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©Vania Costa, Feira Viva Cultura e Desporto e.m.

Por João Fernando Arezes

E depois de 8 edições, sim desde 2004 que o “Gente Sentada” existe, a nona sinfonia foi portadora de um novo formato, encurtado para um só dia. Coisas da conjuntura difícil em que vivemos. Apesar de tudo, não há razões para grandes lamentos: Little Friend cumpriu. Mélanie Pain entreteve. emmy Curl não desiludiu e Patrick Watson foi uma estrela cintilante a brilhar num concerto onde, por paradoxo, imperou uma doce soturnidade.

O peculiar cheiro a mofo do Cine-Teatro António Lamoso é já um clássico. Faz parte da atmosfera especial que a sala de espetáculos de Santa Maria da Feira vive sempre na altura do Festival para Gente Sentada. Pouco depois da hora marcada para a abertura das hostilidades, o espaço acolhe Little Friend, melhor, John Almeida, o músico que nasceu em Londres e possui raízes no Porto, com o recinto preenchido a mais de meio.

Para con(s)tar: uma bateria sempre muito cadenciada, uma guitarra domada por quem manipulou também as teclas (usadas com contenção) e algumas trocas de guitarra acústica por elétrica, por parte de John Almeida. Os temas que o autor de Sunken Low foi anunciando soaram a baladas folk bem conseguidas, mais ou menos ritmadas, com uns falsetes na voz dignos de registo, mas a deixar a sensação de uma sonoridade ainda em busca de um caminho, de uma afirmação. Percebe-se, desde o início, que a música é para ele um bom veículo para quem sabe contar estórias, algo a que não será alheio o gosto revelado no domínio da escrita para cinema e que o levou até à Vancouver Film School, no Canadá. Teremos argumentista ou músico? O tempo o dirá. Acabou em alta com o tema charneira do álbum pioneiro “We will destroy each other”. Talvez lhe venhamos a agradecer o facto de ter regressado a terras lusitanas.

©Vania Costa, Feira Viva Cultura e Desporto e.m.

 

Paragem… aos poucos vai nascendo um candeeiro suspenso a partir do teto do palco. Esteticamente apelativo, o aparato cénico acaba de ser montado e logo depois, quando o mostrador do relógio sinaliza as 21 horas e 40 minutos, o estrado é já uma conquista de emmy Curl (sim, é com minúscula). Surge trajada à Pierrot, com um vestido preenchido de motivos lunares que a incidência dos feixes de luz dá a perceber. A voz irrompe melodiosa por entre o contrabaixo de João André e os sintetizadores de Eurico Amorim. Ao terceiro tema, o público é brindado com uma oferenda das grandes: “Maio Maduro Maio” é trazido à liça através de um canto cristalino e doce, e o tema parece quase reinventado, com a profundidade das teclas e o contrabaixo personalizado, Emmy afirma o mítico tema de Zeca Afonso e a melodia enreda-nos calorosa e envolvente.

Em “Song of Origin” no qual Emmy Curl, nome artístico de Catarina Miranda, evoca as raízes transmontanas – a cantora é natural de Vila Real -, deu-se um percalço com a guitarra acústica a tocar inadvertidamente no microfone. Os músicos fazem questão de a descontrair, especialmente João André, mas ela própria se apresta a gozar com a situação e com o dano nas programações, logo em seguida. Segue-se a “Dança do Chico”, em que a artista baila em pleno palco com ‘o roadie’ Francisco, o homem portador das soluções para estes problemas, só faltou uma cartolina na plateia a dizer: “Chico Resolve!”. A cantora resume a ocorrência com uma sentença: “Nós somos a banda mais freak que existe!”. O público anui com risadas imediatas.

O concerto prossegue. Em “Sea Fire” as teclas parecem decorar a sala em suaves tons marinhos. Há algo de encantatório na atmosfera que gravita em torno de emmy, sobretudo no que se refere ao imaginário criativo que a artista (re)produz. “Imaginary”, também do novo EP “Origins”, não pede licença para entrar e soa forte nos sintetizadores e teclados a fazerem das suas e a fazerem do tema, o mais dançável e eletrónico do reportório apresentado pela artista. Segue-se “Turn-Off The Light” e a voz ganha novo fôlego e redimensiona a expressividade numa toada que se prolongará para um dos grandes temas da noite, o segundo cantado em português, “Eurídice”. Uma vez mais a voz vagueia límpida e quase etérea pelo espaço. Um final quase perfeito, em jeito de despedida.

