João Ribas responde a Serralves: “Não é admissível que a liberdade e a autonomia do Diretor sejam desrespeitadas”

Joáo Ribas, antigo diretor do Museu de Serralves, reagiu no final desta quarta-feira à conferência de imprensa realizada ao final da manhã pelo conselho de administração.

Intitulado “verdade e liberdade”, o comunicado enviado às redações reitera as “restrições e intervenções que criaram um ponto de rotura em termos de autonomia artística e de uma atividade de programação livre de intromissões ou repreensões”.

Passamos a transcrever na íntegra o comunicado:

“O cargo de Diretor do Museu de Serralves é incompatível com ingerências, pressões ou imposições que limitem a sua autonomia técnica e artística e se traduzam em comportamentos de inadmissível repreensão da livre expressão das obras de arte ou das mensagens, harmonia ou lógicas próprias com as quais o curador entenda dotar uma qualquer exposição, como a das obras de Robert Mapplethorpe. Não é admissível que a liberdade e a autonomia do Diretor sejam desrespeitadas.

Em 01 de Fevereiro deste ano, na sequência de concurso internacional, assumi a função de Diretor do Museu de Serralves, após vários anos como diretor-adjunto da mesma instituição.

Por ser uma função de elevada responsabilidade, partilho com a comunidade as razões fundamentais para este pedido de demissão:

1. Foram-me impostas, enquanto Diretor do Museu e no contexto da exposição “Robert Mapplethorpe: Pictures”,restrições e intervenções que criaram um ponto de rotura em termos de autonomia artística e de uma atividade de programação livre de intromissões ou repreensões. Tais restrições interferiram de modo grave com a conceptualização expositiva, nomeadamente na semana de montagem, que me obrigaram a sucessivas reorganizações da mesma. As interferências na exibição de determinadas obras e na localização de outras que ocorreram durante a semana de montagem, contribuíram para uma descontextualização profunda, obrigando-me, enquanto curador, a alterar a seleção dos trabalhos para que a exposição fosse um todo coerente e para que, assim, se promovesse de modo adequado o conhecimento e o diálogo social protagonizados por Robert Mapplethorpe.

A exposição deveria conter 179 obras, como estava previsto. No entanto, as referidas interferências e restrições levaram a uma redução para 161. No dia da inauguração, a curadoria foi mais uma vez intimada a retirar duas obras que já se encontravam expostas. Até ao limite, procurei manter a dignidade da exposição e fidelidade ao espírito da obra de Mapplethorpe, cumprindo todas as minhas funções.

2.      A exposição nunca foi concebida numa lógica proibicionista, o que não se traduz numa insensibilidade para com a comunidade: houve a preocupação de criar mecanismos que permitissem aos visitantes fazer escolhas.

3.      Face à violação continuada da minha autonomia técnica e artística e do livre exercício das minhas funções e, por respeito ao Museu de Serralves enquanto instituição de referência nacional e internacional, não me restou alternativa melhor e mais consentânea com a ética profissional que perfilho, senão a demissão de funções. Nenhuma exposição deve ser alvo de condicionamentos e imposições proibicionistas, nenhuma direção artística deve ser alvo de sistemáticas ingerências. Tomei uma decisão em defesa dos bons princípios de funcionamento institucional e em defesa da liberdade artística.

A minha demissão pretendeu ser uma mensagem dirigida à salvaguarda e reposição desses valores e princípios e à dignificação da Fundação e Museu de Serralves. Tal como o silêncio a que me remeti por estes dias.

Porém, têm sido divulgadas algumas falsidades e feitas imputações indevidas aos meus comportamentos profissionais, que sinto como calúnias e ofensas ao meu bom nome.

Não perdi nem se encontram diminuídas as qualidades que justificaram a minha colocação no cargo de Diretor.

Manifesto o meu reconhecimento, apreço e gratidão por todas as manifestações de solidariedade.”

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