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O facto de me virem as lágrimas aos olhos pela primeira vez numa linha de partida, é, por si só, um elemento diferenciador desta prova para todas as outras que já cumpri. Receio de falhar e de me desiludir, em primeiro lugar a mim próprio mas também aos que levava no coração. Respeito pela distância enorme e pelo desnível avassalador. Insegurança, por estar prestes a lidar com situações desconhecidas, como a gestão do sono. Orgulho, por ser um comum mortal a tentar entrar noutra dimensão.

Início calmo, boas sensações e aguardar calmamente pela chegada do Modo Ultra. Aquele que só se atinge com muitas horas passadas e que nos permite abstrair dos pontos negativos, esquecer as dores, manter a calma. Pensar que já estão feitos 33 km, no lugar de entrar em pânico por ainda faltarem 300. Fazer da adversidade uma motivação, sentir vaidade por ter a sorte de conseguir sofrer assim. Fará pouco sentido, descrito desta forma, mas o ser humano tem as suas estranhezas. O único engano no percurso, em que terei perdido cerca de uma hora por ter de voltar a um ponto de controlo onde não tinha passado, serviu para me abrir os olhos e me fazer cerrar os dentes, numa altura em que estava mais fraco animicamente. É mesmo verdade que há males que vêm por bem.

É quando desafiamos a tão badalada zona de conforto que nos vamos conhecendo melhor a nós próprios. Voltei a sentir que a vontade arrasta tudo e foi incrível sentir a força que me chegava de longe. Mensagens e telefonemas. Carinho e mais carinho. Ego cheio pelos elogios. É fantástico poder viver esses momentos. Não fora pelos problemas articulares no último décimo do percurso, que me fizeram chegar em grande sofrimento, e teria ficado com a falsa sensação de que esta é uma prova que se faz facilmente. Tudo devido à motivação extrema que muitos me ajudaram a manter por horas a fio.

Trouxe de Itália uma experiência de vida ímpar, que desejo repetir. Elevação dos limites, muita introspeção. Receber com prazer imenso todas as palavras dos que, vibrando intensamente, perderam horas de sono para me empurrar. E ficar orgulhoso por servir de inspiração para alguém. O sonho continua!
João Colaço

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