- publicidade -

A despeito das polémicas que marcaram a recente inauguração da Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota, vulgo Palácio de Cristal, bem pode dizer-se que temos… casa! De espectáculos, bem entendido. Em abono da verdade desconhecem-se inaugurações, estreias ou aberturas de novos equipamentos ou edifícios em que tal não tenha acontecido. A polémica é uma espécie de fragrância que substitui a água benta utilizada para dar a bênção a uma nova estrutura física que se inaugure: ‘em Portugal é mato’ e no Porto é…. ADN!

Ornatos Violeta – Palácio Cristal Diogo Baptista/Global News

Os Ornatos Violeta foram os convidados ilustres para o concerto de abertura e, como era esperado, a banda portuense comportou-se a preceito, uma prestação que deixou aquele espaço de forma circular ao rubro, e só findou cerca de uma hora e quarenta minutos depois. O espectáculo, em formato de 360 graus, que repete hoje, sexta-feira dia 1 de novembro, data em que os fiéis dos ‘Ornatos’ darão certamente muitos sinais de vida. O Global News assistiu ao desempenho musical e conta como foi, como se ainda estivéssemos no dia de ontem, melhor, na noite…

Após a ânsia de conhecimento traduzida nos olhares curiosos de milhares de pessoas que percorrem as diferentes valências do espaço da arejada Arena Super Bock, segue-se uma tradicional espera pelos músicos da banda, uma multidão que se aglomera em redor de um palco situado ao centro, com toda gente na plateia a formar um círculo compacto e claro, com as bancadas quase repletas de público, dá à partida a ideia que veio mais gente cá para baixo.

Ornatos Violeta – Palácio Cristal Diogo Baptista/Global News

São 22h05 e as luzes apagam-se, uma escuridão pontuada pelo júbilo do público, a ‘inaugurasom’ estava prestes a acontecer: o sentimento de um testemunho exclusivo de quem presencia um momento histórico tinha sido semeado com expectativa ao longo dos últimos meses e 8.000 quiseram, desde logo, estar presentes. Os telemóveis, fonte da maior dependência do homem em pleno século XXI, erguem-se para captar o momento: Manel Cruz balbucia um conciso, mas simpático “Boa noite” dirigido à multidão.

“Como Afundar” (Inéditos/Raridades,1997) é a pioneira, algo que num pavilhão faz todo o sentido – embora não se trate de um espectáculo desportivo, nem sequer por hipótese de um jogo de basquetebol. A banda parece ter atirado um dado para a mesa, quer dizer para o palco, que calhou nas quinas: Kinorm está numa das extremidades das alas do palco e Nuno Prata está no final do outro ângulo da mesma linha do quadrado, Manel posiciona-se na parte central e Peixe e Elísio Donas ficam na mesma linha, embora em ângulos distintos.

Ornatos Violeta – Palácio Cristal Diogo Baptista/Global News

E se o palco assume a forma de um quadrado, o suporte de luzes assemelha-se mais a um rectângulo, o contraste destes com a circularidade do espaço e da cúpula confere uma configuração muito interessante em termos de disposição espacial face às opções deste concerto. “Tanque” é a sucedânea, desta feita a entrar no universo do álbum que (n)os trouxe até aqui O Monstro Precisa de Amigos (1999). A batida certeira de Kinörm soa nos ouvidos, o dispositivo de iluminação multidirecional cimeiro projecta fios de luz branca e do chão surgem feixes amarelos, dir-se-ia que estamos na “Guerra das Estrelas”. Há um solo eruptivo de peixe na guitarra. Ao terceiro assalto, ‘o ringue’ deixa o combatente Manel Cruz sem a camisola de manga curta vermelha, tudo isto sob o signo de “Há-de Encarnar” (Inéditos/Raridades,1997), o líder percorre de lés-a-lés o território do estrado e é quase operático na performance. Nuno Prata está visivelmente satisfeito, percebe-se. A espaços Elísio Donas saltita ao mesmo que pousa os dedos nas teclas e o mesmo acontece no tema seguinte “Pára de Olhar para Mim”, o ritmo está intenso e o som vai-se comportando bastante bem, dentro do quadro de expectativas. É o denominado momento “orgasmos violeta”, houve vários ao longo do concerto. Manel deambula pelas diversas frentes, algo que esta tipologia de palco proporciona. Kinörm salta da bateria para ensaiar agradecimentos sucessivos ao público.

