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FITEI/Teatro Nacional São João - Poesia, essa Síntese do Cosmos, na voz de Maria Bethânia… | Talvez não seja mesmo nada arriscado começar pelo fim: as palavras na voz da baiana Maria Bethânia devem estar deliciadas por terem tido direito a tão dile Global News Portugal

Talvez não seja mesmo nada arriscado começar pelo fim: as palavras na voz da baiana Maria Bethânia devem estar deliciadas por terem tido direito a tão dileto tratamento.

A verdade é que a sensação final, de uma certa degustação poética, com a música num plano tão sóbrio quanto funcional no espetáculo, convoca algo de encantatório quando nos dispomos a ouvir aquela voz doce, rouca e delicada da cantora, desta feita num assumido papel declamatório, num sarau onde a voz se afirmou pelas palavras ditas em alternância com o canto. Bethânia agarrou ‘o volante da poesia’ e conduziu os espectadores passageiros por muitas e diferentes ‘paragens’.

Num Teatro Nacional de São João repleto de gente, mesmo em concorrência com outros santos, na passada sexta-feira era também dia “Dia de São Futebol”, é preciso não esquecer, parece que muitos dos caminhos passaram pela sala de espetáculos portuense.

Maria Bethânia entrou em palco com um casaco branco comprido e umas calças pretas que desaguavam nuns pés nus: sim descalça, em comunhão espiritual com o estrado que pisou ao longo de quase uma hora e meia. Os longos cabelos grisalhos continuam a ser uma espécie de imagem de marca, um colar feito amuleto ornamental e pulseiras múltiplas nos punhos conferiam-lhe o derradeiro toque de elegância.

Num palco minimalista em termos de adereços e decoração, onde por oposição às luzes o negro dos panos se destacava, o espetáculo intitulado “Bethânia e as Palavras” arrancou com “Santa Bárbara”, da autoria do compositor e cantor brasileiro Roque Ferreira. Paulo Dafilin na guitarra e Carlos César precederam a artista com a primeira toada musical.

É conhecida a devoção que artista brasileira nutre por Fernando Pessoa, fez menção disso e do orgulho que sentiu em ter lido poesia do autor português na casa que o evoca em Lisboa. E leu e cantou os versos do poeta “Lembro-me de quando era criança…”, “O Sino da Minha Aldeia”, “Eu tenho uma espécie de sonhar sempre…”. Fez uma incursão por “Nessa vida em que eu sou meu sono”, “Aniversário”, “Passagem das Horas”, do heterónimo Álvaro de Campos, cantou “Os Argonautas”, musicado pelo seu irmão, Caetano veloso, arriscou o “Poema do Menino Jesus” e “O Tejo é mais belo…” de Alberto Caeiro, num tributo bem marcado ao icónico e multifacetado homem das letras português.

A jornada de leitura de poetas lusitanos numa noite de tributo a essa lusofonia feita território vasto de versos não se ficou por aqui: ‘Sofia’, António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade e o Padre António Vieira foram também trazidos para o palco. O “Comboio Malandro”, do poeta angolano António Jacinto, e celebrizado por Fausto (Bordalo Dias), foi lido com sentimento e emoção. “Estranha Forma de Vida”, fado imortalizado pela diva Amália Rodrigues foi cantado a preceito, com um toque suave e ligeiramente tropical, mas com alma.

E depois há toda uma ampla geografia que é sinónimo de ‘continente poético e musical’ cujo nome é Brasil. Compositores e cantores como Heitor Villa Lobos, Paulinho da Viola, Chico César, Luiz Gonzaga, Caetano Veloso ou de bandas como os Titãs, e respetivas músicas tiveram direito a evocação. Manuel Bandeira e Guimarães Rosa, dois nomes grandes da poesia do outro lado do Atlântico, tiveram destaque na seleção.

Após uma boa hora somada a uns 15 minutos, o público saudou a cantora com um aplauso coletivo intenso e demorado, fazendo com que a baiana voltasse ao palco para cantar dois temas, um deles de Chico César, não sem que antes de forma emocionada mas com humor refinado tivesse alertado “Leitura não tem bis”, mas bisou nas canções. Ficamos também nós agradecidos pela influência positiva que o professor-poeta Nestor Oliveira despertou nela (e no irmão Caetano) para a arte de ouvir ler e escrever poemas, sem isso não teria existido magia nesta noite de sexta-feira.

João Fernando Arezes

 

 

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