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É quarta-feira. São 21h00. Há um feixe de luzes esbatido no estampado negro de uma espécie de ciclorama e que pode descrever-se como sendo uma árvore, com ramos e galhos entrecruzados, um pinheiro talvez. Há um espelho, uma mesa, uma cadeira e um arranjo de flores numa jarra. Há uma plateia heterogénea, de idade transversal, ainda que com uma prevalência ligeira para a meia-idade. Nota-se, ainda que não em demasia, a presença de algum público do segmento ‘visons & naftalinas’. A sala está à pinha e expectante. Num décor povoado da cor do fado, os músicos entram em palco com um suave e proverbial atraso português aí de uns dez minutos.

O preâmbulo faz-se em tons de guitarrada, em regime de trio: Ricardo Parreira na guitarra portuguesa, Francisco Gaspar no baixo e Nelson Aleixo à viola. Logo depois, incarnada num Anjo Branco, entra Gisela João, de vestido curto alvo a contrastar com uns sapatos pretos de salto alto. Saúda o público e logo ali arrisca “Madrugada Sem Sono”, de Goulart Nogueira e Raúl Ferrão. O som sai límpido. Uma entrada expressiva, esta do Anjo Branco. O feixe de luzes desenhou-lhe umas asas para completar o quadro. Pequena no porte, gigante na voz, pressente-se desde o início. O disco possuidor do título com o nome da artista, e que muito tem dado que falar, haveria de ser percorrido de lés-a-lés, no âmbito do ciclo “Há Fado no Cais”.

De forma consecutiva ao primeiro troar de palmas, ainda tímido, por parte do público, a cantora confere a sua impressão de identidade vocal a “Vieste do Fim do Mundo”, de João Lóio, compositor e músico portuense, que Gisela faz questão de evocar. À toada quente e rouca da voz, junta-se a mestria de Parreira na guitarra portuguesa que soa como um fundo trinado e ondulante.

Logo a seguir no alinhamento, o tema que muitas vezes a faz chorar, como confessa. “O Meu Amigo Está Longe”, dos incontornáveis Ary dos Santos e Alain Oulman, e aqui deixa positivamente mossa no público, na verdade muitos conhecem-na à custa desta versão, onde se reconhece um rasgo na voz que se intensifica com a emoção do canto. Um fulgor interpretativo a casar com a beleza daquele dedilhar de cordas que a acompanha.

“Em Fado Corrido”, plena de graciosidade e no seu típico jeito gaiteiro, meia Sandie Shaw meia Gabriela Cravo e Canela, comete uma ousadia habitual, a de se despojar do calçado (Paulo Bragança e Andrew Bird fazem parte desta trupe). E saltitante, atravessa o estrado ao ritmo da música. Em tom aparentemente narcísico, “Voltaste” começa com Gisela a cantar defronte ao espelho, e de costas virada para o público, e a lembrar no final que este fado foi imortalizado por uma fadista do Porto, Beatriz da Conceição.

“Sei Finalmente”, a composição cuja autoria pertence a Linhares Barbosa e a Armandinho, afirma ainda mais o papel do naipe dos músicos que a acompanham: Parreira, Gaspar e Aleixo correm afinados e aqui isso torna-se mais percetível aos ouvidos. “Canto de Rua”, de um imenso Carlos Paredes, permite um curto período de descanso a Gisela João. A versão do ‘trio’ deixa o público nas ‘cordas’. O regresso ao palco faz-se com “Alvito”…sinónimo de “Primavera”. Logo a seguir, e de novo descalça, dá-se a positiva metamorfose da letra da icónica e popular “Casa da Mariquinhas”, pela mão de Capicua, presente na ausência, a versão resulta refrescante e atual aos ouvidos do público, Gisela agita-se e incita a audiência a dançar até à última letra.

É sentada, e pouco depois ajoelhada, que canta: “Sou tua, como o luar é da lua, como as pedras são da rua…”, o concerto já vai para lá da metade, permanece a emoção no canto mas o nervoso miudinho dissipou-se. A mole humana há muito que se deixou conquistar. A veia minhota de Gisela solta-se em seguida, quando o diapasão indica o “Malhão”, em boa verdade são ‘malhões & viras’ que a fazem dançar e agitam a sala, com a audiência de pé a acompanhar o tom com palmas sincopadas. Os feixes de luz projetam muito a preceito motivos telúricos no fundo negro do palco.

Há uma “Maldição” que se apodera com garra da Sala Suggia, os espectros de Amália e Marceneiro devem pairar por ali já há algum tempo. Existe um retomar de fôlego que é quase um silêncio-pausa, muito próprio dos sábios, Gisela é ainda um diamante em bruto, é bem verdade, mas a diferença é que aos 30 anos a fadista barcelense possui ela própria a ferramenta para o lapidar e que passa sobretudo por amadurecer o dom.

E para o fim, ficou reservada uma ousadia de Gisela João, a de cantar um fado iminentemente masculino, “Não Venhas Tarde”, eternizado por Carlos Ramos, uma deliciosa provocação a provar que ‘a miúda’ gosta de romper com os cânones estabelecidos, ainda para mais num meio conservador como é o do fado. E Gisela, percebe-se, está consciente que a sobrevivência do género musical depende em primeira instância da sua própria reinvenção e não do esclerosamento secular.

O público reclamou um encore e com ele a Casa da Música voltou a ser a da “Casa da Mariquinhas”, em toada quase rapsódica, irrompeu pelo “Bailarico Saloio” e fechou com chave d’ouro num regresso ao passado, com “Antigamente” em ritmo de fado corrido.

Uma ovação final tributou a artista e os músicos em sinal de reconhecimento explícito pelo desempenho operado. A fadista de ar gaiteiro vai crescendo a olhos vistos: de Barcelos para Porto, da Invicta para Lisboa, e da capital para o resto do mundo, tudo parece estar ao seu alcance, há gente que já confessou querer vê-la na Austrália e talvez valha a pena lembrar que Fado não tem portagem e Gisela João tem um passaporte chamado talento. Em Lisboa deve estar a dizer-se algo semelhante em relação à prestação no CCB.

Texto: João Fernando Arezes

Foto: Gentilmente cedida por Egídio Santos (reporta-se ao concerto de Gisela João na D’Bandada, nas ‘Virtudes’, no Porto/2013)

 

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