Franz Ferdinand incendiaram a Alfândega, antes ‘tomada pelos Bastille’. Glokenwise foram ‘o abre-latas musical’ e Fausto foi promovido a Major…

O North Music Festival – NMF reservou o melhor concerto para o rodapé do evento musical. Os escoceses Franz Ferdinand deixaram o recinto ao rubro e incendiaram o Porto: o fogo chegou a estar fora de controlo. Os britânicos Bastille conseguiram uma boa prestação e os Capitão Fausto mostraram que têm pernas para andar, com aquela toada à ‘Beach Boys portugueses’ da qual há muita gente a saber as letras de cor. Os barcelenses Glockenwise continuam muito promissores, embora a hora a que foram convocados para tocar os colocasse em lume brando.

Diogo Baptista/Global News. www.diogobaptista.com

Glockenwise, uma das bandas mais proeminentes da refrescante e profícua cena rock barcelense (O “Milhões de Festa” não decorre na cidade banhada pelo Cávado por acaso), foi incumbida do estatuto de ‘abre-latas’ deste segundo dia. Percorreram o álbum “Plástico” e deixaram boa nota, ainda que o público ainda não fosse muito (a final da Taça de Portugal também cativou alguns melómanos em casa, mesmo com a exibição em directo da partida num ecrã do NMF), e o calor apertasse: surpreendentemente, nestes dois dias, nem à noite e à beira Douro se sentiu qualquer brisa. Uma boa parte das pessoas esteve de manga curta grande parte do tempo. Eles, os de Barcelos, andam muito azulados, cromaticamente falando, mas o verde sobressaiu e a festa na Invicta esmoreceu. Mas não na Alfândega, como vamos ver.

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Passava um pouco das oito e meia e os Capitão Fausto invadem o palco. Há já bastante público a acorrer ao espaço que medeia entre o palco e a mesa de som. Entram cheios de “Certeza”, bem ritmados e umas luzes ingénuas vindas do alto dão os primeiros sinais na tentativa de vencer a claridade do dia, mas o crepúsculo ainda tardava. Estão bem ritmados e dispostos em hexágono no estrado. “Santana” e Amanhã tou Melhor” afinam pelo mesmo diapasão, sempre num registo quente e embalado, aqui e ali entrecortados por algo que sobressai, como foi o caso de um solo mais prolongado na bateria.

A atmosfera em toada Beach Boys vai conquistando o público. A faixa etária mais jovem sabe de ginjeira “sempre Bem” e “Dias Contados”. A noite vai descendo e o ambiente torna-se cada vez mais dançante, merecedor de um embalo do corpo para esquerda e para a direita. Um pouco mais adiante, com “Febre e “Célebre Batalha de Formariz” percebe-se a dose de aquecimento que os Capitão Fausto proporcionam à festa. “Morro na Praia” (parece uma alusão ao resultado final do jogo da taça para o FC Porto) e “Boa Memória”, a música com que fecham e deixam a antever que Fausto pode muito bem vir a ser promovido a Major (ou a integrar uma ‘Major’).

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A ‘tomada dos Bastille’ deu-se por volta das 22h30, mas, por paradoxo, a entrada da banda decorreu com “Quarter Past Midnight”, com recurso a um ecrã policromático e direito a cronómetro digital que haveria de ditar qual o tempo de cada um dos temas e exibi-lo ao público. Poderíamos baptizá-lo como “Bastille Kronos”.

Dan Smith é o frenético vocalista que está sempre a palmilhar uma ala do palco até à outra e a liderar, em todos os momentos, a brigada britânica de nome gaulês. Em “Send Them Off” vai para o tambor e bate forte, compassadamente. Segue-se “Things We Lost in the Fire”, bem acolhida pela audiência. “Two Evils” é uma balada com direito a uma bela imagem de Dan a cantar num degrau de uma escada metálica e um fundo avermelhado que inclui uma imagem que cremos ser da Lua.

“Happier”, o tema mais do que famoso de Marshmello (DJ e produtor norte-americano), do qual resulta uma versão conjunta com os Bastille, foi dos temas mais sucedidos da prestação da banda. “Icarus” é o tema seguinte e também recebe uma boa quota de aplausos. Mais adiante havemos de escutar “Doom Days”, com o Dan esticado num sofá iluminado por um candeeiro.

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E “Joy”, uma das requisitadas por gente muito jovem em cartões junto às grades é outra que o alinhamento reserva ao público da Alfândega. “Laura Palmer”, evocativa da personagem da série realizada por David Lynch, é cantada por todos. “Of the Night” é mesmo para abanar o esqueleto e é com “Good Grief” que o fim se anuncia, o que sucede com “Pompeii”: uma boa música para uma claque de apoio futebolístico, com o refrão a ser trauteado pela multidão. Um concerto conseguido por parte dos londrinos, que assim passaram a bola aos de Glasgow.

