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São 19h30 e entramos num espaço que outrora tinha sido uma drogaria, em plena Rua de Santo Ildefonso, no denominado coração do Porto. A hora pouco indicada para concertos em solo lusitano fez prever uma espera mais ou menos prolongada. O espaço do Drogaria Bar é confinado, mas bastante apelativo: a parede que baliza o palco é descarnada e deixa à vista as madeiras intrínsecas, algo que lhe confere uma aparência medieval. É aqui que vão actuar as cantautoras norte-americanas Tracy Bonham e Rachel Yamagata.

Depois de uma mudança um tanto ao quanto de última hora devido à possibilidade de chuva prevista para quinta-feira, dia 9 de Maio, e ao facto do concerto estar planeado para a esplanada do Terraplana, um outro bar nas imediações, a organização conseguiu encontrar uma alternativa para acolher o espectáculo.

Rachel Yamagata e Tracy Bonham encantaram(-nos) – ‘Ainda há drogarias que vendem… boa música no Porto’ | São 19h30 e entramos num espaço que outrora tinha sido uma drogaria, em plena Rua de Santo Ildefonso, no denominado coração do Porto. A hora pouco indicada Global News Portugal
Tracy Bonham. Foto gentilmente cedida por Marta Teixeira

Às 20h15, Tracy Bonham, a cantora que em 1996 conheceu algum estrelato devido ao bem-sucedido single portador do tema “Mother Mother”, que à época fez algum furor, entra no pequeno palco a acariciar os teclados com “Whether You Fall”, do álbum Blink the Brightest (2005), uma proposta desde logo bem recebida pelo público. Tracy está notavelmente bem-disposta e “Josephine” parece correr ainda melhor que as anteriores, para isso contribui o domínio do violino, instrumento do qual passou a estar munida. O público acompanha com palmas e canta o refrão: Baby please don´t go…

“Devil’s Got Your Boyfriend” intensifica a bela voz, que uma vez mais se projecta na sala, com apuro nas variações tonais, há momentos em que canta com os olhos fechados para melhor sentir. O violino mais que tocado é trinado (fomos remetidos para Andrew Bird e também para os Curved Air). O corpo oscila e arrisca uns agudos proeminentes no canto e o saldo é uma calorosa recepção por parte do público.

Como desejo de um bom concerto, à laia do que se diz no teatro, alvitramos-lhe um proverbial “Muita merda!”, que Tracy ousa repetir na introdução à apresentação do icónico “Mother Mother”, para risota geral. Depois de dizer: “Estou a adorar o Porto, sinto-me como se estivesse em casa!”, arrisca então o tema anunciado, que lhe granjeou sucesso, mas assumidamente recriado e reinventado para a temática actual e onde, para além de outros, Trump é visado, tudo isto quase à capela. Escusado será dizer que a versão é muito aplaudida.

Regressa depois aos teclados para cantar com sentimento “Where is My Village” e finaliza, apostando em” Reciprocal Feelings” para o efeito. E foi recíproco, ela gostou muito e o público idem.

Rachel Yamagata e Tracy Bonham encantaram(-nos) – ‘Ainda há drogarias que vendem… boa música no Porto’ | São 19h30 e entramos num espaço que outrora tinha sido uma drogaria, em plena Rua de Santo Ildefonso, no denominado coração do Porto. A hora pouco indicada Global News Portugal
Rachel Yamagata. Foto gentilmente cedida por Marta Teixeira

Rachel Yamagata subiu para o pequeno palco batiam as 21h08. Destreza nas teclas e voz pujante para uma entrada de feição com “Dealbreaker”. Tal como Tracy Bonham, é simpática e expansiva. As duas são amigas e Rachel faz questão de dizer bem alto, a plenos pulmões, que Tracy é uma inspiração e a sua mentora, Bonham que está à porta do bar responde-lhe com um grito de gáudio.