Deve dizer-se que cantora ainda patenteia algum indisfarçável nervosismo nas prestações ao vivo e que a espaços os teclados e sintetizadores se sobrepuseram à guitarra de emmy, um volume sonoro prejudicial à total fruição da música. O potencial da artista é intocável e prevê-se que a rodagem na digressão em que emmy se encontra permitirá limar estas arestas.

©Vania Costa, Feira Viva Cultura e Desporto e.m.

Regressados à música, “Bye Bye Manchester” é o título do último álbum a solo da artista (os anteriores intitulam-se “First Date”/2005 “My Name”/2009) e também do homónimo tema que se seguiu, a ambiência musical namora o registo dos Nouvelle Vague, com as teclas em crescendo e a bateria sincopada e certeira. Um tema com o seu quê de autobiográfico e cuja criação decorre das viagens que a levaram a viver em Paris, Londres e Manchester, ela que nasceu em Caen no Norte de França. “Just a girl” é dedicada às raparigas que usam saias curtas e sapatos de salto alto. A voz insinua-se sempre com intensidade e a pose é a de uma femme fatale em registo contemporâneo, mais solto e menos de diva, muito agitado em palco.

E esta é a imagem que permaneceu ao longo do espetáculo, espalhou sensualidade através de um charme cativante, com especial enlevo quando a francesa cantou em inglês. O momento de maior comunhão com o público ocorre na interpretação de “Boys and Girls”, um clássico dos Blur, com toda a gente a cantar em uníssono com a banda. Aproveita “Sa Grandit” para ficar descalça e “La Cigarrette” remete-nos para uma atmosfera Brigitte Bardot e finalmente solta o cabelo, ganha um ar traquina e ensaia uma postura de “Maria Rapaz”. Por seu turno, a bateria e os teclados entretêm-se numa refrega prolongada. Um concerto competente, cumpridor do desígnio de entretenimento chegava ao ponto derradeiro com uma dádiva e generosidade profissional da cantora e dos músicos Julien (bateria) e Guillaume (guitarra e teclas).

©Vania Costa, Feira Viva Cultura e Desporto e.m.

 

Mais um compasso de espera para o último e mais ansiado dos quatro concertos do “Gente Sentada”. Adventures in Your Own Backyard, o álbum de 2012 que Patrick Watson veio apresentar a Santa Maria da Feira, foi tocado quase de lés a revés com virtuosismo e um sentido de estética musical muito apurado.

A entrada foi moldada por um tom de doce e suave soturnidade que se haveria de prolongar até às notas finais do espetáculo. Com luzinhas, pequenas lanternas que os músicos utilizaram para terem o mínimo de claridade em palco. E depois. Bom e depois foi um teatro de magia a invadir o António lamoso. E a sequência talvez seja o que menos importa neste caso, onde temas como “The Quiet Crowd” se afirmam em crescendo na viagem sonora e imagens projetadas sucedem-se a partir de telas em formato parabólico montadas no estrado; ou em “Lighthouse”, ambas onde o piano se amansa e as teclas se espreguiçam com o suave toque de Watson.

E o músico revela a sua faceta divertida com uma sonora e singular gargalhada que lhe sai entre balanços de música. A solo ou em fraterna comunhão com os demais instrumentistas, como em “Into Giants” onde todos demonstram as aptidões vocais e o folk se converte em country, a empatia com os presentes revelou-se sempre em índice elevado. A marca de distinção com que tratou o piano e a delicadeza da voz espelharam refinado talento. “Adventures in Your Own Backyard” o tema é um dos exemplos onde embala com o resto dos músicos para uma jornada de conquista: piano, baixo, guitarra, trompete, violino e bateria numa conjugação melódica perfeita e com uma firmeza sonora grandiosa. Talvez tenha faltado ‘uma grande escapadela’ ao público, mas depois de um encore previsível, Watson subiu ao Céu, perdão, ao “Escadas para o Céu” onde alguns asseguram que ‘a gargalhada peculiar’ se foi encontrar com Baco. Brinde-se então ao 10º Festival para Gente Sentada. Feira Viva e Ritmos vão tratando disso, nós ficamos ansiosamente à espera.

©Vania Costa, Feira Viva Cultura e Desporto e.m.

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