Ornatos Violeta – Palácio Cristal Diogo Baptista/Global News

E o apuro estético prima com as imagens captadas dos cinco músicos através de câmaras em directo a serem projectadas no tecto da cúpula: até as reentrâncias, os buracos dos óculos da abóbada (são 768 na totalidade), dão um ar da sua graça neste espelho imagético, uma espécie de queijo suíço. “Para Nunca Mais Mentir” é muito bem acolhida e o tema mais clássico “Ouvi Dizer” nem se fala, pois é cantado em uníssono e a plenos pulmões pelo colectivo de 8.000 almas. As luzes banham os músicos e o palco com um misto de laranja e verde. Manel canta naquele seu jeito: ajoelhado como se fizesse uma prece, uma súplica. Os músicos recebem um aplauso que é quase um clamor.

E se o tempo no exterior da Arena, em pleno Palácio de Cristal, é uma morrinha enervante para qualquer mortal “Nuvem” diz-nos que o tempo vai mudar, não sabemos se é para melhor. O tema termina com um diálogo de guitarras entre Peixe e Manel, Kinörm também já tirou as vestes cimeiras, deduzimos que para percutir melhor (ou curtir mais ainda). “Como é pessoal, está tudo Porto?”, sai como uma interrogação familiar com a qual o vocalista tenta medir barômetro da adesão e interesse do público ao concerto nesta fase em que estão a sair “Notícias do Fundo”. E com “O M.E.M.” a descarga eléctrica é total, os músicos agitam-se, Manel Cruz está num corrupio, em total frenesim e o público saúda-os efusivamente no final.

Ornatos Violeta – Palácio Cristal Diogo Baptista/Global News

Com “Chaga” o ritmo e a cadência entram galopantes, as luzes estão ‘(e)stróbicas’, há palmas ritmadas e muita gente a saltar enquanto canta de forma bem audível, com as gargantas afinadas. O final é de tal sorte que só Elísio Donas não pode sair da sua órbita gravitacional: Nuno, Kinörm, Peixe e Manel estão em autêntica ‘reunião familiar’ no centro do palco. E há “Coisas” que não são deixadas ao acaso. Nova deriva para ‘toca a reunir’, desta vez do trio de cordas: Nuno, Manel e Peixe – a comunhão do triunvirato dá-se quando o vermelho se apodera do palco. “E agora… a música mais bonita que algum Peixe já compôs…”, anuncia o líder. “Deixa Morrer” avança com todo o seu lirismo perante a plateia e “Devagar” (Inéditos/Raridades,1997) constituem duas oferendas melódicas de elevado quilate compositivo. Pelo meio agradece a toda gente que tornou possível o concerto e reforça o prazer reforçado que é o de fazer este espectáculo no Porto onde, como se sabe, os Ornatos Violeta jogam em casa. A mais bonita das surpresas foi o brinde no final da canção dado pelas lanternas dos telemóveis, que toda gente fez questão de acender.

“Capitão Romance” é um imenso coro cujos corpos se movem para a esquerda e para a direita, em balanço mais ou menos lento. O ritmo está imparável e por isso Manel canta “Pára-me Agora” de corpo agachado, de joelhos, e de uma maneira em que quase implora. Acaba o tema caído no solo. A música finda de forma histriónica. E é com “Dia Mau” que tudo parece acabar por volta das 23h25.

O encore pedido com muito fôlego resulta no regresso da banda poucos minutos depois. O vocalista ainda ensaia um casamento, mas troca o nome dos nubentes num momento de boa disposição. “Tempo de Nascer” (Inéditos/Raridades,1997), uma música em que a luminotécnica nos oferece uma paleta policromática, “Dama do Sinal” do seminal álbum “Cão!” (1997) e também o desembarque musical que se dá com “Fim da Canção”.

Ornatos Violeta – Palácio Cristal Diogo Baptista/Global News

Ninguém ousa desistir e formulação de pedido de novo regresso por parte dos fiéis melódicos dá resultado. “Punk Moda Funk” (Cão!) com aquele solo peculiar de Peixe, “Dias de Fé” e “Raquel” (Cão!) são a trilogia final. Um gáudio indisfarçável no público e a satisfação estampada no rosto e nos gestos dos músicos. A comunhão foi solene entre os músicos e o público. A Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota, vulgo Palácio de Cristal, tinha acabado de passar o primeiro exame desta segunda reencarnação.

Comentários

comentários

- publicidade -