincent e que iríamos ver logo após os The National.

O tema “Bloodbuzz Ohio”(High Violet) solta-se ilustrado com bolas de fogo abstratas em explosões sucessivas no ecrã, numa compatibilidade imagética e musical assinalável. E em “Sea of Love” há esguichos de luzes que se desprendem da base do quadro cénico e contrastam com um verde suave espalhado pelo ecrã enquanto as palmas da audiência acompanham sincopadamente a música. Na sequência fluem “Hard to Find” e “Afraid of Everyone” (High Violet), nesta última sente-se todo um pulsar harmónico, com os metais a darem o ar da sua graça lá atrás, tão modestos quanto imprescindíveis na sonoridade da banda.

Com o concerto a meio, Matt já vociferou e atirou latas e copos de cerveja para o palco e para o público e há um ou outro suporte do microfone que regista danos, mas ele lá continua perene de presença em palco a liderar os demais. “Conversation 16” (High Violet) revela uma vez mais a capacidade de percutir de Bryan Devendorf, o baterista do outro par de manos do grupo (as imagens de “Squalor Victoria” hão de fazer uma justa homenagem à figura de Bryan). O irmão Scott continua a domar em grande estilo as cordas do baixo. Grandes planos de pernas e sapatos de um homem secundam a música, até às imagens de um mergulho profundo.

American indie rock band The National performs live at NOS Primavera Sound

“I Need My Girl” e “This Is the Last Time” ambas do derradeiro registo Trouble Wil Find Me (2013) são das mais melodiosas. E surgem logo em seguida em “Ada” (Boxer), uma surpresa, e “Abel” (Alligator) e as guitarras que bem poderiam ostentar a marca ‘Dessner’, fazem soar aqui a sua presença através da companhia Aaron & Bryce, e uma vez mais com a excelsa companhia dos metais (quando não estão com esses instrumentos, os intérpretes estão nos teclados).

“England”(High Violet) foi um assombro, com toda aquela matéria que se precipita nos ecrãs de forma contínua, “parece chuva, mas chuva não foi certamente”, poderia dizer-se. “Graceless” (Trouble Will Find Me) e a imperativa “Fake Empire” (Boxer) já prenunciam o final.

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Em “Mr. November” e “Terrible Love” Matt Berninguer foi-se a banhos… de multidão, um número que tardava em materializar-se, mas que acabou por acontecer. Com alguns hiatos de silêncio por parte do vocalista face à mole de gente tão ávida em tocar no amuleto humano, que acabou por interromper o canto ao vocalista. Regressou para o cair do pano acústico e quase à capela com “Vanderlyle Crybaby Geeks” (High Violet), que acabou por não resultar de todo face à interferência bem audível dos outros palcos.

Constituiu sem dúvida um momento muito alto do Nos Primavera Sound, isto se perdoarmos alguns lapsos, designadamente o do falhanço de voz nas entradas de Matt Berninger por duas vezes e alguma saturação notória que as longas digressões sempre provocam: tendemos a atribuir aos músicos as virtudes das máquinas. O concerto de maio de 2011 no Coliseu do Porto continua imbatível.

The American singer St. Vincente performs live at NOS Primavera Sound 2014

St. Vincent conseguiu ser mobilizadora de uma parcela dos presentes que de armas e bagagens se mudou do palco Nos para o Super Bock. Dirigiu-se ao público e começou por dizer: “Acho que temos um conjunto de coisas em comum, algumas pelo menos, como por exemplo, adoramos os The National!”. Cabelo pintado de louro, lenço vermelho a contrastar num bolero preto, minissaia e meia-calça escuras eis uma diva ainda jovem que quando toca guitarra e amansa a voz entra em tomada de pose, como se tivesse sempre um estúdio fotográfico por trás.

The American singer St. Vincente performs live at NOS Primavera Sound 2014

Um par de teclistas e um baterista integram a banda suporte e é com eles que, virtuosa no dedilhar das cordas da guitarra, avança para um concerto em que ficam tracejadas “Cruel” e “Marrow”, do registo discográfico “Actor”(2009), bem como “Digital Witness” e “Bring Me Your Loves” do derradeiro álbum “St. Vincent” (2014).

American band CHK - !!! performs live at NOS Primavera Sound 2014

Quando o fulgor desta edição do festival parecia estar a esfumar-se, eis que chega Nick Offer a fazer jus ao nome e a oferecer ao público que se encontrava no recinto a possibilidade de desfrutar de uma mega discoteca. Em conjunto com os seus comparsas de atividade festiva, os !!!, adotando um estilo meio jaggeriano (seria interessante ver o líder dos Stones ao lado dele) e com laivos da elegância trôpega própria de um Jarvis Cocker, Nick contagiou a multidão e levou-a para onde quis. O performer, dançarino e atleta gingou o(s) corpo(s) ao som da banda.

American band CHK - !!! performs live at NOS Primavera Sound 2014

Fechado o programa nos palcos principais, as atenções viraram-se para o palco ATP, onde atuava o americano “Ty Segall” com a sua banda, transportando o garage e punk rock para a dimensão astral em grande estilo e ritmo alucinante, debaixo do céu estrelado da Invicta.

Perto das 3 da manhã chegava a vez dos Cloud Nothings, num palco Pirchfork bem composto para sentir a ressonância metálica da dupla de guitarras e bateria do grupo de Cleveland, com o momento cimeiro do espetáculo a ter lugar quando interpretaram o hit “I’m not Part of Me”, já em jeito de despedida do festival.

À laia de balanço, uma edição cuja chuva não passou de uma permanente ameaça nociva para o festival, mas que todavia não se concretizou. A música celebrada pelo público oriundo de mais de 40 países ofereceu concertos marcantes, designadamente Slowdive, Haim, Kendrick Lamar, Warpaint, Pixies, Mogwai, Charles Bradley, Neutral Milk Hotel, John Grant, St. Vincent, Loop, !!! e Ty Segall, entre outros.

O design das infraestruturas é, para além da compatibilidade do respeito da assinatura para com o local e ambiente onde estas se inserem, de um apuro estético a saudar: o pórtico de entrada e a tenda Vip constituíram exemplos disso. A praça da alimentação ofereceu uma diversidade de menus a preços mais ou menos comportáveis, com a possibilidade da opção para os vegetarianos. Foi agradável utilizar casas de banho que eram continuamente limpas (tirando alguns utilizadores que no último dia ajudaram a entupir algumas).

A vigência de um espírito de quem gosta da música pela música, que se traduz numa atitude civilizada por parte de quem usufrui dos sons e do espaço são notórias e espera-se que permaneçam. O único senão são as perdas nas opções musicais sempre dilemáticas que cada um toma no ‘festival puzzle’. Para quem fez parte dos 70.000, vai apetecer regressar no próximo ano.

American indie rock band The National performs live at NOS Primavera Sound

Texto: João Fernando Arezes

Fotos: Diogo Baptista

PS: No final comentava-se o facto de em 2005, ano de ouro em Paredes de Coura, onde os !!! conviveram com nomes como Arcade Fire, Pixies, Foo Fighters, Queens of The Stone Age, Kaiser Chiefs, ainda haja muita gente que nunca mais se esqueceu deles!!!

 

 

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