Dinosaur JR. Foto: Lino Silva
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Ao constatar que caiu o pano sobre o Optimus Primavera Sound 2013, somos invadidos por uma nostalgia que já só consegue ser debelada com a ideia de vislumbrarmos a edição de 2014. Apetece subir a ladeira cimeira aos dois palcos principais e lá do alto, daquele miradouro onde a paisagem nos sacia o olhar, enchermo-nos de um lirismo onírico e cantarmos “Verdes são os campos, da cor do limão…”. Mas façamos um retorno nas cronologias, antes de um balanço digestivo do festival.

Sim, finalmente pudemos ver Explosions in The Sky, ainda por cima no seu melhor, os Dinosaur Jr. a mostrarem como ainda estão aí para as curvas e uns My Bloody Valentine que pareceram desejar que embarcássemos todos com eles numa nave espacial. Fomos ainda servidos de uns Liars em versão mais dançável e ficamos com a ideia confirmada de que as Savages podem mesmo vir a dar cartas.

O derradeiro dia começou da melhor forma com a irreverência e boa disposição da jovem banda barcelense The Glockenwise, que já se tornou uma referência do “garage rock” nacional.

Na abertura do palco ATP, deparamo-nos com uma disposição quase simétrica de sintetizadores e dos dois músicos suecos que compõem os Roll the Dice, funcionando como um espelho (estavam frente a frente para as respetivas barbas, literalmente) de meticuloso trabalho de experimentalismo e improvisação eletrónica.

Voltando aos palcos principais, de Barcelos no palco Super Bock passamos para Barcelona no palco Optimus, com o folk-pop dos “Manel” a alegrar a tarde de quantos desfrutavam do Sol, estendidos na relva a guardar energias para o que ainda estava para vir.

Mas a primeira grande atuação do dia estava reservada para os australianos The Drones, que aqueceram o ambiente com o seu rock alternativo, onde sobressaem a guitarra exuberante e as densas letras cantadas pelo líder Gareth Liddiard.

Feito o warm up, chegou o grande momento da atuação dos lendários Dinosaur Jr, que não desiludiram a plateia já bem composta, com uma sucessão demolidora de guitarradas e distorções, deixando bem claro que estão mais jovens do que nunca. Terminaram com a surpreendente aparição em palco do vocalista dos Fucked Up, Father Damian, para cantar o último tema que levou ao delírio a multidão e a versão tão surpreendente, como de final abrupto de “Just Like Heaven”, que ainda fez sorrir e dançar muitos dos presentes.

O ecletismo do festival ficou bem patente nas escolhas seguintes, pois atuavam ao mesmo tempo os “Los Planetas” (para gáudio da multidão espanhola que se fez bem escutar, entoando as canções em perfeita sintonia e cumplicidade com a banda) e os The Sea & Cake (com o seu indie rock suave e de influência jazz).

Um festival com este formato, oferece-nos um ‘kit optativo’, uma espécie de GPS individual de escolhas, que temos de encetar mediante o menu musical que elegemos. Mas a partir das 22h45 todos os caminhos foram dar ao Palco Optimus, onde os grandes ausentes da edição de 2013, os Explosions in The Sky fizeram um exercício de redenção ao mais alto nível, uma expiação do pecado da falta, que se traduziu num exímio bailado sonoro das guitarras, sempre marcado pela batida em cadência certeira da bateria e a espaços, também com o baixo a acompanhar.

O zénite foi atingido com esse hino épico intitulado “Your Hand In Mine”. É um daqueles temas em que é forçosa uma alternância entre um fechar de olhos, um balançar de corpo, e abri-los de novo para descortinar as estrelas no firmamento (sim, o Parque da Cidade é um dos locais no Porto onde isso ainda se consegue fazer) e repetir o exercício, tendo sempre como início um olhar sobre o palco.

Os Explosions In The Sky são de uma gesta mais avançada do post rock, que de alguma forma se inspirou nos Mogwai. Os Escoceses são uma referência para muitas bandas que praticam este segmento musical, mas os americanos são mais evolutivos, perseguem uma tipologia melódica dentro do que os Mono (que bom seria ouvi-los num palco do ‘Primavera’ depois do concerto que vieram dar ao Hard Club, no Porto), os ‘samurais japoneses’ deste género musical, têm vindo a mostrar.

A banda liderada por Michael James tem em Munaf Rayani um ideólogo de sonoridades, um estruturador melómano que estuda os efeitos dos pedais à minúcia e isso foi bem visível, são tonalidades que começam em toada calma e vão por ali fora, entram em descarga elétrica e repousam logo em seguida, espreguiçam-se e retomam fôlego. Um dos concertos do Festival, o dos texanos, sem qualquer margem para dúvidas.

E se no ano passado tivemos uma surpresa denominada The Other Lives, este ano e num outro registo, mas no mesmo local, a popular “tenda”, ou Palco Pitchfork, caíram umas positivas intrusas que dão pelo nome de Savages. As “londrinas”, às quais se juntou a gaulesa Camille Berthomier, a vocalista cujo pseudónimo artístico é Jehnny Beth, afirmaram-se com um concerto pujante, nesta derradeira noite do Optimus Primavera Sound. A quem já tivesse ouvido o álbum “Silence Yourself”, ou picado uns vídeos da banda no youtube, só faltaria o comprovativo da audição ao vivo. E quem arriscou não se arrependeu. Há garra nas quatro donzelas, que para além da frenética vocalista são: Gemma Thompson, que se encarrega da guitarra, Fay Milton da bateria e Ayse Hassan, cujo entretimento é domar o baixo. E bem pode dizer-se que a destilação musical das autoras de “Shut Up” e “Husbands” foi de molde a agitar os corpos. Se conseguirem descolar-se dos epítetos de sucedâneas de Siouxsie and The Banshees e Joy Division (de resto estas influências nada possuem de nefasto, bem pelo contrário), serão um caso sério, bem ao jeito do que aconteceu com os The XX, estamos certos.

