©Susana Neves
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Partir de um texto do século XVIII, adaptando o respectivo conteúdo sem o desvirtuar na essência, através de uma demanda pelas analogias com a actualidade, é o conceito que move a produção em parceria da Jangada Teatro, de Lousada, e do Teatro Nacional São João. A criação cénico-dramatúrgica pode ser vista até domingo, no Mosteiro de São Bento da Vitória, na ‘Invicta’, e insere-se na programação do FIMP – Festival Internacional de Marionetas do Porto.

António José da Silva (o Judeu) concebeu esta dramaturgia para obra teatral em 1737. Volvidas praticamente três centenas de anos, aquilo que o autor português (nascido no Brasil em 1705) deixou como legado para concretização no palco faz todo o sentido. Deste modo, “Guerras de Alecrim e Manjerona” cujo móbil temático versa as paixões entre jovens que não se conhecem e que pertencem a clubes rivais constituiu, desde logo, terreno fértil para a estruturação de um enredo e encenação que revisitam a obra na perspectiva do universo associado aos reality shows do quotidiano presente.

Rui Oliveira e Ana Saltão incumbiram-se de a verter para o século XXI, com recurso à extracção simbólica do seu conteúdo da cronologia temporal setecentista, onde de resto a obra se inscreve, para lhe conferirem uma dimensão mais próxima do tempo actual. Para isso, recorreram ao fenómeno dos reality shows que pululam no espaço mediático dos canais televisivos e vivem de um comércio de emoções contínuo, criando ilusões de ascensão social e de um suposto estatuto a quem os frequenta enquanto intérpretes. O paralelismo entre as situações evocadas ganha forma: ‘os actores’ são convocados em audições que ditam os perfis adequados a concorrentes femininos e masculinos, com a prerrogativa de não se conhecerem pessoalmente.

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Para este efeito, Jorge Palinhos, que reescreveu e adaptou o texto, deixou ilesos o tom de farsa e a tipologia das personagens estereotipadas, afinal são essas “que exploram um conjunto de situações de humor, expondo a falsidade das relações humanas, movidas por intrigas e esquemas para atingir fins egoístas”.

E neste fio de pensamento, Rui Oliveira complementa em conversa com os repórteres num ensaio da peça: “O enredo fala muito sobre os amores e desamores, rapazes que querem conquistar raparigas, a questão dos dotes, que é uma coisa muito datada, muito do século XVIII…”, Ana Saltão interrompe positivamente: “Desculpem, mas hoje em dia os dotes são outros, eles existem na mesma, nas relações actuais… o hashtag é um dote, os likes, os gostos no Facebook são dotes para as pessoas, no Instagram é a mesma coisa, a melhor foto, a melhor posição ou o melhor sorriso são tudo formas de conquistar um dote, uma outra forma de dote”, enfatiza a co-encenadora.

Há uma interrogação pertinente porque reflexiva que nos deixa a nota de imprensa do espectáculo: “Afinal, passados estes três séculos estaremos assim tão distantes dos valores vigentes em 1737? Ou a maneira de nos relacionarmos uns com os outros – procurarmos o amor – só mudou na sua forma e não no conteúdo?” Eis um desafio para o espectador.

A peça é uma produção tributária do trabalho criativo da Jangada Teatro, companhia que completa 20 anos de actividade no presente ano e que a partir de Lousada tem expandido as suas criações, dando a conhecer-se, enquanto estrutura e aos respectivos trabalhos que produz, em diferentes paragens e coordenadas nacionais.

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Esta afirmação funcional da ‘Jangada’ tem vindo a assumir, de forma paulatina, uma vertente de internacionalização assinalável. O GPS teatral já os levou a palcos de França, Alemanha, Lituânia, Estados Unidos, México, Brasil e China em périplos raros para uma pequena companhia portuguesa, que está simultaneamente sediada numa localidade próxima do Porto, mas também a caminho do que se considera o Interior, na zona do Tâmega e Sousa. E se a peça também fala de preconceitos, a melhor das ironias é a parceria com o Teatro Nacional São João para este “Alecrim vs Manjerona”, pois vence o preconceito instalado da concessão dos palcos citadinos para pequenas companhias situadas em espaço rural cuja esfera de acção não é a dos grandes centros urbanos.

Alecrim vs Manjerona

A partir de “As Guerras do Alecrim e Manjerona” de António José da Silva (O Judeu)

Dramaturgia e adaptação Jorge Palinhos/direção Ana Saltão e Rui Oliveira/direção musical e desenho de som Paulo Pires/desenho e operação de luz Fernando Oliveira/figurinos Cláudia Ribeiro/assistência de figurinos e adereços Rita Senra, Filipe Pereira costureiras Marlene Rodrigues, Alexandra Barbosa/desenho e construção de marionetas Sandra Neves/Colectivo Monte/construção de marionetas Ana Pinto, Catarina Falcão/ cenografia Nuno Guedes, Carlos Pinheiro/Colectivo Monte estagiária Guoda Korsakaité/ documentário Chromiastudio

Produção executiva Alejandrina Romero, Susana Morais, Fred Meireles/interpretação Vítor Fernandes, Luiz Oliveira, Rui Oliveira, Sónia Ribeiro, Teresa Alpendurada, Paulo Pires

Coprodução Jangada Teatro, TNSJ dur. aprox. 1:00 M/12 anos Língua Gestual Portuguesa 19 out sáb 19:00 Sessão Descontraída 20 out dom 16:00

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