O perfume do teatro mexicano no FITEI sempre foi de largo espectro e de boa fragrância, o odor em palco deixou sempre um lastro cativante para os espectadores. Se recuarmos uns bons 40 anos, e vale a pena o exercício para nos fixarmos em 1978, data de realização da primeira edição do festival (a fundação do FITEI verifica-se no ano anterior), “Mimica Del Oprimido” (produção Nandyelli/Cleta) figura no portfólio como um dos espectáculos marcantes, nada mais, nada menos do que uma peça proveniente do país dos ‘sombreros’.

Tudo isto para dizer, em linguagem muito simples, que “Mendoza”, a obra que a companhia Los Colochos nos deu a conhecer ontem, quarta-feira, no palco do Teatro Nacional São João, no Porto, e que repete hoje no estrado do Teatro Municipal Sá de Miranda, em Viana do Castelo, é aquilo que se pode denominar por um Hino ao Teatro. Sem mais. Grandes interpretações, num teatro todo ele feito de um manancial expressivo e visceral, em que o surto de sugestões imagéticas suportado por soluções simples deixa o espectador com um álbum fotográfico mental para folhear na memória quando chegar a casa. Isto é verdadeiramente aquilo que designamos por ‘ir ao teatro’: trazer a alma cheia de coisas para reflectir, para lá da dimensão de entretenimento que a peça nos suscitou.

“Mendoza” é um objecto teatral cuja génese ocorreu em diversas etapas de um laboratório de criação cénica. A companhia experimentou e promoveu ensaios abertos de espectáculos em espaços ditos mais alternativos, e por conseguinte menos convencionais, como casas, pátios, praças e cantinas. Este conceito permitiu cativar novos públicos e lugares de ambiência diversificada onde as representações teriam lugar e públicos renovados com apetência emergente em fruir destes espectáculos.

A maldição de Macbeth paira no palco, numa adaptação à Revolução Mexicana de 1910: o espectro de Emiliano Zapata anda por ali, tal como o de Trotsky (assassinado no México em 1940), como muito bem sugeriu o espectador Artur Gonçalves na conversa pós-espectáculo.

créditos: Marianella Villa / La Casa AmarYya

Uma história de ambição e poder que redunda numa tragédia shakespeariana, como seria de prever. As premonições são constantes ao longo da peça. Os actores estão sentados na plateia entre os espectadores, em bancadas instaladas em pleno palco, e saltam para o estrado sempre que são convocados para entrarem em cena. Utilizam aqui a ali umas máscaras e distribuem cervejas de marca Corona pelo público ao longo da peça. Tudo acaba em alegre epifania com o público, após duas horas e 15 minutos, um tempo muito bem contabilizado e sobretudo muito bem passado com uma trupe de actores que economiza nos elementos/adereços cénicos e que prefere enfatizar nos recursos interpretativos a soberba prestação colectiva a que uns bons três ou quatro minutos ininterruptos de uma ovação de pé fizeram jus.

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