Jonathan Bree – Com calor, mas sem dor… no(s) Maus Hábitos

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Diogo Baptista / Global News

Maus Hábitos, 22h30 – uma sala apinhada de gente expectante acolhe o músico neozelandês e os demais elementos da banda. Goza-se um calor intenso desde há sensivelmente meia hora. Já aqui vimos múltiplos concertos cuja lotação permitiu uma fruição bem mais descontraída e com menor compressão da audiência, como foram os casos, entre múltiplos, da lituana Elizabete Balčus ou da conterrânea de Jonathan Bree, Nadia Reid. É certo que Jonathan Bree concita mais atenções e o território intimista e acolhedor da sala perde-se um bom bocado com tanta gente a ocupar o espaço há muito esgotado. Contudo, e em abono da verdade, até o suor cozido se tornou uma marca singular do concerto e acabou por ser demonstrativo do interesse que gravita em torno do artista e do que ele vai fazendo em termos de criatividade musical.

E é com “Sleepwalking”, tema que dá também título ao último álbum, que tudo começa: os músicos surgem artilhados com máscaras que os cobrem até ao pescoço, são portadores de perucas pretas, suspensórios e uns auscultadores. Jonathan Bree dispensa este último objecto, embora surja a afinar, no resto, pelo mesmo tom de indumentária do baixista e do baterista. As assistentes, cuja aparência podíamos descrever como modelos que se situam entre umas raparigas de traje de época vitoriana, com uns laivos de cabaré, e um ligeiro perfil de gueixas ocidentalizadas a ostentarem tranças debaixo de chapéus estilizados, agitam-se ginasticadas na pose. A recepção por parte do público é audivelmente positiva. Toda a gente no estrado tem luvas e máscaras. Zorro havia de se sentir bem instalado por ali.

Diogo Baptista / Global News

A massa compacta de gente é brindada em seguida com “Weird Hardcore”, de A Little Night Music (2015), a voz marcante de Jonathan percorre o espaço e afirma-se ainda melhor quando ele está na vanguarda, à boca de cena. “Say You Love Me Too” (Sleepwalking/2018) tem direito a canto em dueto com uma das bailarinas, exala-se um certo romantismo noir, que é de resto bastante apreciado pelos presentes. O baixo e a bateria soam afirmativos ao longo do espectáculo, há um ou outro instrumento, como é o caso do violino (bem como alguns coros e teclados), que está em registo pré-gravado, mas tudo parece funcionar em pleno em termos instrumentais, bem como com as vozes.

Ouve-se, pouco depois, “Boombox Serenade” (Sleepwalking/2018) e o canto soa a um lamento belo, polvilhado por luzes azuis e bailarinas no ecrã de fundo, pois as reais, e não as do filme, entretêm-se de forma expressiva, costas com costas, a ensaiar movimentos suaves com os braços. “Blur” (A Little Night Music/2015), um pouco mais adiante, após “Duckie’s Lament” (Primrose Path/2013) e a bem conhecida “Valentine” (Sleepwalking/2018), é bem mais ritmada. Jonathan entra a cantar pelo meio das ‘bailarinas-assistentes’ que gesticulam em jeito aveludado e com o corpo flectido na quase épica “Roller Disco” (Sleepwalking/2018). O som está bem calibrado e a voz do líder projecta-se naquele timbre possuidor de uma gravidade cativante.

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E o espectáculo progride com recurso à belíssima “There Is Sadness” (A Little Night Music/2015), um tema que, por paradoxo, provoca alegria a muita gente que a ouve. Uma das ‘damas de companhia’ arrisca a pegar no baixo enquanto ‘o dono do mesmo’ se dedica ‘a guitarrar’. Com “Laptop” (Primrose Path/2013) vamos até ao firmamento: cheio de pontinhos de luz astrais que se projectam no ciclorama, embora a cor dominante na sala passe a ser nesta altura um rosa bem avermelhado, de resto mais em conformidade com as reconhecidas tonalidades de Marte. “Cover Your Eyes” antecipa a mais emblemática de todas: “You’re So Cool”, do derradeiro álbum Sleepwalking, com toda a gente já rendida e por certo a questionar-se como é possível que alguém suporte estar com aquelas máscaras na cara há quase uma hora, debaixo do calor intenso das luzes e de uma sala ao rubro. “Fuck It”, também do último registo, antecipa o final. “Primrose Path” encerra as hostilidades e a seguir ouvimos Elvis nas colunas, é a debandada em progresso paulatino. No balanço final, calor pode afinal não rimar com dor. Um concerto em muito bom nível do músico neozelandês, – fundador dos The Brunettes no final dos anos 90 -, e da sua banda, com requintes performativos de classe e grande estilo na pose, a que se soma uma certa aura de mistério na atitude, nas vestes e sobretudo no que estas ocultam. O espaço de concertos dos Maus Hábitos vai por certo ser pequeno quando Jonathan Bree quiser regressar.

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