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O homem de cabelo à cauda de cometa regressou ao Porto. Egberto Gismonti, que muitos recordavam, no final do espetáculo da Casa da Música, de passagens anteriores memoráveis pelo Coliseu, ou pelo Teatro Carlos Alberto num célebre PONTI em 1997 ou no mítico concerto do Rivoli, em 1980, na primeira das apresentações do músico em terras lusitanas, a cargo da Mundo da Canção. Em todas elas, o músico brasileiro deixou pergaminhos. A verdade é que aos 66 anos de idade (completa 67 em dezembro próximo) Gismonti está como o Vinho do Porto, ou quiçá, e talvez mais em conformidade, como uma caipirinha gelada em tempo de Estio.

Foi com uma sala à pinha, embora tenha começado com umas escassas clareiras deixadas pelos mais proverbiais retardatários, que vestido de negro e de barrete vermelho, o músico arrancou os primeiros aplausos. “Alegrinho/Saudações”, um binómio musical quase fundido, constituiu a primeira das demonstrações de virtuosismo na típica guitarra de dez cordas. “Mestiço e Caboclo” dão sequência tonal e cria-se uma atmosfera melódica preenchida pela miscigenação tão típica do Brasil. E, como se isso não bastasse, ele próprio encarna essa condição de soma étnica, ou não fosse Gismonti uma criação resultante da fusão entre uma siciliana e um libanês.

Nas sonoridades percorridas distinguem-se estilos diferenciados que, embora partindo de uma matriz iminentemente jazzística, se ramificam e tornam percetível, mesmo a um ouvido menos atento, incursões pelo samba, pelo frevo, pelo choro ou pelo forró. De guitarra quase em riste, revela-se melodioso, mas a espaços há um trinar intenso e magoado de tão belo. Expele uma técnica  impressiva e no afagar das cordas parece acariciar por antecipação as teclas, para as quais mudará na segunda parte do espetáculo.

De “Águas Luminosas” a “Salvador” há um continente musical percorrido, do tamanho do Brasil. Neste último tema há um sabor a homenagem ao amigo e fonte inspiração, Baden Powell. E até pequenos laivos de algo parecido com flamenco encontramos onde menos esperaríamos.

“Selva Amazónica” transporta-nos para algo exótico e remoto. E funciona como espelho de virtuosismo do artista, como prova de que todas as insondáveis potencialidades do instrumento foram exploradas. E nesta viagem, para a qual Gismonti nos convida e conduz, tanto se está numa montanha a desfrutar da visão da quietude de uma planície lá em baixo, como somos assolados por uma tempestade. Heitor-Villa Lobos foi também um passageiro omnipresente desta jornada, uma expedição musical tributária da natureza simbólica da Amazónia.

E a primeira metade é rematada com o tema em que o intérprete percute o corpo da guitarra com uma a mão e toca as cordas com a outra: “Dança dos Escravos”. Se impressionante é ver, mais impressionante foi sentir.

Da guitarra para as teclas, foram dois passos apenas, sendo que nas “10 cordas” Egberto já tinha arrancado algumas notas de piano que soaram bem notórias. Aliás, segundo o músico: “A guitarra de 10 cordas é uma guitarra desenhada para quem toca piano”.

E é com uma peça transbordante de melodia, bem ao jeito de um choro, que se verifica o início da segunda parte. “Sete Anéis” consagra a homenagem à célebre pianista pernambucana Tia Amélia, uma compositora muito dedicada ao choro. As teclas são calcorreadas de lés-a-lés e se um agitar de anca parece ousado, um aceno de cabeça parece ser generalizado.

A expressão dessa mescla de origens que torna o reportório musical de Gismonti um autêntico “Cosmos Musical de Géneros”, que vai do choro às origens portuguesas, convoca África e namora as raízes índias, relevando de igual modo a música nordestina, contribuiu para o tornar pouco catalogável. Algo que se percebe, por exemplo, em “Maracatú”, “Frevo” e “Forrobodó”, tudo temas executados a preceito na segunda metade do espetáculo.

Tão versátil ao piano como na guitarra, conseguiu momentos de verdadeira magia nos teclados e um deles terá sido com “Infância”, um virar de páginas feito com um virar de notas num regresso ao passado.

E foi com um dos clássicos que se deu o momento zénite da noite. Em “Palhaço”, o músico visivelmente bem-disposto, deslocou-se a outro microfone, e falou de pé, para dizer “depois de muitos concertos, por muitos locais, sinto-me em casa e isso só depende de vocês…”, sim, de nós público, que o fizemos sentir no seu próprio lar. E narrou com humor uma história associada à música em questão: certo dia, a sua mãe e uma tia que viviam na pequena povoação rural do Carmo, onde ele nasceu, no Estado do Rio de Janeiro, foram vê-lo atuar ao “Circo Voador”, situado em pleno coração da urbe carioca. No local, naturalmente muito frequentado por diversos artistas que à época davam asas à bebida e a demais excessos, todos conheciam o tema e não tardaram a reclamá-lo de forma sonora: “Palhaço! Palhaço! Palhaço!” Escusado será dizer que as diletas familiares de Gismonti não perceberam a reivindicação e acusaram aquela gente de ser muito mal-educada!

“Água e Vinho”, que preencheu o solicitado encore, foi composta para a irmã do poeta, letrista e guionista Geraldo Carneiro, parceiro artístico de Egberto em várias composições, e fechou com “chave d’ouro” uma atuação ímpar do multi-instrumentista brasileiro. O homem de cabelo à cauda de cometa passou por aqui, mas não conseguiu levar a memória com que ficamos dele.

Texto: João Fernando Arezes

Fotografias: João Messias/Casa da Música

 

 

 

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