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Sexta-feira, 29 de março. Tribeca a rebentar pelas costuras. O motivo da enchente: ‘ouver’ Eleanor Dubinsky, a cantora norte-americana cujas origens estão em St. Louis, no Missouri, a residir atualmente em Nova Iorque, e que se deslocou a Portugal para uma minidigressão em terras lusitanas.

São 23h00. A artista passeia-se pelo espaço do jazz-club e exala simpatia, conversa aqui e ali com alguns circunstantes e uns 10 minutos depois apresenta-se em palco, elegante e distinta, mas sóbria quanto baste, apesar de ser portadora de uma blusa cinzenta preenchida de lantejoulas a que ela juntou umas calças pretas a contrastar com um cabelo que é bem mais alourado do que castanho. Um colar compõe-lhe o pescoço fino.

E é com uma espécie de boas vindas em tom melodioso, acompanhada para o efeito de um punhado de músicos portugueses que ocupam a bateria, o baixo e a guitarra, que Eleanor Dubinsky entra, pela primeira vez, em toada harmoniosa, nos ouvidos dos presentes com “Lullabye”.

O público brinda-a com uma salva de palmas que parecem indiciar, desde logo, alguma empatia. A cantautora vai encarregar-se de a conquistar na totalidade ao longo do espetáculo.

“Shelter” entra no mesmo registo, com o baixo de João Paulo Rosado a arriscar um pouco mais de volume e a bateria a cargo de Márcio Pinto a fazer-se ouvir com outra intensidade. A guitarra de Bruno Ferreira começa a soltar os primeiros solos comprovativos de uma atuação virtuosa. A voz de Eleanor parece agora mais firme, quando de guitarra em punho arranha com doçura as cordas.

“Cuando Voy a Mi Trabajo Pienso en Ti” desfila como um exercício de intervenção melodioso, um tema inspirado no cântico original do mítico cantor chileno Víctor Jara. Aqui a cantora poliglota insinua-se num trio de idiomas que contempla o castelhano, o francês e o inglês. E a canção evoca todos os que emigram para com amplo sacrifício conseguirem dar melhores condições de vida àqueles que amam e que por isso são forçados a deixar o país de origem sem se esquecerem dele e dos seus entes queridos. Nada atual, como se percebe.

Momento ‘Portugal (is) Fashion’: o trio de músicos que acompanham Eleanor vão a pouco e pouco mostrando as suas credenciais, mas nem só de competência musical se pode falar: Bruno e João Paulo vão marcando um certo estilo de estética e parecem ter visitado o Museu de Chapelaria durante a tarde, isto só para rivalizarem com a elegância de Eleanor.

À quarta música a sala está já em clima muito recetivo e a compositora introduz um tema que apela à valentia e à solidariedade para com as vítimas dos furacões nos EUA. “The Wind Won’t Knock it Down” é uma bandeira musical em homenagem aos que lutam contra essas adversidades e constituiu uma mensagem de esperança para as vítimas recuperarem o seu quotidiano normal.

E o tema que se seguiu remete para algo que encantou os apreciadores de Charlie Haden e Pat Metheny (natural do Missouri). No caso da colaboração entre os dois músicos o álbum assumiu a designação de “Beyond the Missouri Sky”. Eleanor Dubinsky criou uma canção apenas com as duas últimas palavras que remete para evocação às origens da cantora. Larga temporariamente a guitarra e estreia-se no Tribeca com um instrumento que lhe é também familiar: a sonoridade do violoncelo irrompe pela sala e há qualquer coisa que soa a jornada, a uma longa viagem. Se o céu do Missouri (ou na essência as suas paisagens e gentes) for como a estética da canção, estamos certos que merecerá bem a pena ir conhecê-lo.

A versatilidade de estilos patente no repertório da artista é assinalável, pode muito bem ir do jazz à bossa nova, passando pelo folk e pelo pop-rock, ou pela denominada world music, mas em “Como Los Viejos” parece que estamos em Havana. Fala-se de um casal novo que dança numa festa/baile e perceciona a sua união olhando para um casal mais velho numa projeção do seu futuro.

Em “Strong Enough” Eleanor alude a Sheryl Crow, também ela ‘missouriana’. O diálogo instrumental é assinalável e, uma vez mais, o arrojo de um solo de Bruno Ferreira se destaca. “Angel From Montgomery”, um clássico de Bonnie Raitt, sucede-se no alinhamento. No entretanto, um saboroso e intenso cheiro a café parece entrecortar o ambiente e demandar um intervalo.

A segunda parte revelou-se mais curta, “Any Kind of Weather” começa por insinuar-se como bossa nova, mas mais à frente soa jazzy. A voz algo cálida de Eleanor ganha lastro e projeta-se mais volumosa, talvez mais aqui do que noutros temas. “Wait For You” está eivada de romantismo e é cantada quase à capela, apenas com uma guitarra dócil, apela à paciência de se saber esperar pela pessoa certa e aos momentos em que cada um tem o vislumbre adequado para apostar numa relação.

Cheira a final do concerto, mas ainda houve tempo para ouvir “Too Much”, uma daquelas canções em que se abana a cabeça ou a anca, com a cantora a pedir a colaboração da audiência para um canto coletivo. Prosseguiu com “Jeu de Deux”, uma canção emblemática do álbum “Touch the Sky”, editado em 2011, em que a voz doce de Eleanor nos enleia através de um francês fluente (com umas interjeições em inglês), afinal a língua dos fundadores da sua St. Louis natal.

Com a introspetiva “Estoy Sola”, cantada em castelhano, como o título sugere, apesar da quietude melódica do tema há algo a soar a bossa nova, samba e outros ritmos latino-americanos. O público, visivelmente agradado, sugere um encore sob a forma de palmas, assobios e gritos e Eleanor e os músicos Márcio Pinto, Bruno Ferreira e João Paulo Rosado, que tão boa conta deram de si, regressam para finalizar o serão com “Listen To The Music”, afinal uma epifania mais do que justificada em homenagem à música.

Depois da atuação no Porto, Eleanor Dubinsky deu um concerto em Olhão, apresentou-se no Museu da Música em Lisboa e estará hoje, sábado, 5 de abril, no Ostradamus em Coimbra. É que a próxima paixão que se lhe adivinha serão as mornas e as coladeiras (de 7 a 10 de abril estará em Cabo Verde).

Em jeito de balanço, fica a ideia de que cantora que se apaixonou por Portugal nas férias que por aqui passou ano transato, que tocou com Luísa Sobral nos EUA, e é apreciadora de Sara Tavares, que viu num espetáculo em Nova Iorque, está em fase de abraçar o mundo e sorver o máximo de cultura musical. Quando o seu trilho harmónico entrar em processo de síntese, ela vai demonstrá-lo em disco e nos palcos. E nós vamos querer ouvi-la (de novo).

Texto: João Fernando Arezes

Fotos: Lauren Maganete

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