NOS Primavera Sound: 3º Dia – ‘Nos… Sound’: será que ‘Prima…’ em 2020?

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À partida para o terceiro episódio do NOS Primavera Sound, o último da edição deste ano, os motivos para um índice de interesse mais elevado não grassavam, com uma excepção aqui e ali. Ainda assim, dentro dos domínios musicais mais atinentes à genética do festival Big Thief, Lucy Dacus, Low e os velhinhos Guided by Voices talvez constituíssem, do nosso ponto de vista, os momentos maiores do epílogo da festa. Se falarmos de algo que sai fora do ADN da iniciativa, obviamente que teríamos de falar na expectativa e nas massas que conduzem a Rosalía. Mas esse é um assunto para o capítulo do balanço-reflexão sobre o festival. Já lá iremos, mais no rodapé.

Lena D’Água. www.diogobaptista.com

Motivo de interesse começou por ser o regresso aos grandes palcos de Helena Maria de Jesus Águas, mais conhecida por Lena D’Água (na música, pois no teatro não vai há muito esteve em 2017 no palco do Teatro Carlos Alberto, no Porto, com a peça “Ou Isto ou Aquilo”). Respeitinho, muito respeitinho por esta senhora que teve e tem uma carreira (a)firmada no panorama musical português. Com um novo álbum já saído da forja, cujo título é “Desalmadamente”, a cantora deu-se bem na parceria com os Primeira Dama no palco Super Bock. Pelo que vimos ‘in loco’, foi positivamente como se estivesse a cantar com os netos num festival às 17h00 de um sábado.

Em palco, vestida com um casaco amarelo-torrado, calças e sapatilhas, e uma fita no cabelo, que foi sempre uma das suas ‘marcas D’Água’, ouvimos-lhe, entre outros temas do repertório, as clássicas: “No Fundo dos Teus Olhos d’Água”, “Nuclear não, obrigado!” e “Perto de Ti”. A voz está lá ainda inteirinha, com algum traço de jovialidade bem patente, pena foi que o volume sonoro instrumental da banda estivesse demasiado alto para percebermos que ainda sobra muito do (en)canto que fez furor com os Salada de Frutas ou com a Banda Atlântida.

Hop Along. www.diogobaptista.com

Os norte-americanos Hop Along deixaram boas credenciais no palco NOS (17h45) e a voz de Frances Quinlan fica no ouvido, pois, em boa verdade, possui uma marca identitária distintiva muito alicerçada naquela rouquidão característica. “How Simple”, por exemplo, soa mesmo bem, e faz com que até tenhamos curiosidade em vê-los por cá mais vezes. No entretanto há quem deguste os Viagra Boys, banda sueca que animou o palco Seat, sensivelmente à mesma hora, e teve como animador principal o ‘multi-tatuado’ vocalista Sebastian Murphy. O que ouvimos à distância, e as opiniões que colhemos, fazem pensar noutro regresso da banda de Estocolmo. Num festival onde o desporto que mais se pratica é o pingue-pongue entre palcos, alguma coisa fica sempre para depois.

Viagra Boys. www.diogobaptista.com

Batem as 18h50 no palco Super Bock e Lucy Dacus não se atrasa à chamada. A autora de dois álbuns de excelente recorte musical No Burden (2016) e Historian (2018) desfilou temas como “Addictions”, “Nonbeliever”, surgiu até uma versão mais hard rock de “La Vie en Rose” da autoria de ‘Edith… Dacus’ e, entre outros, o belíssimo “My Mother and I”, em que dois elementos da banda estão sentados no piso do palco com uma guitarra acústica e outra eléctrica a tocarem o tema. Lucy pediu desculpa em nome dos americanos, naturalmente pelos desvarios desta era Trump e pelo voto no candidato republicano. “Night Shift” também contou para o alinhamento. Lucy Dacus já cá está, venham de lá as parceiras Julien Baker e Phoebe Bridges, seria bom contar com as Boygenius em 2020, alvitramos nós.

Guided By Voices. www.diogobaptista.com

Ainda a tempo de ouvir uns três ou quatro temas dos Big Thief no palco Seat, “Terminal Paradise”, bem como a melódica e romântica “Real Love”, pontuada pela beleza vocal de Adrianne Lenker, também “Mary” e em registo mais comunitário, já no final, “Masterpiece”. Permanecemos em redor deste ponto para ver como estava de saúde o projecto fundado por Robert Pollard, os Guided By Voices, que desde o longínquo ano de 1983 andam na estrada. Muita gente saiu, muita gente entrou, mas o espírito continua a ser o mesmo: o prazer da música pela música. E isso ficou bem patente em palco. “Holy Rythm”, “Gold Star for Robot Boy” ou “Tenth Century” são temas icónicos da banda e Pollard e os seus exercícios de trapezismo espiritual em palco são uma das curiosidades reservadas a quem o(s) vê.