Vimos os Liars, a partir de um plano geral, um pouco mais distantes do palco Super Bock onde atuaram. Há gente excitada lá na frente, eles são capazes de surpreender, por tergiversarem entre a aposta no dance punk que fizeram no ‘Primavera’ e o noise rock e o art punk que empunharam num célebre concerto concedido no porão de um barco (Porto Rio), na ‘Invicta’, e a que este vosso humilde escriva do Global News esteve presente e sobreviveu. Em resumo, Angus Andrew e companheiros conseguiram animar as hostes e mostrar que ainda estão vivos.

Numa noite em que foi visível uma diminuição considerável de público relativamente às anteriores, nem por isso a prestação musical, mesmo sem os cabeças de cartaz dos dias precedentes, se pautou pela inferioridade.

Os My Bloody Valentine entraram em palco à hora certa, 01h20, e o som estava feroz, pouco calibrado, mesmo para quem faz pouca questão que as vocalizações sejam pouco percetíveis, como é o caso deles. Abriram com “I Only Said”, e a contrastar com a pose quase estática de Kevin Shields, o conhecido guitarrista/vocalista da banda irlandesa, e da aparente imobilidade de Bilinda Butcher, a única que acompanha o frenesim musical a agitar o corpo é a baixista Debbie Googe. A Colm Ó Cíosoig, o brilhante baterista, não lhe resta outra coisa senão ser o mais positivamente furioso. Segue-se “When You Sleep” e o ciclorama do palco expõe imagens psicadélicas num namoro perfeito com a música.

Mais à frente, “Cigarette In Your Bed” entra mais trinada e em tons de luz rosada. E é em “Soon”, do EP “Glider”, tema incluído mais tarde no álbum “Loveless”, e com as luzes amarelas, brancas, azuis e verdes a matizarem o palco, que a empatia com o público se cria, mesmo que a relação com a multidão se verifique quase exclusivamente à custa da música.

O momento maior ficou reservado para o transe distorcivo dos músicos em “You Made Me Realise”: assemelhou-se a um avião a aquecer os motores e que se apresta para levantar voo. Bem mais de cinco minutos, findos os quais, alguém ao nosso lado, de olhos esbugalhados, e no proverbial uso do vernáculo à boa maneira nortenha, melhor consubstancia o significado e caracteriza a situação: “Foda-se…caralho!”. Uma intensa gargalhada solta-se a partir do rosto dos circunstantes. Com “Wonder 2” finda um dos concertos de boa memória para a edição de 2013. Talvez seja uma afirmação nada consensual, mas assumimos o risco e a opinião.

Fica-nos a mágoa de não termos o dom da ubiquidade, para termos visto os White Fence, mas só um atleta mentiroso dirá que viu tudo no Optimus Primavera Sound 2013. Titus Andronicus, Headbirds Fucked Up e The Magician ajudaram a puxar o pano para baixo.

A edição de 2013 da iniciativa fica assim marcada pelos concertos de Nick Cave, Dead Can Dance, Blur, Swans, Local Natives, Explosions In The Sky, My Bloody Valentine, Dinosaur Jr, Savages, The Sea & Cake, The Drones, mas ainda pela presença celebrada de Daniel Johnston e é sempre de saudar a participação do contingente português: Mão Morta, Paus, Glockenwise e Memória de Peixe.

Deve realçar-se o comportamento exemplar do público, que desta vez foi maioritariamente português, ainda que bastante pincelado por outras nacionalidades, designadamente por ‘nuestros hermanos’: esta maioria ibérica também se fez sentir nos concertos, somos bastante mais audíveis para o melhor e para o pior. Sim, não são só eles que falam alto. As preocupações ambientais, com ecopontos visíveis por todo o espaço, e a assiduidade na limpeza por parte dos funcionários da câmara são pontos a elogiar.

Duas notas a afinar (já que se trata de um evento musical), não mancham de todo a tela, mas têm de ser ditas: a quantidade de casas de banho junto aos palcos Super Bock e Optimus é escassa, cabem lá mais dez, pelo menos. Houve filas intensas.

No capítulo da alimentação, o argumento da higiene sanitária relativamente à comida que os festivaleiros não podem levar para o recinto foi infeliz e injustificada. Se grande parte das comparações com Barcelona são despropositadas, esta é uma medida que só continua a colher em Portugal. Percebe-se o propósito comercial, há mais variedade na oferta, parece que só lá falta o sushi, ou seja, tratou-se e bem da Praça da Alimentação, agora há que tratar do preço da alimentação. Em dias com cabeças de cartaz sonantes, o preço de uma simples ‘sandes’ pode até não fazer a diferença, mas num dia de nomes com menor reconhecimento, pode degenerar numa não opção.

De o a 20: é justo conceder um 18, que é sinónimo de saudades.

João Fernando Arezes

 

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