Em “Meet Me By The Water”, Rachel revela um perfil que varia entre uma Ricky Lee Jones e uma Cat Power, pela faceta calorosa da voz, e mais adiante juntar-lhe-á uma dose de Joni Mitchell, sem esquecer Norah Jones e sobretudo sem esquecer, diga-se, que apesar de todas estas referências, há uma autencidade intocável nela e no que faz. De guitarra acústica na mão propõe “Break Apart”, um autêntico embalo de cordas e voz a que se adicionam algumas projecções-vídeo relacionadas com a digressão e o ambiente domiciliário da cantora. A espaços a voz sai ainda mais rasgada e até reclamante, mas logo se atenua em toada mais doce.

“Saturday Morning” sai com registos rítmicos pré-gravados e a voz da cantora natural de Arlington, na Virginia, insinua-se em sobreposição. O retorno ao dominó preto-e-branco das teclas, tocado com suavidade, faz-se com recurso a “Heavyweight”. A tónica prossegue com “Be Somebody Love” e sentimo-nos acariciados por este incentivo à condição exposta no tema musical. E tudo entra em ritmo rock and Roll através da abordagem ao ritmo mais picado dos teclados e da voz em “The Way It Seems To Go”. Segue-se um dos grandes momentos da noite, protagonizado com a belíssima “Elephants”, da qual sobram todas as razões para nos encantarmos. Rachel evoca a dualidade de sensações de estar numa digressão: “É tão excitante, mas tão confuso ao mesmo tempo. Temos direito a grandes aventuras e não sabemos o que vai suceder ao longo dos dias. Sabermos como está a nossa família, por exemplo. E também não termos lingerie para substituir durante grande parte do tempo!”, esta última declaração, feita de uma honestidade desconcertante e com um boa pitada de humor, suscita uma enorme gargalhada geral e aplausos.

Parecemos embarcados numa viagem ao longo da estrada, isto a julgar pelas projecções de imagens que se esbatem na parede, e é precisamente sobre os amores que se encontram ao longo do percurso que “Duet” fala, melhor, canta. Toda a gente entoa um murmúrio solicitado pela trovadora até ao final da música.

E “Be Be Your Love” ouve-se quando a artista vai ao baú e oferece ao público do Drogaria Bar uma música de 2004, das mais emblemáticas diga-se de passagem. “You Won’t Let Me” tem mais açúcar que um torrão e é com essa que a prestação supostamente estaria findada. A sombra que se expande na parede, o cabelo longo que se espraia até aos seios e o vestido de tom escuro matizado com bolinhas brancas conferem-lhe um elã atraente. Depois dos agradecimentos sentidos ao público presente, Rachel convoca Tracy para um dueto final com “Let Me Be Your Girl” e dali só se podia esperar ‘boa onda’: as duas estão de pé, ondeiam os corpos, batem pés e mãos e a empatia com o público, que as acompanha no ritmo, é total. A celebração terminou em alta.

Tudo o que se pode dizer é que a prestação de Tracy e Rachel (por ordem de apresentação) no Porto não obedeceu aos cânones tradicionais: desde logo pela escassa divulgação do concerto, mesmo tratando-se de uma tipologia de música para um nicho, um segmento bem definido de potenciais espectadores. Depois pelo percalço da mudança de sítio de realização, do Terraplana para o Drogaria Bar, de um dia para o outro. A verdade é que o adágio foi vencido… Afinal tudo acaba muito bem, mesmo quando começou mal. Ficamos à espera de repetir a dose, pois desta vez ‘a nutrição musical’ foi a preceito.

PS – Quem quiser (re)ver a entrevista concedida em exclusivo ao Global News, que foi feita por Álvaro Costa a Tracy Bonham na Praia da Luz, no Porto, na noite que antecedeu o concerto, pode sempre fazê-lo através de:

Exclusivo! Álvaro Costa entrevista a cantautora Tracy Bonham! – Global News Portugal

Tracy Bonham vai tocar esta quinta-feira no Drogaria Bar, no Porto. Mas antes, a cantautora deu uma entrevista, em exclusivo, ao Global News Portugal. Álvaro Costa fez as honras da casa àquela que foi um ícone da música nos anos 90 e lançou êxitos como “Mother mother”, que segundo a autora a “marca ainda hoje”.

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