Diogo Baptista/Global News
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A chuva é já uma imagem de marca do NOS Primavera Sound. Os festivaleiros sabem disso, e em abono da verdade às vezes pode até ser uma generosa bênção divina. Nick Cave e os seus apreciadores que o digam. Teria o músico australiano dado um concerto em 2018 da estirpe da excelência sem aquela bátega de água contínua que se abateu sobre o Parque da Cidade? Estamos convictos de que a resposta é francamente negativa.

O dia foi, melhor, a noite foi, de forma vincada, destinada à consagração de Jarvis Cocker. O britânico, ex-vocalista dos Pulp, é um animal de palco e qual pastor competente a quem lhe é confiado um rebanho de fiéis (melómanos, neste caso) soube desempenhar a sua missão até ao ‘Reino dos Céus’, onde fez parar a chuva e através de milagres curou fobias, algo que rima com Messias.

O período nocturno do festival também pertenceu aos Stereolab, a banda onde pontua a francesa Laetitia Sadier transpirou competência instrumental e animou as hostes de peregrinos melódicos que se juntaram em redor do palco Seat. Foi também de Solange pela maior acumulação de público que o palco NOS cativou neste primeiro episódio de uma série de três do Primavera Sound do Porto.

Dino D’ Santiago teve uma combinação bizarra com a Tempestade Miguel na abertura do festival e certo é que, apesar das contrariedades climáticas e da ausência de um público numeroso, o músico com origens cabo-verdianas acabou a dançar e a sair pelo meio da multidão.

Christina Rosenvinge . Diogo Baptista/Global News

Eram 17h50, quando no palco NOS se instalou a espanhola Christina Rosenvinge, a cantora madrilena, que é filha de pais dinamarqueses (e algum ADN britânico à mistura), subiu ao palco e ainda a audiência era algo esparsa. Blusa branca, saia preta e longa, cabelos louros ao vento, conseguiu embalar os presentes numa toada mais ou menos harmónica do diapasão que defende no estrado. E deu boa conta de si na tarefa de aquecer quanto baste os motores musicais neste período ainda precoce do festival.

O lastro melodioso em ascendente notório acentuou-se com os Men I Trust no palco Super Bock. Os canadianos auxiliaram na demanda da temperatura musical para o período antecedente da hora de jantar (se bem que em matéria de festivais a hora gastronómica é uma das variáveis a ter em conta).

Emma Proulx, a guitarrista e vocalista, espalhou com charme a sua voz cálida pelo espaço e os demais elementos revelaram competência nos teclados, à guarda de Dragos Chiriac e do baixo incumbiu-se Jessy Caron, o trio original convidou ainda outro elemento para ‘dominar as baquetas’. Durante 50 minutos fomos balançando por uma atmosfera Dream Pop, Electropop e uma tónica musical muito envolvente, com alguns laivos de Jazz e Rythm &Blues. “Lauren” foi a música mais saudada, com alguma da audiência a trautear e a demonstrar conhecimento prévio em relação ao tema.

Men I Trust . Diogo Baptista/Global News

Da serenidade melodiosa dos Men I Trust passamos para um outro registo, o dos Built to Spill, onde as guitarras, quais motosserras, entram em autêntica ebulição frenética com o baixo e a bateria a acompanharem sem tréguas os ‘outros lenhadores’. Afinal trata-se de um banda que se apresenta nos palcos desde 1992, com formações diversas desde essa altura, embora com o denominador comum de terem Doug Martsch na liderança desde aí: na guitarra e na voz. A memória sonora, por analogia, remete-nos para uns Dinassaur Jr. “Center of The Universe” e “Sidewalk” dão à estampa e há gente que os saúda com algum entusiasmo no espaço anexo ao palco NOS.

Diogo Baptista/Global News

Novo percurso até ao palco Seat, onde o simulador da pose mais elegantemente trôpega no estrado de que temos conhecimento, se apresenta. Um contador de histórias (i)nato, este Jarvis Cocker.

Chega em atitude escultórica e posiciona-se na boca do palco, em cima das colunas de munição sonora. Tem um fato de bombazine avermelhado e muito escuro que namora de forma vincada uma transição para um tom mais acastanhado, bem como uma camisa copiosamente impecável, essa de um padrão acentuadamente vermelho. O cabelo em desalinho e os óculos tão característicos, que quase poderiam ter direito a uma assinatura de modelo com marca para colecção.