Rosalía. www.diogobaptista.com

Nova descida da ladeira que conduz ao palco NOS (22h10), desta feita para ver a ‘multi-promovida’ Rosalía. O que vimos foi um pesado aparato cénico em palco, uma parafernália visual bem montada, reconheça-se. Mas, tirando o facto de cantar maioritariamente em espanhol e segundo se diz, divulgar a cultura flamenca com outra roupagem capaz de cativar novas gerações, a verdade é que o formato bem poderia ser tirado a papel químico de Solange há uns três dias a esta parte: fisicalidade em lauta expressão, coreografias ao milímetro e sem improviso, com um menu pré-feito, perfeito, para agradar às massas. Tem o seu valor, é inegável, e pelos vistos aparenta caber aqui, pelo menos até que o hype se esfume.

Tempo para uma saltada, mais ou menos rápida, até ao ‘Seat’, onde a britânica Kate Tempest destila a sua performance musical ao jeito de uma Anne Clark: a matéria poética é convertida em letras de intervenção social (ela que além de poetisa e cantora é também dramaturga, escritora e romancista). Segue-se um pequeno compasso de espera pelos Low, a esperança nocturna depositada em saborear algo com substrato musical sai também algo gorada: os americanos entram numa toada discreta em palco, numa ambiência de beleza marcada pela penumbra, apenas quebrada pelos painéis de ecrãs ao fundo do estrado, e até dá para ver as estrelas, privilégio raro na esfera citadina, mas tirando o momento em que quase evocam o instante “My Bloody Valentine” de 2013, com aquela descarga de distorção, quase mais nada fica a sobrar de um concerto surpreendentemente apagado. É verdade que os problemas de som no início também não ajudaram. Para quem os viu conceder dois espectáculos do mais fino primor musical em terras lusitanas, o que se presenciou no NOS Primavera Sound está uns furos abaixo. Para ajudar à festa vieram os 35 minutos de atraso de Erykah Badu no palco NOS, sem que ninguém viesse dar uma explicação a um público que pagou o bilhete e permaneceu esse tempo ao frio à espera.

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Balanço/Reflexão – Vamos por partes. Volvidas que estão oito edições do Primavera Sound do Porto (OPTIMUS E NOS), a Invicta e Portugal só ficaram a ganhar com mais um pólo de oferta musical no que toca ao segmento mais indie rock, pop e folk. A mescla de nacionalidades que procura as propostas de música contemplada nos diversos programas, desde 2012, conferiu à iniciativa uma dimensão internacional, também fruto da visibilidade do evento-mãe em Barcelona.

Nos últimos três, quatro anos, tem vindo a verificar-se um peso tendencial crescente na inclusão de projectos cujas sonoridades gravitam em torno do hip hop, da electrónica de feição mais comercial e dos ritmos latinos no cartaz do festival. O palco principal começou a ficar refém deste ramal de artistas, sobretudo nos horários mais praticáveis. A taxa de ocupação em horário nobre por parte da tipologia de bandas que anteriormente tinham lugar nesses espaços foi reduzida de forma assinalável.

O NOS Primavera Sound, temos de o compreender, não é uma sociedade filantrópica, é, em primeira instância, um negócio, lucrativo, acrescente-se. Importa perceber se passadas estas oito etapas, a organização quer resgatar os princípios filosóficos que o nortearam na matriz ou se, por outro lado, vai apostar numa vertente mais comercial da oferta.

Caso afine pela primeira alínea, os promotores vão resgatar o conceito de génese, aquele que colocava por exemplo um Jeff Mangum (Neutral Milk Hotel), no final da edição de 2012, a tocar guitarra para uma plateia cheia na Sala Suggia a um domingo à tarde (16h00), em plena Festa de Encerramento do Optimus Primavera Sound. Ousadia e risco da organização do festival premiada com uma sala repleta de gente em horário em que muitos deveriam estar a fazer a viagem de regresso num avião (não esquecer que a maioria de espectadores eram estrangeiros à data). Se a opção recair em projectos como Rosalía, Solange ou J Balvin não faltarão públicos, nem sequer se trata de uma questão de ditadura de estilo ou de conservadorismo de gosto, certamente que esses artistas terão o seu valor e a sua audiência própria. Os festivais não são imutáveis, não se cristalizam, mas importa preservar-lhes a essência: não fazer isso a um festival como o NOS Primavera Sound é desvirtuar-lhe as raízes. Veja-se o que aconteceu, à laia de exemplo, ao Festival da Zambujeira, o que era e naquilo em que se transformou. O anúncio dos Pavement para a edição de 2020 pode dizer muito sobre isto, ou talvez não. Ficaremos sentados à espera.

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