21h05 de domingo, a Sala 2 da Casa da Música está composta de gente expectante pela chegada ao palco de Anna von Hausswolff. A epifania está prestes a começar, pressente-se por um suave apagar de luzes.  Uma entrada cerimoniosa no seio da penumbra produz-se em fileira pelos 4 músicos e pela cantora natural de Gotemburgo, na Suécia. Há um som quase espectral a projectar-se no espaço, sai a jorros dos teclados premidos pela figura feminina cujo pequeno porte contrasta com um vozeirão surpreendente.

Entramos em modo voo, sem cadeiras ejectáveis. Se existissem assentos, nós, os espectadores, ficaríamos desde logo pregados a eles, quase se poderia dizer, siderados. Aquela ênfase tonal enleia quem a ouve, mesmo se o volume do conjunto instrumental ainda se encontra em fase de calibração sonora.

“The Truth, The Glow, The Fall”, do derradeiro álbum Dead Magic (2018) desencadeia a reacção supracitada e logo se cola à precedente numa acentuação das sensações provocadas com a música pioneira do concerto, isso acontece com “Pomperipossa”, registo afecto a The Miraculous, disco da artista datado de 2015. Ulrick Ording evidencia-se no trato da bateria, com uma batida marcante e compassada. O fundo musical é poderoso, para isso contribuem, para além do domador de pratos, Karl Vento na guitarra, Filip Leyman nos sintetizadores e Joel Fabiansson, também na guitarra, a que se juntou um baixo.

Embarcamos num universo vocal situado por aproximação entre uma Diamanda Galás e uma Lene Lovich a espe(a)lhar um canto assaz mais polido e cristalino que estas duas referências e, em tom de brincadeira, somamos-lhe o estatuto de um Rick Wakeman feminino com menor dose de rock progressivo. Ginga-se nos teclados, como que a comandar ‘o altar’ de uma nave, e de vez em quando sobressai daquela imersão no escuro e vislumbra-se-lhe o louro dos cabelos com duas pequenas tranças e um vestido em tons de tinto debruado a preto, que desemboca numa mini-saia.

As idiossincrasias nórdicas estão ali plasmadas desde o início, os paradoxos fundidos entre o tradicional e o vanguardismo, num diapasão sombrio e simultaneamente belo evocado pelo fundo sonoro instrumental e pela voz. E a espaços há arcos a roçar-se em cordas eléctricas, como em “Ugly and Vengeful”, também de Dead Magic, tema que afina pela intensidade melódica.

Os temas são extensos, preenchidos por uma densidade sonora e uma tensão dramática assinaláveis. Anna arrisca, aqui e ali, e com ousadia firme, uns vocalizos no meio de uma atmosfera que por vezes namora o tribal e noutros momentos sugere harmonia e leveza. “Källans återuppståndelse” (Dead Magic) é um momento de anestesia profunda em que o palco e o público estão mergulhados em tons de vermelho e púrpura e submersos pela atmosfera musical envolvente.

Um dos momentos a sublinhar, é verdade que isso era fácil de prever, foi aquele em que a cerimónia nos levou até “The Mysterious Vanishing of Electra”, uma das músicas-emblema de Dead Magic: com aquele ritmo soberano e compassado da bateria, os sintetizadores a entrarem em toada solene e ‘as cordas eléctricas’ a acompanharem a celebração encabeçada pela líder, que de guitarra acústica nas mãos e a voz a desembainhar um canto agudo e cortante, mais parece clamar por uma revolução.

Em “Come wander with me/Deliverance” solta-se algo de colectivamente visceral a partir do palco, a sensação de uma catarse que se liberta através da descarga instrumental e luminosa produz boa energia na audiência, que aplaude de forma efusiva o que acaba de ouvir.

Após uma hora e 20 minutos no estrado, Anna von Hausswolf deixa-nos a olhar para o espelho com um encore em que ecoou “The Mirror”: um embalo marcado pela planura instrumental (e que sincronismo, a esse nível, revelaram os músicos ao longo do concerto) e pela voz doce e cândida da cantora. Uma oferenda cantada no meio do público, que abriu alas para que pé-ante-pé a diva sueca passeasse o seu bel-canto, ou encanto, como a cada um lhe aprouver. Os que estiveram a ouvi-la não desdenharam deste outono.

O Global News agradece a gentileza da fotojornalista Helena Granjo pela cedência das fotos.

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