Fotos: Diogo Baptista / Global News
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Sob o segundo dia pairavam duas ameaças: a chuva certa e um novo episódio memorável do Nos Primavera Sound. Felizmente, os deuses permitiram que só a segunda se concretizasse. E de que forma! Para tal contribuiu seguramente a banda que teve honras de abertura, os portuenses HHY & The Macumbas, que evocaram os deuses com as suas combinações de percussões-ossos, eletrónica e máscaras, em jeito de ritual.

TORTO performs live at NOS Primavera Sound 2014

Enquanto os experimentalistas “Vision Fortune” abriam as hostilidades no palco ATP, com o minimalismo da eletrónica drone a ecoar lá no alto, começavam a primeira sessão do dia de música instrumental, com os “Torto”, também eles a jogarem em casa, uma vez que são da Invicta. Puras guitarradas que ‘a torto e a direito’ “acordaram” o público para o que aí vinha.

The american folk rock band Midlake performs live at NOS Primavera Sound 2014

Com os lagos do Parque da Cidade ali ao lado, os texanos “Midlake” presentearam os portugueses com o seu indie folk, com laivos de rock melodioso, surpreendendo ainda com o português fluente do seu teclista – casado com uma portuguesa, segundo revelaram.

E se as Haim constituíram um verdadeiro fenómeno do festival, as Warpaint são daquelas bandas que com frequência nos visitam (estiveram em Paredes de Coura, no Optimus Alive e mais recentemente na Aula Magna) e são sempre portadoras de boa bagagem musical alicerçada numa mescla de estilos que as torna pouco catalogáveis. Foi um dos concertos dignos de registo a decorrerem no dia de ontem. “Undertow”, do álbum Fool, de 2010, foi tocado a preceito, a revelar uma maturidade crescente das ‘moças das pinturas de guerra’, que transfiguram um pouco as versões dos temas sempre que as ouvimos em locais e datas diferentes.

Em “Love is to Die” somos segredados por um bom gosto de estética musical, num tom sussurrante inicial, com a voz de Theresa Wayman a fazer tração às vocalizações da guitarrista Emily Kokal e da baixista Jenny Lee, enquanto Stella Mozgawa continuava impávida e serena nos seus batimentos compassados a marcar o ritmo percutido na bateria. Ouve-se mais adiante “Ashes to Ashes”, um dos originais mais conhecidos da carreira de David Bowie, que as californianas versam melodicamente em jeito de ‘com… versão’ warpaintiana, numa lógica experimental, algo psicadélica, a parecer que saem do tema para fora sem dele escaparem e que, pelo que se percebeu, foi do agrado dos circunstantes. Quase sem transição, sem sequência, traçam uma secante e escuta-se “Bees”, tema que prossegue em toada delirante até ao final. As visitas a Portugal prometem continuar a ser frequentes.

É um festival com contributo dietético o Nos Primavera Sound, não é para gente instalada. Força o conceito de itinerância saltitante. E assim, depois do palco Nos passa-se com facilidade para o palco Super Bock, para ver os veteranos Slowdive, que diga-se de passagem concederam uma das melhores prestações que vimos nesta edição do festival.

Os britânicos e o seu potente shoegaze deixaram como legado do concerto aos presentes uma positiva mossa auditiva e percorreram o acervo musical desde a primacial aventura em formato EP (e homónimo da banda) Slowdive, de 1990, até Alison, o derradeiro álbum, gravado em 1994. Uma jornada imparável de viagens em que se tira bilhete nas guitarras e segue-se numa viagem ao desconhecido. Tudo isto, enquanto os australianos Pond vão suscitando uma curiosidade simultânea no palco ATP.

The American Pixies performs live at NOS Primavera Sound 2014

Um céu plúmbeo e ameaçador abate-se por sobre as gentes que expectantes queimam cigarros e conversas até ao momento da entrada em palco (Nos) daqueles que marcaram, pelo menos, uma geração. Mas há uma outra que por herança familiar já os conhece e teve vontade de os ver ao vivo pela primeira vez: e os Pixies são isso mesmo, uma daquelas bandas raras que promovem o encontro de gerações.

Deve dizer-se que a banda liderada por Black Francis esteve em muito bom nível e é óbvio que mesmo com grandes expetativas, ninguém poderia esperar que tivessem uma prestação sequer comparável ao concerto que este vosso humilde escriva viu há em 1991, num Coliseu do Porto a rebentar pelas costuras, num espartilho de gente que ameaçou deitar a velhinha casa da Rua de Passos Manuel abaixo!

E não foi com grande atraso que os de Boston se apresentaram em palco, tendo como cenário um conjunto de painéis que com a incidência das luzes traduziam visões caleidoscópicas de belo efeito. “U-Mass” abriu as hostilidades, “Where is my Mind” foi das que mais ficou no ouvido e das mais trauteadas pelo público, tal como “Hey” e claro “Here Comes Your Man”, “Debaser” e “Monkey Gone to Heaven”. É certo que o fulgor de outrora vai-se despedindo, isso é notório sobretudo na apresentação das canções do novo álbum, mas os Pixies podem regatear um lugar na história do rock alternativo como muitos poucos poderão fazê-lo. E isso, como sabemos, não é nada despiciendo.

O momento ‘solene’ em “Vamos”, no qual e Joey Santiago recebe um pequeno ramo de flores do público e acaba a esfregá-las na guitarra é um instante bizarro para a memória futura do acontecimento.

Scottish post-rock band Mogway performs live at NOS Primavera Sound

Uma saltada para ver os Loop ao palco ATP revelou uma banda firme e sónica, pelo menos em quatro temas escutados, pois tornava-se imperativa mais uma estação do ‘festival Puzzle’, vulgo Nos Primavera Sound, em que o desafio é tentar encaixar a diversidade das peças, numa espécie de geocaching musical. Como não possuímos o dom da ubiquidade, se do muito já vimos bastante, outro tanto ficará por falar. Mas os escoceses Mogwai constituem um imperativo, daí que, malgrado o frio persistente, fizéssemos uso de um pequeno estoicismo ocasional para os ‘ouvermos’.

E se no ano passado os Explosions in the Sky regatearm o pódio, os Mogwai, parentes da mesma linhagem musical, não o fizeram por menos. E até o céu se livrou de muitas das nuvens-testemunha do festival quando os de Glasgow subiram ao estrado. Ouvi-los, mesmo em horário tardio, converte-se numa viagem deleitosa, parece que se tira um bilhete para uma espécie de expedição astral e as cadeiras abstratas em que nos sentamos são na essência sons provenientes de teclados, sintetizadores e guitarras. E não, juramos mesmo que não embarcamos nesta agência de viagens que dá pelo nome de “Psicotrópicos”, embora tenhamos visto alguns a embarcar nela.

“Remurdered” e “Master Card” mostram a diversidade de género da cartilha post-rock em que se enovelam os temas dos Mogwai, mas fica claro que é em músicas como “Hunted by a Freak”, mesmo que ouvida 100 vezes, que o virtuosismo é tangível. Despedem-se ao fim de uma hora com um informal bilingue: “obrigado” e “thank you”. Ficamos à espera de um “hello!” proferido com a maior brevidade possível.

Shellac (palco ATP), Todd Terje e Bicep (palco Pitchfork) fizeram cair o pano num dia talhado para generosidades divinas: do Céu não veio chuva, na Terra ‘apanhou-se música’ e da boa, por sinal.

Texto: João Fernando Arezes

Fotos: Diogo Baptista

 

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