Ramalho Eanes. créditos: FACEBOOK/SEDES
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Ramalho Eanes. créditos: FACEBOOK/SEDES
Luís Henrique Pereira, jornalista

É de um revoltante avassalador ter a noção, a experiência e a certeza, de que as coisas não mudam porque há vontades que “exigem” que tudo vá ficando um pouco sempre na mesma.

Continuam a ser muito poucos os que “passam ao lado” de um sistema que vive atabalhoado em favorzinhos de “imensa conveniência”. Um “estado grave” onde não se vislumbram melhorias no curto/médio prazo.

O nepotismo está instalado de forma desavergonhada. Está como nunca se viu. As trocas e as baldrocas entre os que “privam à margem” dos “outros” continuam a crescer. Esses têm um único e grande objetivo: arrecadar para não distribuir. Outros objetivos feios existem que têm a ver diretamente com o primeiro. A coisa torna-se num galopante contínuo.

Uma das vozes que esta semana terá (mais uma vez) direcionado as atenções e preocupações para aquilo a que aqui temos vindo a chamar de “desordem natural das coisas” foi o General Ramalho Eanes.

Durante a conferência organizada pela Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, a SEDES – uma das mais antigas associações cívicas do país que nasceu em 1970 com fundadores vindos de diferentes estratos sociais, formações académicas, ideologias políticas. Todos diferentes mas todos iguais na vontade de mudança. Um associativismo académico, prática de contestação política contra o sistema, participação em organizações cristãs e atividade sindical – o antigo Presidente da República apareceu para, no discurso, marcar com assertividade e entendimento bastante, as grandes “vergonhas” em que Portugal está mergulhado. Falou de realidades que se instalam e dos muitos que não querem que se elas desinstalem.

Entre essas grandes vergonhas e “desfatalidades” que acontecem porque não deviam acontecer no Portugal democrático, Ramalho Eanes diz que a corrupção é uma “epidemia que grassa pela sociedade” e isso deve-se em parte, não só a uma “cultura de complacência” mas também a um sistema partidário que escolheu a via do “encastelamento”, onde “o mérito foi substituído pela fidelidade partidária”. Ora perante este enunciado é forçoso perguntar o que diz de novo Ramalho Eanes. Pois em bom rigor nada de novo. Nada de novo mas tudo em relevância primeira! São “gritos de alerta” “sinais de alerta” emanados por um dos mais importantes nomes que ajudaram a consolidar a democracia neste nosso Portugal do pós 25 de Abril.

São sinais que devem multiplicar-se. Devem ser escutados por todos a cada vez que são emanados. Essa é a importância primeira. Relembrar, insistir, denunciar para não esquecer!

Eanes é um homem que tem merecido, de forma crescente, o crédito, a atenção, a notória razoabilidade. Nos atos, Nas atitudes. Um homem que se tem tornado a “voz da razão” de cada vez que decide falar em acontecimentos e/ou eventos públicos. E ainda bem.

Mas torna-se interessante e motivador, direi, lançar ouvido atento a este “manifesto” do General.

Ramalho Eanes não precisa de se afirmar politicamente porque é público e notório que há muitos anos não tem, porque não quer ter, agenda política. É um homem que gosta de Portugal e dos Portugueses mas não deste Portugal, tal como está, bem como de alguns portugueses tal como são.

Ramalho Eanes diz por exemplo que os partidos políticos pouco mudaram desde o tempo em que fundaram o atual regime”. E de facto é capaz de ser verdade. Acrescentamos. Se mudaram não foi certamente para melhor. O crescente e desafortunado desmérito e descrédito que grassa na nossa “partidocracia” (como alguns lhe chamam por imperativos de cansaço e também de outra tanta revolta) é evidente, crescente, desajustado para um estado democrático, e altamente perigoso para um estado que se quer que democrático continue.

Ao referir-se aos deputados, Ramalho Eanes disse que “Não há uma crise da democracia nem do regime mas há uma crise da representação”. Aqui chegado, o discurso verteu naturalmente para a realidade da reforma do sistema eleitoral. Eanes foi mais longe ao afirmar que os deputados são no Parlamento “mais delegados dos partidos do que representantes dos eleitores”. Em consequência, “muitos eleitores não se sentem representados no poder político.” E que de novo há neste manifesto? Nada. Nada de novo mas tudo de preocupante. Relevante! O que importa é insistir nestas ideias e nestes valores defendidos. Denunciar para não olvidar! Tem que ser! Isso é meritório! Insistir cada vez mais.

Diz então Eanes: “uma das razões, como referi, será o sistema eleitoral. A outra, talvez não tenhamos feito aquilo que se impunha, que era socializar a política, isso poderia ter sido feito através da escola. E politizar a sociedade, sobretudo a jovem, também através da escola.” Este ponto fundamental para unir eleitos a eleitores, o povo à política. Há anos que é assunto falado mas está a custar muito a ser implementado. Sem pressas mas com vontade e determinação. Ora isso não se vê. Não se sente.

Ramalho Eanes não se entende a ele próprio, como nunca se entendeu, como um visionário. O que entende é que é preciso, assim que exista oportunidade, lembrar, denunciar, recordar para não esquecer. É preciso reforçar.

O país dos oportunistas e dos oportunismos está a encher-se de outros tantos “gestores de recursos alheios”. No mesmo discurso, Ramalho Eanes lembrou também as realidades inaceitáveis e inenarráveis à volta do que se conhece e do que não se conhece sobre matéria “invocada” nas comissões parlamentares de inquérito, às quais nos referimos em crónicas anteriores. Eanes afirma que “muitos eleitores não se sentem representados no poder político”. Isto, somado ao clientelismo partidário, gera então o tal problema “epidémico” de corrupção. E como exemplo de “colonização do Estado” pelos partidos, falou explicitamente do “exemplo da Caixa Geral de Depósitos”, com os respetivos “custos diretos e indiretos na modernização do país”.

Os intervenientes deste Estado doente, sabem que não querem saber, porque não podem querer saber. Não interessa. É uma chatice! A seguir, o melhor é esquecer a bem de um status que para eles, se quer instalado e duradouro.

A política está desmembrada dos eleitores. Não há crédito. Não há sequer o sentimento de que de facto é importante haver política com bons políticos. Há já muitos que não acreditam. E depois há a abstenção. E a seguir a admiração com os números da abstenção. Uma admiração que assenta em tamanha hipocrisia que faz mal só de pensar. O povo votante demarca-se. Não quer participar nas coisas conforme elas estão. Demite-se de alinhar em “colaboracionismos” que alimentam meia dúzia de “vândalos conhecidos”, que perpetram atos e habilidades a que a justiça tenta deitar a mão. Exceções existem sim. Poucas.

Diz o General com a maior das razões que “Quando a moral pública enfraquece, fragiliza-se o interesse coletivo, abrem-se portas à corrupção”. Lembra também a “séria preocupação com um crescimento económico “anémico.” Não embandeira em arco porque se nunca o fez.Vincou a realidade deste “modus vivendi”. A corrupção. Outra vez a corrupção! Foi muito direto e contundente. Uma corrupção que cresce a cada dia que passa e que começa a dar de caras com alguns, até agora “intocáveis”. Estão postos a nu mas acreditam que nunca despiram as vestes de imperador.

É importante seguir de perto as “aparições” de pessoas como Ramalho Eanes. Pessoas sérias que têm sempre muita coisa importante para dizer, para lembrar, corrigir, sugerir.

Obrigado por este exercício de democracia e cidadania que a todos deve atingir.

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