JARVIS COCKER © Hugo Lima

“Olá! Como estamos? Ok, Good. My name is Jarvis… Jarvis is…”, brinca com recurso a um trocadilho, após um misto de português e inglês na introdução. Vai contando histórias, de um homem ficcionado, mas também e sobretudo da condição humana plural. Conduz a seu bel-prazer o discurso, afinamos por “Further Complications” logo a seguir. Busca explicações mais ou menos filosóficas para as coisas, diverte-se e diverte-nos, as histórias encadeiam-se em sequências e canta “We Are the Children of the Echo”. Há arco-íris nos focos de luz descendentes.

As imagens do primeiro dia do NOS Primavera Sound – Global News Portugal

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Faz uma incursão pelo discurso da espécie e propõe uma revisão no percurso assumido até chegarmos ao Homo Sapiens. Na essência questiona, com pertinência, o percurso tomado pela evolução humana. Há uma harpa electrónica, uma bateria, um baixo, um violino, saxofone e teclados e sintetizadores que brotam sonoridades distintas, muito próprias de quem sempre foi díspar numa criação musical tipificada como brit-pop. Soa a bossa nova e a um ramal de música electrónica. Jarvis é um animal de palco, todos sabemos disso. A determinada incita o público a agitar a anatomia: “Do you like dancing?”, propõe o músico natural de Sheffield, cidade que cita mais à frente para exorcizar a chuva, dizendo que parece ter trazido a urbe natal até ao Porto: tal a quantidade de água que presenciou durante a tarde e que há-de voltar cair impiedosa sobre os devotos. E acabamos a ser banhados não pela chuva, nesse preciso momento, mas pelos feixes de luz provenientes de uma bola de espelhos e, obedientes, dançamos.

Em comunicação constante com o público, exercita o corpo naquele jeito desarticulado, mas sempre com um enigmático charme e classe. Faz preces, cura fobias a aranhas e cobras a pessoas do público, faz milagres e até atira coisas doces à multidão: rebuçados, segundo parece. Sobrou espaço para reflectir sobre os estragos causados pelos adeptos ingleses (alguns hooligans) e os inerentes conflitos nos Aliados relativos à Taça das Nações, criticou os conterrâneos de forma veemente, mas sem generalizações às pessoas boas que ainda existem, ainda que quem mande no mundo não sejam essas. “I Never Said I Was Deep” ficou para posteridade e as demais idem. A classe de Jarvis em palco é coisa que se perpetua, o NOS Primavera tinha acabado de encontrar o primeiro concerto a deixar saudades na edição de 2019.

Danny Brown. Diogo Baptista/Global News

Tempo de assimilação e de abastecimento do escriba e segue-se uma espera em contagem decrescente para outro dos espectáculos mais esperados da noite: o dos ‘franco-britânicos’ Stereolab. No entretanto, um compasso horário impõe-se até à chegada da banda de Laetitia Sadier ao palco Seat: neste caso, para observação do concerto de Danny Brown, no palco NOS, cujo Hip hop de volume assaz audível parece ser pouco convincente para os presentes.

E depois da despedida do recinto por parte do ex-lider dos Pulp, entram à hora marcada (23h20) os Stereolab. Possuidores de uma cronologia respeitável (quase 20 anos de estrada e de palcos, de 1990/2009 e regresso às lides neste ano de 2019), os responsáveis por um pós-rock, avant pop, electrónica e indie pop, na essência uma mescla enleante de estilos cuja instrumentalidade a espaços também soa a jazz, conseguiram fazer aguentar firme uma mole humana considerável já molestada pela chuva repetida e pelo frio que se ia acentuando.

Stereolab. Diogo Baptista/Global News

Toda a gente, no mínimo, se agitou ao som de “Come and Play in the Milky Night”, “French Disko”, “Miss Modular” ou “Baby Lulu”. A capacidade de renovação e reinvenção dos sobreviventes originais Tim Gane e Laetitia Sadier em cativarem novos elementos integrantes para a “ca(u)sa” musical que defendem desde há muitos anos, são o garante a continuidade de uma banda incontornável. A ordem de trabalhos do dia, perdão, da madrugada prosseguiu no palco NOS com Solange, a irmã de Beyoncé cuja voz é de longe melhor do que a da mana, pelo que nos foi dado a ouvir. Coreografias de palco, corpos roliços e algo desnudados, foram a (a)tracção de público até que a chuva se repetiu de forma desalmada. Os Primavera Bits (ou hits) continuaram a fazer ouvir-se madrugada dentro. Hoje já um outro dia.

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