Tinta Permanente: O “novo paradigma” dos documentários sobre vida selvagem

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Tinta Permanente: O “novo paradigma” dos documentários sobre vida selvagem | Luís Henrique Pereira, jornalista Está instalada a controvérsia. Direi que uma saudável controvérsia, quero acreditar. Um grupo de investigadores internaci Global News Portugal
Luís Henrique Pereira, jornalista

Está instalada a controvérsia. Direi que uma saudável controvérsia, quero acreditar.

Um grupo de investigadores internacionais vem agora dizer, que os documentários sobre a natureza e vida selvagem podem ser “ativamente enganadores para os expectadores”, porque mostram a natureza como algo primitivo e não como algo que está a ser danificado pelos seres humanos.

Vários investigadores e cientistas das universidades de Oxford, Newcastle, Kent e Bangor, analisaram os guiões de quatro séries mais recentes da BBC e Netflix, narradas por David Attenborough.

Disseram que estas séries documentais não mostram até que ponto a natureza está a ser ameaçada pela atividade humana.

Dão exemplos: Dizem que a série Our Planet, da Netflix exibida este ano, “dedicou apenas 15% do guião às ameaças e à conservação do ambiente e vida selvagem.”

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Acrescentam que “isso excedeu em muito a série BBC Planet Earth II” (2016) – a série de documentários que tenta mostrar como é que os animais enfrentam os desafios para sobreviverem nos mais conhecidos habitats da terra, e a série Dynasties também da BBC (estreou o ano passado e que dá a conhecer de uma forma profunda cinco espécies vulneráveis ​​ou ameaçadas de extinção conhecidas precisamente por formarem populações ou sociedades duradouras: chimpanzé, pinguim-imperador, leão o tigre e cão selvagem africano).

Dizem estes cientistas, num artigo da People and Nature da British Ecological Society (a sociedade dedicada a estudos ambientais e ecológicos mais antiga do mundo – fundada em 1913) que “a natureza ainda é mostrada principalmente como pura, e a presença ou os impactos das pessoas no mundo natural raramente aparecem”.

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É o que afirmam os investigadores no artigo publicado em People and Nature, (publicação da British Ecological Society). Estes cientistas reforçam uma ideia fundamental: “Estes documentários recentes não conseguem mostrar visualmente como o mundo natural tem estado a ser ameaçado”.

“Pode-se argumentar que, usando enquadramentos e escalas de plano na realização (no sentido de evitar mostrar sinais de pessoas), os cineastas da natureza estão a enganar de uma forma activa os telespectadores”.

Este estudo está a causar desde logo controvérsia (que se entende) uma vez que a BBC sempre mostrou ao mundo os melhores documentários sobre vida selvagem alguma vez realizados.

A questão (digo eu) agora levantada tem a ver se calhar com um novo paradigma dos documentários sobre vida selvagem. 

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Devem eles mostrar só o belo e terminar, como é costume, com uma mensagem de esperança ou de desafio?

Ou devem começar a mostrar e cada vez mais o “dark side do homo sapiens” na sua directa interferência com a vida selvagem? (Já que muito documentarismo mundial nos mostra de forma abrangente as ameaças ao planeta como o aquecimento global, a desflorestação de áreas pulmão do mundo, os degelos e por aí fora). Só que este estudo tem a ver unicamente com documentários sobre vida selvagem e seus protagonistas, os animais selvagens.

“O espectador pode ser levado a acreditar que as coisas não podem ser tão más para a biodiversidade, porque na maior parte dos casos o que é mostrado é que está tudo a correr bem”, dizem os investigadores.

Dizem igualmente que “o vínculo entre ameaças ao mundo natural e alto consumo de estilos de vida ocidentais, seria mais difícil de ignorar se a presença, ou mesmo dominância, de agricultura comercial, infraestrutura de mineração e transporte fossem mais visíveis nas paisagens, reduzindo o espaço para os impressionantes espetáculos selvagens mostrados. ”

Ou seja, aqui há mais um dado controverso. Então em documentários sobre vida selvagem não é suposto mostrarem só e apenas os habitats onde vivem animais selvagens e seus protagonistas selvagens, claro está?

Os cientistas estão divididos e perguntam-se se os documentários da natureza podem aumentar o apoio à conservação da vida selvagem.

A questão que estes investigadores levantam, mostra que se calhar, as coisas têm de mudar nesta “gramática das imagens”, nesta “linguagem das imagens” da narrativa das imagens à volta do documentarismo sobre vida selvagem.

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David Attenborough e a capa de serie Dynasties.

Pesquisas anteriores sugeriram que as pessoas estão dispostas a fazer mudanças pessoais no estilo de vida e aumentar o apoio à conservação. Isso geralmente significa que a mudança de política é mais provável.

Mas os investigadores chamam a atenção para o seguinte: “Ainda não entendemos os mecanismos pelos quais essas mudanças ocorrem”. São palavras de Laura Thomas-Walters, co-autora do estudo e doutoranda da Universidade de Kent.

Reforçam os investigadores que “é necessária uma pesquisa considerável para investigar como é que a visão da natureza, retratada como ameaçada ou pura num documentário, afeta as pessoas de forma a que elas possam, em última análise, contribuir para salvá-la.”

Este estudo publicado pela British Ecological Socyety diz que “chegou o momento de abordar as questões de outra forma. Saber em que medida é que as representações da natureza no ecrã afetam as pessoas, para que essas mesmas pessoas possam efectivamente contribuir para conservar essa natureza”.

Julian Hector, chefe da Unidade de História Natural da BBC, disse ao The Independent: “Todos reconhecemos que o mundo está numa crise climática ambiental. A Unidade de História Natural da BBC sempre se esforçou para fazer mais em defender o mundo natural.”

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Em todo mundo, mais de um mil milhões de pessoas viram o “Planet Earth II” e o “Blue Planet II”. É uma vasta audiência composta por “diferentes” consumidores de televisão.

Este estudo afirma ainda que, se se perguntasse às pessoas, qual foi a série narrada por Sir David Attenborough que conseguiu aumentar a consciencialização sobre questões ambientais e conservação da natureza, a resposta (dizem os investigadores) da maioria das pessoas, seria o Blue Planet II. Na minha modesta opinião, creio que este estudo vem ajudar a repensar a forma como fazemos documentários sobre vida selvagem. Pode ser polémico, controverso, ou mesmo insignificante para muitos. O que é certo é que levanta questões de forma, que devem fazer pensar quem se dedica à realização e/ou produção deste género de conteúdos televisivos, assim como devem fazer pensar quem habitualmente os consome.

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Luís Henrique Pereira
Membro Honorário da Ordem dos Biólogos. Licenciado em Ciências da Comunicação. Dedica especial atenção às áreas relacionadas com a História Natural e Vida Selvagem. Autor e apresentador do primeiro programa da história da televisão portuguesa, de produção nacional e com continuidade, dedicado à vida selvagem: "Vida Animal em Portugal e no Mundo", para a RTP. Jornalista-redator, autor, apresentador e realizador de documentário e grande reportagem. Passou pela Rádio Renascença e pela RFM como jornalista, antes de entrar na RTP em 1994.

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