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“Nos meus trabalhos, em termos de encenação, eu acabo por juntar alguns elementos biográficos com alguns elementos da ficção, mas aqui, neste caso, foi uma coisa até bastante anedótica: em conversa com o meu pai, percebi que se tivesse sido uma menina teria um determinado nome, como os pais fazem quando vão ter um rapaz ou uma rapariga…”, começa por confessar ao Global News Elmano Sancho, o criador artístico do espectáculo “Damas da Noite, Uma Farsa”, que pode ver hoje (e ainda amanhã e domingo), sexta, 10 de maio, no Teatro Carlos Alberto – TeCA, no Porto.

Na sequência da conversa, o também actor enfatiza a graça que lhe teria calhado no caso de ter nascido com o sexo feminino: “ (…) e o nome, seria então Cleópatra – eu até achei um bocado estranho – mas ele disse-me: – o teu nome é Elmano, também não é nada comum, portanto, se fosses menina poderias ser Cleópatra (risos)! E então peguei neste ponto de partida, tão simples, para poder reflectir que mulher teria sido essa Cleópatra, caso ela tivesse nascido”, conclui Elmano.

No TeCA e sob(re) a máscara do transformismo - “Damas da Noite” ou uma farsa que é o xadrez da vida… | “Nos meus trabalhos, em termos de encenação, eu acabo por juntar alguns elementos biográficos com alguns elementos da ficção, mas aqui, neste caso, foi uma Global News Portugal
créditos: Cinda Miranda

Encontrado o embrião para a dramaturgia e partindo do preceito bíblico, inscrito no livro do Génesis, de “Antes de pertencer a um determinado sexo, o ser humano era híbrido”, é nesta linha sem demarcação definida, uma linha com parca fronteira, a da divisão entre o sexo feminino do masculino, que se vai inscrever a aposta cénico-dramatúrgica que tem por base o universo do transformismo.

Para levar com enlevo esta missão até ao seu epílogo, Elmano Sancho convocou três performers para interpretarem “Damas da Noite” com ele e leva-os para o palco do TeCa até ao próximo domingo, dia 12 de Maio. O encenador e actor aposta deste modo no espelho de um “disfarce feminino” em cena, que usa como máscara reveladora de um binómio, de uma ambiguidade de condição: por um lado, traduz uma verdade e, por outro, vai suprir uma falha, uma ausência.

O foco da trama evidencia a ideia que lhe subjaz, a de apresentar no domínio ficcional a personagem ‘em carne viva’ daquela que seria a suposta Cleópatra, a menina que os pais ansiavam ter. A matriz de inspiração para este desiderato foram as drag queens, as tão badaladas ‘Damas da Noite’, aqui como resultado de reflexão sobre o que poderia ser o resultado de um alter-ego feminino. Para esse efeito, o convite para a partilha de cena(s) foi formulado a Dennis Correia (aka Lexa BlacK), Pedro Simões (aka Filha da Mãe) e Marie Carré (vídeo).

No TeCA e sob(re) a máscara do transformismo - “Damas da Noite” ou uma farsa que é o xadrez da vida… | “Nos meus trabalhos, em termos de encenação, eu acabo por juntar alguns elementos biográficos com alguns elementos da ficção, mas aqui, neste caso, foi uma Global News Portugal
créditos: Cinda Miranda

A condição dúplice que o transformismo consagra dispensa de forma prévia uma leitura demasiado complexa ao espectador, desde logo porque a audiência se apercebe face à explicitação notória da circunstância dos intérprete que tudo é teatralizado, tudo é objecto de desempenho, nada é natural, tudo é mascarado: na essência tudo é teatro. Tal como diz a informação do TeCa e em abono desta teoria, “Tudo é artifício: não há corpo natural, não há desejo natural, não há aparência natural, não há jogo natural.”

No TeCA e sob(re) a máscara do transformismo - “Damas da Noite” ou uma farsa que é o xadrez da vida… | “Nos meus trabalhos, em termos de encenação, eu acabo por juntar alguns elementos biográficos com alguns elementos da ficção, mas aqui, neste caso, foi uma Global News Portugal
créditos: Cinda Miranda

A proposta passa pela imersão num espectáculo iminentemente dualista, tendo por base algumas antíteses perceptíveis: a realidade e a ficção, actor e personagem, homem e mulher, teatro e performance, tragédia e comédia, original e cópia, interior e exterior, dia e noite.Damas da Noite resulta de uma co-produção Culturproject, Lobo Solitário, Teatro Nacional D. Maria II, Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão e Teatro Nacional de São João (TNSJ). O espectáculo pode ser visto esta sexta-feira às 21h00; no sábado às 19h00 e no domingo, às 16h00, neste último dia a representação contará com o apoio da tradução em Língua Gestual Portuguesa. Os bilhetes têm um custo de 10 euros.

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