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Vamos por partes, Alex Kapranos, o líder dos escoceses Franz Ferdinand, bem merecia ser o segundo escocês, depois de Sean Connery, a figurar na lista dos actores protagonistas servidores de Sua Majestade em 007. É um tipo que exala classe, pose, e interpreta em conformidade a ideia de uma aventura, pelo menos dessas feitas no palco.

Pouco depois da meia-noite os Franz Ferdinand acedem ao altar-mor das celebrações melódicas do North Music Festival. “Matinee” não esconde o propósito da banda e diz ao que eles vêm. Kapranos, pelo menos ‘vem partir a louça’, aquilo é coisa que vem do pai: responsável pelo apelido grego. O vocalista está impecavelmente vestido, com um fato escuro que lhe assenta que nem uma luva e uma gravata a condizer. O público aprova em larga escala o primeiro tema. “Boa noite, Porto. Estamos muito felizes por estarmos aqui!”, profere.

No gatilho para disparar está “ No You Girls”. Adivinha-se que o registo do espectáculo vai adoptar uma cadência electrizante, um registo quase sempre frenético. “ Black Tuesday” é ‘uma estreia mundial’, começa com riffs na guitarra, o público está compactado para a ouvir, o sincronismo musical é de elevado índice: Robert Hardy está concentradíssimo a provar o papel incontornável do baixo na banda. Paul Thomson continua a acompanhar o ritmo na bateria. Um pouco mais adiante surge “Come On Home”, tudo parece funcionar em conformidade, os Franz Ferdinand estão a conseguir prender os fãs e os simples curiosos.

“Always Ascending”, o mais recente trabalho, tem direito a uma incursão. “Walk Away”, em jeito mais badaleiro, se assim se pode dizer em relação aos FF, segue pelo menos em toada mais calma, e também nos capta a atenção. E depois vem mais frenesim, embalado em “Lazy Boy” e só se for mesmo o rapaz da música, pois no espaço está toda a gente a trabalhar com os ouvidos e a sacudir anatomia.

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Em matéria de ‘contratados’, convém dizer, neste parêntesis importante, que os Franz Ferdinand elegeram Dino Bardot, que mostra também todas as credenciais na guitarra, ele que teve a incumbência de substituir o membro-fundador Nick McCarthy a partir de 2017. Neste mesmo ano entrou também Julian Corrie, mais conhecido pelo nome artístico de Miaoux Miaoux para os teclados, sintetizadores e guitarra. Uma mais-valia, portanto.

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Por falar em contributos nas guitarras e nos teclados, a seguir temos, logo ali, “Glimpse of Love”, em registo mais intrinsecamente ligado a uma pop dançante. Enfileira-se “Right Action”, tema que o artista escocês diz já não tocarem há algum tempo.

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Em “Darts of Pleasure” está toda a gente a conjugar o verbo ‘pinchar’ no presente do indicativo, e diga-se de passagem que não é para menos. É contagiante a animação que grassa no recinto. “Lucid Dreams” entra nesta sequência muito animada. “Do you feel the love tonight, Porto?” Solta quase em histeria Alex Kapranos. A resposta não se faz esperar, com uma gritaria colectiva em tom afirmativo, tudo isto sucede em “Feel the Love Go”. O concerto atinge uma espécie de zénite desde há três temas a esta parte. “Michael” só cumpre a sua parte. E o baixo dá a partida para os instantes finais em verdadeira apoteose com “Ulysses”, com que finda o concerto. O pedido de regresso ao palco é feito de forma muito audível. “Querem mais?”, questiona em jeito de uma resposta implícita e com sotaque arranhado, mas num português bem perceptível, Kapranos. A resposta do público faz-se em uníssono e é óbvia. E vai daí e sai mais uma para ajudar à combustão – dedicada a todas as mulheres que se encontram na Alfândega. Só pode ser “Jacqueline”. “Illumination” e especialmente “Take Me Out”, que pelo ‘gás’ e pela dose de saltos em gáudio, ficam a prenunciar o epílogo, que se verifica com a acendalha magna: “This Fire” é mesmo o rasto de piromania que faltava. Os Franz Ferdinand acabam o concerto a seguir a cartilha de Nero, qual pirómanos musicais e conseguiram pôr toda a gente, senão de joelhos, pelo menos acocorado para um grande salto final. Devem ter saltado muitas coisas dos bolsos a quem entrou na jogada, certo é que o concerto dos escoceses vai por certo saltar ainda mais da memória em conversas de quem o viveu.

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